Outras Questões

Rogério Nuno Costa
Feb 18, 2017 · 19 min read

Conversa virtual moderada por Dinis Machado, Diogo Mendes, Flávio Leihan, Inês Nogueira, Jorge Gonçalves, Renata Portas, Rogério Nuno Costa, Sérgio Diogo Matias, Sade Risku e Susana Otero, com participação de todos eles e coordenação e edição de Rogério Nuno Costa.

“Insólidos” de Sérgio Diogo Matias para o Outros Formatos II/Ballet Contemporâneo do Norte. © Miguel Refresco

TESE. “Outros Formatos” desafia artistas (não necessariamente coreógrafos) a questionar os seus modos de produção e as suas metodologias artísticas. Até onde é que permitiste que a essência deste programa alterasse os teus modelos de criação, os teus mais insistentes lugares comuns, as tuas zonas de conforto?

Rogério Nuno Costa | Este diálogo, que é também uma entrevista-em-diferido e uma troca de impressões (via e-mail) fugaz e quase impulsiva, é tão experimental quanto o programa do Ballet Contemporâneo do Norte sobre o qual se debruça. Propõe-se a um paradoxo textual que me interessa e que tem assistido a (quase) todas as minhas contribuições enquanto documentador no contexto desta companhia: a ficcionalização de uma conversa “real” através da ampliação processual da sua virtualidade, quiçá da sua impossibilidade. Ou sobre os desafios e os obstáculos que se colocam à criação, e posterior textualização, de um pensamento colectivo. Neste contexto, interessa-me a radicalização dos processos de provocação (a escolha desta palavra não é inocente…) que alicerçam toda e qualquer discussão. Consequentemente, interessam-me as contradições e as incongruências subjacentes a uma experiência habitada “tectonicamente” por pessoas muito distintas, elevando a inevitabilidade da falha e do atrito a uma sublimação que oblitere esse filtro do Instagram designado de sucesso (é cosmética, não existe!). Em processo algum “correrá sempre tudo bem”, impossibilidade teórica que se torna na raison d’être de qualquer programa laboratorial que tem no risco a sua base estruturante. E é esse o paradoxo deste texto, se calhar também do programa “Outros Formatos” — perceber como (e se) podemos discutir em conjunto, mesmo quando já só estamos a falar sozinhos…

Sérgio Diogo Matias | É quase impossível não nos deixarmos afectar pelas características deste projecto. Apesar da minha proposta coreográfica partir de um sítio muito específico, fui sempre tentando limar as arestas dos meus desejos e ímpetos de forma a respeitar o carácter do projecto, nomeadamente no que diz respeito ao tempo de criação, às condições técnicas e, obviamente, às pessoas com quem trabalhei. Pude experimentar esse exercício nos papéis de criador e de intérprete, entendendo o acto criativo como um exercício de compromisso entre aquilo que desejo artisticamente e a realidade em que posso trabalhar.

Sade Risku | Sendo este um dos meus primeiros trabalhos enquanto coreógrafa, não posso dizer que tenha já uma metodologia de trabalho própria. Por tal motivo, encarei este projecto como uma plataforma de procura e de observação, um mecanismo para encontrar essa mesma metodologia. A surpresa de ter que iniciar uma criação de raiz, na condição de coreógrafa, foi por si só um mecanismo que me arrancou da minha zona de conforto. Tentei relembrar instrumentos que outros criadores usaram em processos onde estive enquanto performer, adaptando-os ao contexto actual. O programa deu-me liberdade para poder experimentar sem ter que fazer demasiadas previsões em relação ao objecto final, permitindo-me trabalhar a evolução natural dos materiais de forma intuitiva.

Jorge Gonçalves | O convite do BCN e do Dinis Machado para a concepção de um solo teve premissas definidas: ser uma transmissão de uma prática discursiva para um corpo em que não existem adereços, cenografia, figurinos e desenho de luz, num solo que deverá ter a flexibilidade de poder ser apresentado em qualquer espaço e com uma duração que deverá rondar os dez minutos. Dentro deste formato, eu e o Dinis tivemos carta branca para imprimir uma dramaturgia que se foi desdobrando a partir da rotina diária que tivemos no estúdio. Respondendo ao rigor do formato, o processo de trabalho incidiu sobre as performatividades inerentes à recepção da transmissão das práticas de movimento do Dinis e o que estas produziam por si próprias na duração do solo.

Renata Portas | Entendi este projecto como um desafio, uma deslocação do que habitualmente faço, porque estou profundamente enraizada no teatro, não só como algo que faço, mas como algo que sou (o maldito relativismo da época em que vivemos…). Ao fim da primeira semana de ensaios, percebi que, ao alterar o modo de ensaiar, não se altera o modo de pensar; quanto muito, perdemos o pé, por estarmos em águas desconhecidas…

Susana Otero | Interessam-nos criadores que tragam metodologias de trabalho totalmente novas. O processo é tão mais enriquecedor quanto mais nos permitirmos a reflectir e a pôr em causa o nosso próprio modo operativo. E desse diálogo criam-se novas incertezas. E novas certezas também. É muito parecido com um grande caos que se equilibra entre pequenas tensões.

Flávio Leihan | Por norma, enquanto artista, não me exponho dessa forma, nem deixo que interfiram a esse nível. Digamos que é algo completamente fora do meu método e processo de trabalho. Não faz parte da “verdade” recorrente que procuro na arte, daí ter uma necessidade constante de trabalhar com pessoas com alguma especificidade, e com elas fortalecer um universo novo para mim. Ou seja, não sinto que este programa tenha alterado algo. Mas sinto, contudo, que consegui fazer o shift e não criar um problema à proposta inicial do BCN. Para tal, o processo consubstanciou-se numa experimentação de diversas ferramentas e métodos para testar possibilidades de materialização, não só de ideias, mas de “ideais”.

Rogério Nuno Costa | Não creio que o objectivo do programa seja “mudar” as pessoas e/ou as suas práticas nesse sentido tão literal. Quanto muito, trata-se de uma proposta de contaminação e consequente re-definição dos nossos imaginários, que muitas vezes funcionam como ditaduras auto-impostas. É mesmo preciso “sair da caixa” de vez em quando, não para a destruir, mas para a observar, preferencialmente de fora, e assim entendê-la melhor. O mais provável é que voltemos lá para dentro, no fim. Isso aconteceu-me com o EURODANCE, que criei em 2014 para a primeira edição deste programa. Fi-lo na condição de coreógrafo, nomenclatura que me era totalmente estranha. Ainda antes de começar os ensaios, tomei a decisão de abraçar o jogo subjacente ao convite do BCN, deixando-me flagelar por um processo que contrariava todos os meus dogmas, a começar justamente pela recusa do “ensaio” (palavra e acção que abomino), por exemplo. Aprendi que o pânico é afinal um dos meus melhores amigos! E percebi, no final, que apesar de ter seguido um processo que entendia como opressor — mesmo que de uma opressão auto-imposta –, o resultado foi surpreendentemente revelador daquilo que são as minhas preocupações artísticas e filosóficas. Considero que qualquer artista deve, esporadicamente, entregar-se a este exercício de “provar do seu próprio veneno” (eu, por exemplo, neste texto, a responder à minha própria pergunta…), jamais fazendo coincidir vaidade com propriedade (a intelectual e todas as outras). Essa estará sempre lá, seja qual for o resultado…

Diogo Mendes | Não posso dizer que tenha saído da minha zona de conforto porque acho que não tenho uma… Ou talvez a minha zona de conforto seja não ter uma zona de conforto! A dificuldade do projecto levantou-me algumas questões de logística de material, essencialmente. Por norma, dou prioridade à parte criativa em detrimento da técnica, mas neste projecto foi mais complicado. Sinto que o meu desafio e mudança ocorreram aí.

Susana Otero | Do ponto de vista da direcção e da organização do projecto, estas criações saem fora da normal metodologia do BCN, daí o nosso interesse em continuar a desenvolver um formato que exige uma reorganização e troca constante de papéis, logo, uma negociação e uma flexibilização permanentes. Começamos por construir em cima de uma base que é igual para todos, com as mesmas regras; a partir daí, começam as negociações.

Inês Nogueira | É como abrir a porta de casa e convidar outras pessoas a entrar e a cozinhar à sua maneira. Para tal acontecer, não podemos ser territoriais, temos que nos deixar des-formatar. Tudo o que é seguro e previsível não é desafiador, e por isso vejo estas experiências como momentos de renovação da própria companhia.

Renata Portas | O exercício obrigou a confrontar-me com coisas que queria falar, mas que normalmente não estão na esfera do que interrogo no teatro: a pulsão do corpo, um lado mais kitsch da cena, e a ideia do movimento como construção de algo. Mas não se pode fugir ao que somos. Rapidamente percebi que teria de trazer para este projecto tudo aquilo que habitualmente convoco: o texto, a leitura de mesa, a poesia, o estudo, a dimensão maior, o universo sci-fi, a teatralização do palco e do seu artificio…

Dinis Machado | Eu penso que todos os processos de criação e de pesquisa, enquanto momentos de encontro com outros artistas e, consequentemente, com outros modos de fazer e pensar, solidificam-se a partir de uma dialética entre um discurso e uma prática contínuos e a contaminação que se opera nesses encontros. Saber navegar esta dualidade sem habitar a total contaminação acrítica nem a persistência na coerência de uma persona e de um discurso artistico absolutos, parece-me essencial para a relevância de qualquer proposta que se quer construtiva.

“Incoherent Conversation” de Sade Risku para o Outros FormatosII/Ballet Contemporâneo do Norte.  Miguel Refresco

ANTÍTESE. “Outros Formatos” é um convite para um diálogo, não uma encomenda (no sentido lato do termo) a criadores. Como é que fizeste a negociação entre a macro-realidade do programa (e do próprio BCN) e as tuas visões e projecções iniciais?

Rogério Nuno Costa | A ideia para este texto é dar voz, de uma forma o mais democrática e “holística” possível, às perspectivas individuais de cada colaborador em relação ao projecto como um todo, independentemente do papel desempenhado (coreógrafo, bailarino, director, produtor, supervisor, escritor, designer de luz/técnico, e todos os possíveis in-betweens). As questões/provocações por mim preparadas (que foram iguais para todos) pretendem clarificar as especificidades dos processos criativos de cada colaborador, os obstáculos encontrados, e os resultados obtidos. O objectivo final é a produção de um texto (este) que condense a possibilidade de um pensamento colectivo em relação ao programa “Outros Formatos” e a sua relevância para a actividade do Ballet Contemporâneo do Norte enquanto companhia de dança experimental (uma ideia que explorarei num texto futuro…). O meu esforço editorial foi o de conciliar essas micro-perspectivas com a identidade singular dos “Outros Formatos”, trabalhando todos os elementos em jogo dentro de um diálogo ficcionado, sem contudo deturpar a verdade das palavras e das opiniões. E permitindo-me, também, a jogar o jogo, não nessa condição invisível e maniqueísta d’A Voz da “Casa dos Segredos”, mas enquanto o repórter que está no terreno a sondar as opiniões do público em relação ao programa. Assim:

Renata Portas | Foi delicado, nalguns aspectos. Por exemplo: a extensão do espectáculo, ou o ter de confrontar meios para a produção de três espectáculos, criados de modo completamente individual, a apresentar numa só noite. Durante os ensaios, e à excepção da questão do tempo, raramente me concentrei nesses aspectos logísticos, ou de produção…

Sérgio Diogo Matias | Inicialmente fui convidado apenas para ser intérprete de duas peças. Só numa fase mais avançada me foi proposto coreografar uma peça de 15 minutos. Essa liberdade na troca de estatutos foi muito enriquecedora. E considero-a progressista no contexto de uma companhia de dança. Não existe uma definição fixa de locais, ou de papéis a cumprir, mas antes uma urgência artística de permitir que a estrutura se rearranje consoante as necessidades específicas de cada projecto. Os próprios “papéis” são discutidos, as ideias e os objectivos vão sendo redefinidos ao longo do processo, uma atitude que, a meu ver, enriquece o pensamento e as linguagens individuais.

Diogo Mendes | No meu caso, senti sempre uma enorme liberdade (baseada na confiança) para que o meu trabalho individual nunca fosse questionado ou “preocupante” dentro do trabalho de grupo. Senti que lhe foi dada a importância que merece, sem nunca constituir uma questão duvidosa que precisasse de ser negociada, falada exaustivamente e/ou questionada.

Flávio Leihan | Inicialmente senti uma grande dificuldade em relacionar a minha visão com o método e premissas do programa. Foi complicado gerir a complexidade plástica que estou habituado a desenvolver nos meus processos, por exemplo. Por outro lado, posso dizer que aceitei o desafio precisamente com esse propósito: ver de que forma esta colaboração possibilitaria novos métodos, perspectivas e conceitos de trabalho. Como exemplo, posso falar da evolução com que lidei ao abandonar as criações a solo (criador/intérprete) e retomar a composição coreográfica de grupo.

Sade Risku | Eu gostaria de destacar a presença da supervisão crítica da Susana e do Dinis ao longo do processo de criação da minha peça. Foi fundamental, pois fez-me observar no material dimensões que não eram tão óbvias para mim. Graças a esse diálogo, tornei-me mais consciente das minhas projecções, sobretudo as sub-conscientes, que considero serem o motor de qualquer criação.

Susana Otero | Nos últimos anos temos questionado qual o papel e pertinência de uma companhia de dança no momento actual, o que quer dizer que andamos em experimentações, tanto nos processos como nas metodologias de trabalho. Queremos abandonar essa lógica de criação que dita que é sempre o criador/coreógrafo a impulsionar a realização de um novo trabalho; quisemos experimentar, por exemplo, como é que pode um grupo de intérpretes, todos eles também criadores, constituir a força motriz e o impulso inicial. Esta quase redução do poder do coreógrafo como força produtiva preponderante aumentará o nivelamento hierárquico do processo criativo, tornando-o mais horizontal, assim integrando todos os agentes envolvidos num processo de diálogo.

Inês Nogueira | Qualquer projecto tem um impacto transformador a nível pessoal. Principalmente este, que inclui tantas pessoas diferentes a pensarem de maneiras distintas. É preciso saber lidar com esse impacto e é preciso envolver toda a gente numa proporção directa entre aquilo que elas querem fazer e aquilo que nós queremos que seja o “Outros Formatos II”: uma porta aberta.

Dinis Machado | Propus ao BCN co-produzir este solo do Jorge Gonçalves como uma peça comum a dois programas: o meu projecto de longa duração “BARCO Dance Collection” e os “Outros Formatos”. Trata-se aqui da criação de um espaço de intercepção de vontades, projectos, metodologias e meios. Cruzar discursos parece-me particularmente feliz quando se chega a uma partilha de metodologias e à criação de novas formas de fazer em conjunto.

Jorge Gonçalves | Esta inversão de papéis, em que o performer convida o coreógrafo para produzir um solo, envolve um conjunto de projecções, vontades e responsabilidades que é necessário questionar para existir um enquadramento do que poderá ser a proposta para o solo. Os primeiros ensaios consistiram na elaboração da equação do encontro entre mim e o Dinis, e daí partimos para uma proposta situada no discurso crítico de cada um para um lugar coreográfico por vir.

Dinis Machado | Criar este contexto, para depois me exilar no papel de bailarino, é reclamar uma discursividade muito negligenciada. É problematizar também esta ideia de que só um “intérprete criador” tem uma posição activa no processo criativo, descurando a possibilidade de agência e de autoria de um intérprete que administra e metaboliza os materiais de um outro. Há muito de autoria e discursividade activa no deixar-se permear e outrar-se por materiais fora de nós. Na dança, como na vida, celebrar uma administração do eu mais permeável parece-me um bom caminho alternativo a uma hegemonia do masculino.

“Que Ruído Faz O Teu Corpo Contra O Meu?” de Renata Portas para o Outros FormatosII/Ballet Contemporâneo do Norte. © Miguel Refresco

SÍNTESE. “Outros Formatos” é também um desafio auto-imposto pelo próprio Ballet Contemporâneo do Norte no sentido de reformular e reconsiderar (novos) formatos de colaboração, estabelecendo ligações com uma comunidade de artistas profissionais. Como enquadras a importância artística e profissional desta experiência no contexto do teu trabalho?

Susana Otero | Essa auto-imposição de um desafio de experimentação conduz-me primeiramente a um maior conhecimento profissional. À pergunta “Como é que esta pessoa trabalha?” faço sempre suceder uma outra: “É possível fazer de forma diferente?”. A experiência tem-me dito que sim. Práticas divergentes enriquecem o património artístico. Ao invés de impor um trabalho, o criador convida os intérpretes a conhecer um modo de gerar um movimento coreográfico, por exemplo.

Diogo Mendes | Acho que os “Outros Formatos” não mudaram a minha relação para com o meu trabalho, mas antes a minha perspectiva pessoal sobre o que é, ou pode ser, um criador. Qual a relação entre intérprete e intérprete-criador. De que forma os novos criadores (seja lá o que isso for) se adaptam a novos desafios. O formato deste projecto teve mais impacto em mim enquanto observador de um processo criativo do que propriamente como desenhador de luz.

Dinis Machado | Parece-me muito interessante que esta edição tenha uma grande alternância de papéis. Alguém é intérprete numa peça, é coreógrafo noutra, faz o som de uma terceira, e dá feedback em mais três. Esta provisoriedade de papéis advém da demolição da sua função hierárquica e absoluta, propondo a sua reconstrução como “frame” de posições complementares. A circulação dos papéis traz consigo, aliás, um exercício de deslocamento muito pertinente na forma como propõe uma constante metabolização de um discurso e metodologias a diferentes perspectivas e necessidades.

Jorge Gonçalves | Estes programas são raros, dada a sua inexistência no contexto português. São importantes porque inferem numa política cultural que privilegia mais as relações que se estabelecem dentro de uma comunidade artística, ao invés de valorizar o capital de um único artista. Pessoalmente, o tempo e espaço proporcionado pelos “Outros Formatos” foi valioso. Optei pela desaceleração do processo artístico no estúdio, em direcção a algo que fosse produzido pelo arco temporal do encontro artístico com o Dinis.

Sérgio Diogo Matias | Este é um projecto que arrisca e que faz os artistas arriscar. Foi muito importante para a fase da carreira de intérprete e criador de dança em que me encontro. A troca de linguagens, papéis, lugares e vontades fez brotar discussões, ideais, éticas e estéticas, num espaço/atelier de negociação artística constante. O projecto funcionou como uma reunião de artistas que todos os dias (se) experimentam, num ambiente muito Diaghileviano, com várias peças a serem discutidas ao mesmo tempo…

Flávio Leihan | Ao nível da construção de pensamento, e por causa do acompanhamento que tivemos, este projecto trouxe-me novas questões, enigmas e estados. E isso fez com que eu tivesse dado especial atenção ao meu discurso. Levo o desafio como uma experiência “diversificada”. Retenho, acima de tudo, a boa experiência em compor com criadores oriundos de outras áreas artísticas e trabalhar com as suas diversas competências profissionais sobre o tema por mim proposto. Creio ter conseguido desenvolver uma nova consciência espacial e, acima de tudo, à relação entre a massa dos corpos num universo em plena mutação, na qual apresento a ideia de “olho de peixe”.

Renata Portas | Ainda que pareça uma contradição em relação às respostas anteriores, considero este trabalho bastante pertinente no meu corpo de trabalho. Porque me obrigou a (re)definir ou a (re)formular conceitos, a explorar novas formas de interrogar velhas e novas questões. Porque pela primeira vez, em anos, não tive léxico gramatical suficiente para os performers. Porque tive de reduzir o tempo de ensaio e o tempo de cena (quem me conhece sabe o quão difícil isto é…). Porque colaborei com uma equipa não escolhida por mim. Foi, portanto, um exercício de “democracia”, imposto a um trabalho (o meu) que é bastante autoral e ditatorial.

Inês Nogueira | É difícil, agora que o projeto chega ao fim, perceber efectivamente o que é que ele nos trouxe. Em termos de produção, quanto maior é uma equipa, maior é o desafio em mantê-la coesa. Seja pelas diferenças de personalidade ou pelas diferenças de metodologia, o desafo nunca pode passar por reduzi-las, mas antes legitimá-las e melhorar a colaboração.

Sade Risku | Trabalhar com o Ballet Contemporâneo do Norte constituiu também uma oportunidade para descobrir, na condição de estrangeira, a realidade da dança contemporânea Portuguesa. Artisticamente, isto foi muito importante para mim. Tive um contacto directo com um grupo muito heterogéneo de artistas e participei das suas visões, dos seus desejos e questionamentos. Tentei ser honesta com o programa, colocando a investigação e a experimentação no centro de todas as atenções, sem contudo descurar a produção de um objecto final. Aliás, esse objecto só existe, e só pode ser lido, na relação com o processo que lhe deu origem.

Rogério Nuno Costa | Na verdade, esse processo não terminou. Continua neste texto. Nesta publicação. Na relação que queremos estabelecer com o público antes e após a apresentação dos resultados. Como disse, estas palavras não foram escritas por essa Voz autoral, big brotheriana, que defende um programa (ou lhe justifica as vicissitudes); estas palavras são a voz de todos os que deram forma (e formato) aos “Outros Formatos”, entregues ainda, neste momento de escrita, ao processo de experimentação de novas (e velhas!) formalizações para a produção de sentido e de pensamento em relação às suas ideias e às suas criações. Consequentemente, este texto (e esta publicação), constitui mais um dos formatos experimentais que o BCN decidiu hibridizar, questionando a importância e o lugar dos programas, das folhas de sala, dos catálogos e restante literatura avulsa no campo lexical do espectáculo contemporâneo.

“Holding The Hands At The Tip Of My Words” de Jorge Gonçalves para o Outros FormatosII/Ballet Contemporâneo do Norte. © Miguel Refresco

META-TESE. Ao convidar um grupo de artistas a testar os limites das suas metodologias e da sua capacidade (e vontade) em cooperar e negociar, mais do que deles esperar um resultado (ou um formato) específicos, “Outros Formatos” revela uma missão que é mais ética que estética. Em que medida é que este projecto questionou a tua ética (a profissional e a pessoal)?

Dinis Machado | Eu não vejo essa missão como mais ética do que estética; penso sempre que as duas disciplinas (Ética e Estética) avançam em simultaneidade na produção artística. As dinâmicas de um processo de ensaios transpiram na dramaturgia estética de um espectáculo. Se um coreógrafo está numa trip de agressividade egocentrada com os restantes colaboradores (e isto foi um clássico durante décadas), essa violência vai-se sedimentar no trabalho final, mesmo que ele ou ela não o queiram. Parece-me que este “Outros Formatos” dá um passo em frente num discurso que o BCN tem vindo a propor, e que vai no sentido de olhar o coreógrafo como um dos papéis na produção de um espectáculo e, simultaneamente, tornar evidente a importância e a agência dos outros papéis na sua construção. Nivelar poderes. Porque um espectáculo é um organismo vivo. Cuidar da saúde e das dinâmicas de uma equipa é cuidar de forma consistente de uma dramaturgia ética estrutural, e tornar seguro que a ética e estética de um trabalho estão num lugar de negociação política que todos devem subscrever.

Susana Otero | Existe uma série de pressupostos basilares dentro da profissão que sabes que são permitidos e que não são permitidos, e partes do princípio que são do conhecimento e aceitação gerais, como por exemplo a segurança física e mental, a honestidade e a verdade, o empenho pessoal, etc. São pontos que, por norma, não são o foco de atenção. Mas neste formato, essas questões foram elencadas e reavalidadas. Daí que, seja qual for o resultado “estético” que este programa irá mostrar (e é variado) o diálogo maior foi/será sobre questões éticas. Reunir e discutir com honestidade intelectual é já uma estética num plano mental e isso, por si só, é belo.

Rogério Nuno Costa | Foi nesse sentido que fiz a separação estritamente “teórica”, na pergunta, entre ética e estética (com letra pequena, pois não me estou a referir às disciplinas do pensamento). É que parece-me que a dimensão lúdica e relacional do programa “Outros Formatos”, assim como a sua missão “experimentalista” e, sem medos!, conceptual, é de tal modo complexa e exigente, que começa por colocar o colaborador num posicionamento de compromisso permanente entre aquilo que ele quer fazer, individualmente, para o seu projecto, e o contributo que ao mesmo tempo lhe é pedido para a construção da identidade global do programa. Isto não é necessariamente “mais ético” do que “estético”, mas coloca-me, como me colocou quando experimentei o jogo em 2014, na posição de me questionar permanentemente sobre os limites da minha liberdade (a artística e todas as outras), sobre a distinção entre autoria e autoridade (ainda que a etimologia seja coincidente em ambas as palavras), no fundo, sobre a possibilidade da minha ética constituir, indestrinçavelmente, a minha estética.

Sérgio Diogo Matias | Penso que qualquer experiência põe sempre à prova a nossa ética. Aquilo que defendo artisticamente também passa pela forma como lido com o outro, e o outro faz parte integrante da obra. No entanto, é fundamental estabelecer a diferença entre a pessoa social e a pessoa-artista. Dentro do estúdio, defendo que, em primeiro lugar, estão as relações artísticas e o propósito do trabalho, em detrimento de estados de tristeza ou de insegurança que possam vir de fora, por exemplo.

Sade Risku | Sim, a minha ética pessoal e profissional foram postas à prova de uma forma que eu não esperava… Tem que haver duas pessoas (ou mais) para existir cooperação, e não há negociação possível em função do que se quer para o projecto sem haver cooperação. Durante o processo, dei por mim a questionar-me sobre isto muitas vezes: quando é que existe cooperação, e se existe verdadeiramente, se não se trata apenas de um simulacro de cooperação, e como posso eu (continuar a) cooperar em situações de atrito?

Renata Portas | Esse questionamento aconteceu algumas vezes, sim. Perante o facto de não ter mais liberdade para escolher quem me acompanha (no lado da documentação e do registo, por exemplo), ou na estranha condição de ter de explicar, vez ou outra, aos colaboradores, que ética, para nós, é o relógio medido ao segundo, por exemplo. A divisão entre quem cria e quem paga poderia ser um entrave ao estabelecimento da tua própria ética de trabalho. Felizmente, tal não aconteceu.

Flávio Leihan | Sinto que esta missão teve altos e baixos. A minha viagem foi em espiral.

Diogo Mendes | Não sinto que a minha ética (tenho-a bem solidificada…) tenha sido testada neste contexto. Porém, e como já disse, foi interessante estar no lugar de observador a assistir a um processo que, no que à ética diz respeito, deu muito sumo…

Jorge Gonçalves | É de uma necessidade extrema que os projectos envolvam uma não-hierarquização da cena artística da comunidade vigente, mas antes um agenciamento de responsabilidades em que o valor atribuído seja um modo de fazer conjunto, que é discutido e negociado dentro de uma comunidade temporária. O BCN, com este modelo, e dada a sua inconformidade com o regime de visibilidade das artes performativas em Portugal, parte de uma premissa ética. Só isto já propõe um enquadramento estético do que está por vir.

Inês Nogueira | Em qualquer projecto há uma responsabilidade pessoal e profissional de salvaguardar o público, atender às expectativas dos participantes e aos requisitos da nossa estrutura. Conseguir esse equilíbrio é que é o verdadeiro teste deste projecto. Num contexto artístico, ética tem que corresponder a um compromisso comum em transformar a consciência e a sensibilidade do público, dando forma a um conceito de responsabilidade social.

Susana Otero | Numa época de desconfiança instalada, é difícil convencer alguém a abraçar um formato instável, de constante mutação e risco… Foi muito bonito o que produzimos. Obrigada.