MYOPIA IS THE NEW UTOPIA

Rogério Nuno Costa
Nov 26 · 3 min read

um poema (in)visual

Tudo o que parece, não é.

Neste parque temático (Times New Roman, 12, justificado à esquerda para se ver melhor), redime-se o pecado da auto-ilusão. Uma só toma é suficiente para deslocar a retina 3D do leitor, substituindo-a por uma visão a-dimensional: o leitor deixará de sentir que está dentro, para passar a sentir que está (de) fora. Que é transparente. Que observa os dois lados, o meio e o todo. Assim:

I

Sou um visionário: vejo mal.

Mas ao contrário: em fuga, para trás.

A ponta dos meus dedos toca a pluma com que escreve Nostradamus. Sigo, cego: tropeço em Caspar David Friedrich. Fotografo. E filtro: fumo de cena.

Em neo-clássico: mise-en-abîme. Em romântico: missing link.

Confundo Turner, o pintor, com Turner, a cantora. O Turner Prize deveria ser entregue durante a cerimónia dos MTV Video Music Awards. Todos os trocadilhos e todos os jogos semânticos são míopes:

Trompe d’Oil™.

II

Não sou capaz de focar o centro.

Só tenho visão periférica:

Sou aquilo que vejo.

III

O neo-pós-anti-retiniano é o novo avant-garde.

Ou então o novo preto: não vejo nada.

Isto é: vejo Nada.

IV

Na feira popular neo-darwinista, a carne é servida crua: serve todos os palatos retro-futuristas e segue todos os hipsterismos gastronómicos cultivados numa quinta biológica chamada Facebook. Existe um missing link do tamanho de um abîme que separa a Arte da Decoração de Interiores. É possível corrigi-lo com uma operação (conceptual) a lazer (ler “lei-ser”):

Chama-se Homeopatia™.

O Mundo é agora naturalmente desfocado, desfasado e desfeito. Sem a ditadura da clareza, da nitidez e da ausência total de dúvidas, o Mundo é agora perfeito. É quase como filmar uma cena de guerra náutica num copo de plástico para depois ampliar o resultado na tela do cinema.

Um problema de escala sublime e a-temporal:

O Caspar David Friedrich a ganhar o Turner Prize.

V

A Oftalmologia moderna ainda não descobriu maneira de remover com segurança os óculos 3D que muitos espectadores insistem em levar, acoplados à retina, para dentro das salas de espectáculos:

Chama-se Conjuntivite™ — a obsessão pelos conjuntos, a mania das conjunturas, a atracção incontrolada pelas conjunções. Efeitos primários: grupos, companhias, plataformas, associações. A contemporaneidade em estado de (glau)COMA.

VI

Mas o maior obliterador da visão é mesmo o Coração™, esse estigma astigmata, que nos faz ver o bonito no feio, e escrever clichés como o que acabei de escrever.

O amor do tipo “à primeira vista”, por exemplo, é outro mise-en-abîme com falta de visão — queda livre. Cataratas.

Para mal dos nossos pecados, é mesmo preciso ver para querer.

VII

Acredito num Mundo megalofísico onde todos seremos vírus. Sem tangibilidade, sem existência corpórea, só éter. Meta-organismos salubres e inodoros, passivos na sua atitude estritamente contemplativa, mas utilitários na sua condição una de observadores infinitos. Organismos que vêem. Acção singular mas pluri-direccionada. Entidades uni-celulares munidas de um só olho míope que vê, simultaneamente, o passado, o presente e o futuro condensados num só prisma arquitectural. Um só destino: sermos espectadores de nós próprios.

VIII

UniÓpticas™:

Não corrijo a miopia — gosto mais de ver ao perto.

O longe está muito longe.

O aqui é melhor.

***

Rogério Nuno Costa

Olho esquerdo: -5.75. Olho direito: -7.00


[Texto escrito para a Flanzine #7. “Miopia”, 2015]

    Rogério Nuno Costa

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