Outside Home Version

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Texto publicado no n.º 2 dos Cadernos de Dança (Dezembro 2006), uma edição da Companhia de Dança Contemporânea de Évora. Sobre a apresentação de Vou A Tua Casa (Lado C) em Évora, no Festival “Habitar A Cidade” (Outubro de 2006).

Levar o Vou A Tua Casa para uma cidade que não Lisboa é sempre um momento especial. Quando isso aconteceu pela primeira vez (Festival A8, Torres Vedras, 2004), achei que o espectáculo iria definitivamente perder uma parte considerável da sua sustentabilidade conceptual; na génese do projecto subsiste a minha relação estranha com a cidade onde vivo e trabalho há 10 anos, sendo que o espectáculo a ela se refere, confrontando-a, denunciando-a, secretamente desejando-a. No limite, o projecto só pode acontecer, factualmente, em Lisboa. Com o tempo, porém, foi-se tornando evidente para mim que havia muito mais no Vou A Tua Casa para além do cordão umbilical que o unia a essa génese. Na verdade, o Vou A Tua Casa está cheio de cidades dentro; se não cidades, então sítios e/com pessoas. São as pessoas, aliás, e não os sítios onde elas estão/vivem, que definem e consubstanciam a mecânica maior do projecto. Depois de Torres Vedras, seguiram-se Londres, Covilhã, Caldas da Rainha, Braga… Em todos esses momentos, o espectáculo cresceu em várias das suas dimensões discursivas, conceptuais, filosóficas ou meramente formais. Mais do que as cidades, mais até do que as pessoas, aquilo que invade o espectáculo, transformando-o, é essa ideia quase-romântica de viagem. Ir ter com pessoas e falar-lhes do porquê de estar ali. O Vou A Tua Casa, seja qual for a parte da trilogia que se encontra a ser apresentada, transforma-se rapidamente em road movie, roteiro gastronómico, aventura teatral assistida em viagem, diário de bordo… Ideias-acção que eu sempre desejei para o projecto, que sempre tentei construir, às vezes pela inevitável e forçada elaboração de “ficções dramatizadas”, que me interessavam muito pouco, ou cada vez menos... Por isso fui-me desinteressando pela repetição do projecto em Lisboa, mesmo sabendo que estaria a expandir a performance e a reescrevê-la continuamente, menosprezando-lhe a biografia por um lado, mas mantendo-a viva e dinâmica por mais tempo, por outro. Consequentemente, fui tentando perceber a forma como as realidades locais onde fui acolhido me obrigavam a novas reformulações. Tudo isto explica, em parte considerável, o porquê de ter ficado excitado com a simples ideia de levar para Évora justamente a parte da trilogia que maiores problemas do foro “dramatúrgico” poderia eventualmente levantar: uma performance construída para acontecer na casa onde habito, e totalmente embrenhada nessa intimidade exposta, mas que agora perderia quase que por completo a sua raison d’être, ao instalar-se num espaço provisório e estranho. Sem atender aos mecanismos de adaptação dramatúrgica que sempre acontecem nestas circunstâncias — creio que interessam muito pouco para este texto—, preocupava-me o entendimento global do projecto que eu teria que exigir ao espectador, num exercício que desde logo assumi como perigoso e altamente falível. Desde o convite que me foi feito pela Companhia de Dança de Évora, em Junho, até à apresentação do projecto, em Outubro, a minha vida (a pessoal, que é também aquela que descarnadamente exponho) deu uma volta de muitos graus, e a casa-inspiração-iniciática deixou de ser a minha casa, para passar a ser uma realidade provisória à espera de melhores dias. Saio dessa minha casa provisória, ainda em modo estaleiro — que já não é minha, mas na qual ainda vivo, e da qual também desejo sair o mais rapidamente possível –, numa bela manhã, auto-estrada abaixo, dentro de uma carrinha da Câmara Municipal. Levo na mala parte do meu enxoval: pratos, talheres, tigelas, toalhas… Numa outra mala a minha roupa. Na mochila as minhas revistas, os meus livros de culinária. O meu computador portátil novo. A minha música. O meu telemóvel. Tudo dentro de uma carrinha que me faz recordar a última vez que mudei de casa. Estaria a fazê-lo novamente? Seria isto um ensaio para algo que vai acontecer em breve? Uma estratégia de aliviar a dor maior que aí vem com doses homeopáticas, diárias, de catástrofe emocional? De repente, ainda nem cheguei a Évora e já tenho os “problemas dramatúrgicos” resolvidos: esta Outside Home Version deste meu Vou A Tua Casa (Lado C) será exactamente sobre isso, sobre essa vontade de sair, de mudar, se possível de casa, se possível de cidade, se possível de mundo. Mudo-me para Évora como quem se muda para sempre, e nesse estado semi-nómada tentei viver (e ser vivido/visto) durante os dias absolutamente brilhantes, ainda que chuvosos, que me foram proporcionados por aquela ideia de cidade, por aquela ideia de Festival, por aquelas ideias, as das pessoas. Bastou-me aceitar este estado de graça quase espiritual, e praticamente não tive que fazer grandes alterações à peça; limitei-me a partilhar o que tinha e o que sentia com quem veio para estar/ficar comigo. E, claro, a peça cresceu, como seria de esperar. Mais uma vez se fez prova da total indissociabilidade da arte (a minha) com a vida (a minha e a de todos). Fiz muitos amigos em Évora, com quem mantenho o contacto (performance como objecto inacabado e aberto oblige) e julgo que deixei marcas, sob a forma de memórias e sob a forma de vontades. A corda é esticada até onde se pode… Em Évora, foi-me dada liberdade total para rebentar a corda, caso fosse necessário. E por isso devo usar este texto (que duvido esteja a cumprir o desafio proposto pela Companhia de Dança de Évora), para fazer um justíssimo agradecimento à equipa de 4 pessoas que me proporcionou as condições mais do que ideais para que este momento acontecesse: obrigado Rafael, Nélia, Rute e Bruno! A eles junto o grupo disponível de espectadores, observadores e artistas convidados, que aceitou sem preconceitos os meus dogmas e as minhas manias, ajudando-me a resolver os problemas do espectáculo e da vida de uma forma avassaladoramente generosa, levando até às últimas consequências a minha vontade quase programática de privilegiar o tempo para lá do tempo das performances, como se aquilo que realmente e concretamente acontece no momento em que a performance de facto acontece fosse o menos importante, ou simplesmente uma preparação para algo que há-de vir. …


Uma alucinação coletiva de Rogério Nuno Costa

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I.

Finn’issage

(Sai.)

Pano.

II.

Real Idade

(Cantando.)

Ai destino, ai destino. Ai destino que é o meu. Ai destino, ai destino. Destino que Deus me deu. O amor bateu à porta, e eu deixei-o entrar. Parecia tão diferente, confiei e fui em frente e com ele quis casar. Infortúnio do destino esse meu passo infeliz… Fui amante atraiçoado, fui marido mal-amado, sem saber que mal eu fiz. O amor tem destas coisas: no princípio tudo bem. Quando se vê a verdade, p’ra voltar atrás é tarde, p’ra recomeçar também.

(Dá meia volta e fica no mesmo lugar.)


Em Inglês: The art of bowing to the East without mooning the West.

Em Português: Nem mais, nem menos, nem mais ou menos. Igual.

Em Língua Franca: Kolmas Tie™.

SÍNTESE

Terceira Via™ não está na realidade. Terceira Via™ É realidade. Ao mesmo tempo paralela e perpendicular à que já conhecemos. …

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Rogério Nuno Costa

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