Paulistanos, vamos todos nos mudar?

Rogerio Oliveira
Sep 15, 2015 · 6 min read

Nós paulistanos somos curiosos.

Vivemos ou sobrevivemos em uma cidade reconhecidamente caótica.
Apesar da sua vergonhosa desigualdade, somos iguais no tanto que reclamamos dela.

Reclamamos de seu trânsito, de seu tamanho, de seus alagamentos, de sua secas, de sua poluição, de seu ruído, de sua violência. No mínimo.

Nos mais de 30 anos que vivi nesta cidade, onde nasci, sempre tive a certeza de que todos queriam mudar. Mudar de cidade ou mudar a cidade. Mas mudar. Para ninguém estava simplesmente bom do jeito que estava.

A cidade é óbvio reflexo do que fizemos dela. Estão aí os bons e velhos posts de pessoas tirando fotos do trânsito, dos carros parados a sua frente, sem perceber que o carro de trás também está fazendo a mesma foto reclamação com vc a frente dele. Você é o trânsito, resumia a brilhante campanha.

Vamos além? Você é a seca. Você é o alagamento. Você é o ruído. Você é a poluição. Sinto muito dizer paulistano, mas você é o problema. Nós somos o problema.

Mas o problema maior é outro.

Se reconhecermos que nós somos São Paulo, que nós somos o que ela tem de bom (sim, há coisas incríveis) mas também o que ela tem de ruim, se reconhecermos que nós somos o problema, significaria dizer que para São Paulo mudar, os paulistanos teriam que mudar.

Complicou. É aqui que começa nossa grande armadilha.

Ao mesmo tempo em que todos gostariam de ver a cidade mudar, fica nítido o quanto somos avessos ao processo de mudança.

Paulistano, tenho uma má notícia: somos conservadores.

Acreditamos ser possível ir do ponto A ao B, sem percorrer o caminho de testes, erros, inovações, que nos leva de um ponto ao outro.

Acreditamos que é possível simplesmente eliminar o que a cidade tem de ruim e manter o que há de bom (para poucos) sem que uma mudança maior, sistêmica, de modelo de cidade, aconteça. Mudança que sim acabará afetando como você vive hoje, mas que no longo prazo, pode ser melhor para todos.

Qualquer processo de mudança de modelo exigirá sempre que você de uma forma ou outra tenha que inovar. Fazer coisas que nunca foram feitas antes na cidade. Testar. Errar. Corrigir. Aprimorar. Sair da zona de conforto.

O processo de mudança, de inovação requer sempre que você erre antes de acertar. Porque? Porque você precisa justamente experimentar, prototipar, testar antes de ter a solução perfeita.

Mas São Paulo é uma cidade que não aceita protótipos. Não aceita testes. Não aceita erros. Não aceita portanto inovação e mudança.

Nesse contexto, não dá pra não comentar a relação do atual prefeito da cidade com os seus moradores. Sei que é difícil em tempos atuais, mas tentemos não entrar em questões partidárias e mais difícil ainda, tentemos isolar um olhar sobre o que acontece na cidade e o que acontece no plano federal. Pra facilitar te digo, não não sou petista. Não, também não recebi dinheiro para escrever isso.

Longe, muito longe de querer defendê-lo ou dizer que é um prefeito perfeito ou próximo a isso. Mas é inegável que o atual prefeito da cidade criou impacto (negativo para sua popularidade) e polêmica entre nós paulistanos.

Encrencamos com ele (corretamente ou não) de uma maneira que qualquer iniciativa vindo da prefeitura já parece ser ruim de largada, mesmo antes de ser entendida, testada, profundamente avaliada.

Dizem que São Paulo não é uma Amsterdam para o prefeito tentar implementar algumas das suas iniciativas. Não é mesmo. E nunca será, enquanto nós não formos mais holandeses.

Precisaríamos em primeiro lugar parar de avaliar a gestão da prefeitura pelo viés do próprio umbigo. A prefeitura de São Paulo tem inúmeros problemas em sua gestão. Muitos. Mas curiosamente os mais graves deles nunca aparecem nos posts birrentos dos reclamantes porque não os afeta diretamente. Arcos do futuro, creches não entregues por falta de verba, etc, etc… Isso não gera polemica. Isto não está nos posts birrentos.

Em segundo lugar, para sermos mais holandeses poderíamos investigar e valorizar coisas que foram feitas e que são pouco noticiadas. Inaugurações de usinas de reciclagem que fazem São Paulo ter capacidade de reciclagem maior do que sua população separa de lixo reciclável (quando formos mais holandeses esse número deve aumentar). São Paulo fez demarcação das (poucas) terras indígenas restantes. Pela primeira vez São Paulo tem um plano diretor aprovado que confronta a especulação imobiliária e valoriza praças, valoriza o caminhar, o pedalar, o encontrar. E se ainda assim ao pegarmos no pé da prefeitura e dizer que faltou diálogo nestas implementações poderíamos perceber que os conselhos consultivos foram reativados por toda a cidade, onde várias iniciativas são discutidas, debatidas, melhoradas antes de serem implementadas.

E finalmente para tentar nos tornarmos mais holandeses e quem sabe um dia fazer de São Paulo uma Amsterdam, antes de massacrarmos as iniciativas que viram grande polêmicas nas redes sociais poderíamos tentar ser neutros, pelo menos no início. Respirar antes de reagir. Dar um tempo, sabe? Entender. Esperar. Deixar testarem. Deixar errarem. Deixar corrigirem e então evoluir. Não?

Se não formos neutros em nossas apressadas análises super assertivas e quase descontroladas corremos o risco de ter que mudar de idéia e dar razão para o tal do prefeito, o que seria o pior que poderia acontecer.

As faixas de ônibus por exemplo quando instaladas foram violentamente criticadas. Hoje além de não se ver mais reclamações, vemos o contrario. Várias pessoas reconhecendo que de fato as faixas aumentaram a velocidade media dos ônibus, que elas melhoraram para várias pessoas, reduziu a jornada e a travessia de pessoas que moravam nas periferias da cidade.

O ultimo hiper, super e gravíssimo problema foi a diminuição da velocidade nas marginais (se é que já não surgiu algum novo hoje). Histeria de nós paulistanos nas redes no dia do anúncio. Hoje, com cálculo simples, já se entendeu que se você fosse percorrer uma das marginais inteira com a nova velocidade comparada a anterior você perderia não mais do que 4 a 5 minutos. Já se entende que coisas semelhantes foram implementadas em Nova Iorque, Paris, Londres e que todas reduziram o número de acidentes e pasmem, aumentaram a velocidade média dos carros.

Fico imaginando se nosso prefeito fosse de fato inovador.

Imagina ele ter sido o primeiro a tentar a redução da velocidade sem ter casos comprovados de nenhum outro país? Imagine ele ser o primeiro a apostar na ciclovia como complemento de um sistema de transporte? Imagine ser ele o primeiro a fechar ruas para carros no fim de semana? Imagine ser ele o primeiro a piorar o transito para os carros para melhorar para os coletivos? Imagine ser ele o primeiro a criar limites para o setor imobiliário? Teríamos que ser muito holandeses para apoiar. Tão holandeses que talvez não tivéssemos nascido aqui.

A pior notícia é essa. Somos conservadores com coisas que não são nem inovação. Nosso prefeito infelizmente só está copiando, atrasado, iniciativas que já deveriam ter sido implementadas há muitos anos. E mesmo assim ainda resistimos as mudanças.

Aliás, se no nível federal falamos em estelionato eleitoral fazendo de tudo para se reeleger, em casa temos alguém que parece fazer o inverso. Faz de tudo para incomodar o paulistano e não ser reeleito. No auge da sua impopularidade, próximo das eleições, reduz as velocidades das marginais. Maluco, não? Estaria ele tendo a audácia de pensar e implementar o que é melhor pra cidade sem pensar em reeleição? Ai seria ousadia demais. Inaceitável.

Mas para o bem do nosso conservadorismo, para nossa adoração pelo status quo e preservação do nosso umbigo, podemos ficar tranquilos. Ele obviamente não será reeleito. Com tantas polêmicas e com uma reação tão violenta contra o teste, contra o erro, contra o novo (ou cópias), sua campanha para mais um mandato nascerá morta.

Durmamos em paz paulistanos. Logo logo José Luis Datena, Celso Russomano ou João Dória Jr, um desses, assumirá em breve o comando do programa, ops…da cidade, para garantir dias com menos invenções e tudo permanecerá como sempre. Assim não precisaremos mudar.
Bastará mudar de cidade.
Isso, claro, se o trânsito permitir.