ESCOLAS MUITO OCUPADAS

Trabalho, organização, articulação, solidariedade e resistência marcam embate histórico entre estudantes e a secretaria de educação do Estado de São Paulo

Texto Roberta Bencini com Fotos de Rogério Albuquerque

Há quem aposte que a tomada das escolas estaduais públicas pelos estudantes secundaristas, em São Paulo, é uma onda que vai passar logo. Parece que não. Basta acompanhar as últimas notícias sobre as ações empreendidas nas 205 escolas ocupadas (dados da APEOESP, em 01/12) ou visitar algumas dessas instituições para se deparar com um cenário encorajador. As escolas estão vivas!

O que se vê são jovens por todos os lados carregando mantimentos e materiais de pintura e limpeza, produzindo cartazes, conversando sobre política, jogando bola, ouvindo música e trocando informações pelo celular. Escolas em paz, com alunos engajados, que estão diagnosticando vários problemas em suas instituições e buscando soluções imediatas e em longo prazo. Nesse movimento uníssono, lideranças começam a surgir e o conhecimento adquirido nos últimos dias parece superar qualquer saber oferecido pelos livros didáticos e em aulas, muita vezes, enfadonhas. No “currículo” da ocupação, as “aulas” são de empreendedorismo, políticas públicas, retórica, análise de discurso, argumentação, organização social, gestão escolar, logística, direito educacional, culinária, jardinagem…tudo junto e ao mesmo tempo, ao vivo e em cores.

No último fim de semana, depois de um feriado prolongado, os estudantes estavam a mil, cheios de tarefas, compromissos, projetos e esperança de vitória nesse embate histórico travado com a secretaria de educação do estado. Duvida? Veja aí.


Lava, lava, esfrega, esfrega

E.E.Pio Telles Peixoto (zona oeste, Vila Jaguara)

“Quando a gente vive a parada é diferente”

Pintura na sala de aula do Pio Telles

Os estudantes do Pio Telles estão transformando banheiros sujos e pichados em espaços limpos e bem cheirosos, enquanto articulam a resistência e trocam mensagens com alunos de outras instituições ocupadas “nem na minha casa eu dei um trato assim no banheiro”. As salas de aula vão no mesmo caminho. A pintura das paredes está a todo vapor! “se nos doarem tinta, vamos pintar todas as salas!” e a cozinha será o próximo lugar a passar por uma “reforma higiênica”.

Aos poucos, os alunos promovem a reorganização que querem e estabelecem novos vínculos, com a escola e entre eles. Um aluno mais velho ensina um menor a andar de skate, outro mostra como pintar corretamente a parede sem sujar o chão, dois dividem uma bicicleta… “Muitos, nem se conheciam, mas agora somos irmãos, tudo parça!”. Enquanto esperam derrubar a atual proposta de educação, orgulham-se de uma conquista: vasos sanitários com assentos e tampas “nem na hora de cagar tínhamos dignidade!”.

Alunos lavam banheiro masculino do Pio Telles Peixoto

Diretora ocupa portão… para apoiar!

E.E. Padre Saboia de Medeiros (zona sul, Chácara Santo Antonio)

“…me sinto na obrigação de estar aqui, de apoiar esses meninos…”

Diretora e professores a postos no Saboia

“Estou aqui porque tenho medo da polícia e de qualquer pessoa mal-intencionada que queira aproveitar a oportunidade e entrar na escola. Os alunos estão numa situação vulnerável e da mesma forma que a comunidade apoia essa ação, há muita gente que não apoia. Temo que possam passar por algum tipo de violência, então me sinto na obrigação de estar aqui, de apoiar esses meninos e atendê-los no que for necessário. O Estado precisa rever seu autoritarismo e entender o momento em que vivemos: os alunos estão mobilizados e não aceitam o que foi proposto. Eles só querem estudar. Eles só querem ter direito à escola, a esse espaço que é de construção do conhecimento, cidadania, encontros e reencontros. Os alunos já perderam tantas instituições…a escola é forte e eles sabem disso. Eles sabem que unidos também são fortes, mas o Estado não tinha se dado conta dessa conscientização. Ao meu lado, tenho muitos professores que estudaram no Saboia e que não querem o fechamento da escola. Eles compreendem que a ocupação é uma ação radical, mas também entendem que é uma forma legítima de manifestação”. Denise Maria Elisei, diretora, depoimento dado no último domingo, às 15h30.

Estudantes do Saboia preparam cartazes

Conjugando o verbo mobilizar

E.E. João Kopke (Centro, Campos Elíseos)

“Chega de preconceito com nossa escola.Chega de tomarem decisões por nós”

Oficina de cartum com Vitor Teixeira | Alunos se preparam para oficina de drones

Bem perto de um lindo cartão postal da cidade, a Estação Ferroviária Júlio Prestes, fica o Kopke, como a escola é conhecida. Mas a instituição também é conhecida como “a escola da cracolândia”. Mudar-se para outra escola, no bairro abastado de Higienópolis, está completamente fora dos planos dos alunos do Ensino Médio e do EJA, muitos filhos de imigrantes africanos e nordestinos. “Nossa casa é aqui. Aqui está nossa identidade”. Nos debates e conversas que acontecem o tempo todo, o empoderamento dos estudantes só cresce. O que era preconceito agora é exemplo de luta e referência em mobilização na ocupação das escolas. É comum encontrar alunos de outras ocupações trocando informação, marcando assembleias e encontros culturais. “Nunca recebemos tanta gente de fora. Está sendo ótimo para nossa imagem”. De portas abertas (mas com muito controle), os estudantes têm recebido também muitos moradores da comunidade, convidados a participar de apresentações de teatro e música, palestras sobre diferentes temas e oficinas. Em pleno domingo, a escola nunca esteve tão cheia. Artistas, jornalistas, publicitários, pais de alunos e professores se revezaram em oficinas de vídeo, arte, cartum, texto e drones.

Roda de conversa com alunos do João Kopke

Visite nossa cozinha

E.E.Cel.Antonio Paiva de Sampaio (Osasco, Quitaúna)

“Não nos deram as chaves da cozinha, mas fome a gente não vai passar”

Cozinha improvisada no Paiva e cuidados com o maracujazeiro

A diretora se recusou a liberar as chaves da escola, assim como muitos gestores de escolas ocupadas. A turma acatou a decisão, mesmo achando muito estranho saber que a cozinha equipada está sem uso, enquanto as refeições precisam ser preparadas no improviso e com pouca segurança. Duas grelhas sobre o fogo produzido com carvão e álcool fazem as vezes do fogão e impõem um clima de acampamento. Meninos e meninas se revezam nos afazeres e se satisfazem com as doações que chegam, a maioria por parte dos pais, enquanto a despensa da escola permanece fechada e sem correr nenhum risco de arrombamento. “Não queremos confusão. Até entendemos essas medidas e nos viramos como é possível”.

Limpeza dos canteiros e do pátio

Enquanto o rango não sai, alunos se dividem na limpeza do pátio e dos quartos improvisados em salas de aula, na vigília do portão, na organização de eventos culturais e na horta que está sendo preparada com cuidado nos grandes canteiros do prédio. “A escola é nossa e vamos provar isso da melhor maneira possível”.

Aluno do Antônio de Paiva no portão principal da escola

Arte para deixar marcas do movimento

E.E. Profa. Petronila L. M. Monteiro (zona sul, Santo Amaro)

“Nunca participamos de um movimento estudantil. Em três dias, crescemos e amadurecemos muito. Está incrível!”

Pátio do Petronila e cartaz com as regras da ocupação

Uma oficina de pintura em CD, no meio do pátio, prende a atenção dos estudantes. Conversas, projetos, reivindicações e indignação estão se transformando em móbiles coloridos para que a ocupação do Petrô, como a escola é conhecida, não seja esquecida. A ideia é pendurar os CDs ao redor da horta e no corredor das salas.

Shirley do Carmo, professora de outra escola da rede pública, não titubeou em visitar a escola ocupada e também deixar sua marca ao oferecer reflexão e arte numa tarde ensolarada de domingo.

“Vejo a ocupação como um movimento legítimo, bonito de se ver. Pela primeira vez estamos ouvindo os alunos sobre a reorganização. O governador esqueceu que na escola a relação que acontece é de sujeitos e esses sujeitos querem ser ouvidos. Já com professores e diretores, a relação é empregatícia. É fácil impor o silêncio. Se o governador não ceder, os alunos não vão sair. E eu espero poder acompanha-los até o final, ajuda-los na reivindicação de uma gestão democrática.”

Shirley com os alunos do Petrô

Hoje tem alegria. É dia de circo!

E.E. Profa. Marilsa Garbossa Francisco (zona sul, Jardim São Luís) “Queremos cultura. Queremos nossa escola. Queremos a vitória!”

Alunos do Marilsa preparam o trapézio

É dia de circo, mas também de torneio de pingue-pongue, futebol e xadrez. É dia de workshop de grafite, futebol, música e leitura. Os estudantes têm se mobilizado para ocupar a escola se ocupando com o que mais sentem falta: cultura. Moradores da periferia da zona sul de São Paulo, os jovens se ressentem das poucas opções disponíveis de acesso ao lazer e à arte. E da fama de desinteressados e baderneiros. “Essa é a oportunidade de demostrarmos nossos reais interesses. Gostamos da nossa escola, queremos ficar aqui, mas queremos muito mais do que é oferecido hoje. Baderna é essa proposta do governo!”.

Ensaio para o espetáculo circense no pátio do Marilsa

No meio do pátio, um trapézio e uma lira circense enchem os olhos da galera. A precisão dos movimentos de acrobacia, e o equilíbrio e o jogo de cintura dos artistas da Casa de Cultura São Luiz atraem e mostram, de alguma maneira, competências que os alunos precisam nesse momento de luta. E revela que eles não estão sozinhos. Esse apoio tem sido crucial para manter a ocupação e ajudar a turma a refletir sobre a escola que querem.

Na última terça-feira, à noite, pais e convidados da comunidade puderam prestigiar o espetáculo e acompanhar de perto o movimento dos artistas e dos estudantes. “Tenho orgulho de ver minha filha aqui defendendo seus direitos”, conta Aldi Gouveia de Medeiros.

A escola é a opção de lazer no Jardim São Luís

Agora sim uma escola acolhedora

E.E.Sinhá Pantoja (zona sul, Recanto Santo Antonio)
“Criamos um ambiente acolhedor, bonito e limpo que não existia”

Canteiro de flores do Pantoja

Depois de uma longa escadaria, a arquitetura do improviso salta aos olhos. O prédio da escola Sinhá Pantoja foi crescendo, ao longo dos anos, aparentemente, sem muito planejamento para poder atender a grande demanda de sua comunidade. Já a construção da história do lugar foi feita por muitos moradores do Recanto Santo Antonio que passaram por lá, que têm filhos matriculados na escola e não veem a paisagem do bairro sem essa referência de educação. “Não dá pra entender o fechamento do Sinhá”.

No “quarto”, videogame para ajudar a passar o tempo

O depoimento de um aluno do 2° ano médio do Sinhá mostra o papel primordial de uma escola diante de jovens em situações de risco nas periferias do país.

“A escola é uma das poucas coisas boas que temos no bairro. Ela é nossa salvação. Olhe ao redor: o que temos? Todo mundo da comunidade estuda aqui. Meus pais estudaram aqui. Temos uma história que precisa ser preservada. Se tivermos que mudar do Sinhá, muitos alunos vão abandonar os estudos. A outra escola só oferece ensino médio noturno. E a previsão é que as salas terão,em média, sessenta e cinco alunos. Como um professor será capaz de dar uma boa aula assim? Por que nos tiram as opções, se precisamos sim de mais alternativas para nos organizarmos numa fase em que começamos a trabalhar e a nos preparar para o vestibular? Sem contar que muitos estudantes têm medo de estudar à noite por causa da violência da região. Estão mexendo com nosso futuro. Foi muito duro ouvir a diretora defender o fechamento de nossa escola. Não pode ser. Descobrimos que a escola está melhor agora do que antes. Limpamos o prédio, organizamos um canteiro de flores e uma horta, fizemos saraus, oficinas de bordado, jogos. Ninguém quer ir para casa, nem para descansar. Criamos um ambiente acolhedor, bonito e limpo que não existia”.

Vista da escola: O Sinhá e o bairro se misturam

Lição de convivência

E.E. Profa.Josepha Pinto Chiavelli (Centro, Jandira)

“Não é fácil compartilhar em tempo integral, dividir intimidades, cumprir novas regras, mas se descobrir capaz de fazer tanta coisa é muito bom!”

Roda de violão com a galera do Josepha

A rotina dos alunos do Josepha, em Jandira, mudou radicalmente nos últimos dias. De repente, chegou a notícia do fechamento do Ensino Médio. O descontentamento tomou conta, virou revolta e se transformou em um movimento de ocupação do colégio. Hoje, parte dos estudantes convive 24 horas por dia. O desconforto de tomar banho de canequinha e dormir em uma sala de aula não é nada diante do tamanho da responsabilidade exigida para cumprir tantas tarefas e enfrentar questões jurídicas complexas.

Depois do almoço, cuidar do peixinho dos professores

Do lado de fora, mães ocupam a calçada e até montaram barracas para oferecer bens preciosos: apoio moral e segurança. “Os alunos estão ótimos, ativos e esperançosos da vitória, mas é muita pressão. Estou aqui para que mantenham o foco e continuem a reivindicar seus direitos”, diz Eli Conceição Bras, mãe de uma estudante do Ensino Médio. Ela formou uma comissão de pais para tirar dúvidas das famílias e angariar doações de alimentos, água e produtos de limpeza.

Do lado de dentro do prédio, rodas de violão, sessões de cinema, jogos e conversas relaxam os jovens depois do trabalho diário de faxina na escola. Cuidar do aquário que fica na sala dos professores pode ser mais uma responsabilidade inesperada, mas simbólica neste cenário de relações e diversidades.

A sala com projetor virou cinema


Colabore conosco: pontojornalismo@gmail.com