Reflexões sobre as Possibilidades da Prática Social Gestálticas

INTRODUÇÃO
 A atividade psicoterapêuta tem sido, até anos recentes, guardada com sigilo e caracterizada pela inviolabilidade. Razões teóricas, técnicas, éticas, mas sobretudo, o respeito humano, tem sido invocados para o silêncio sobre o ato psicoterapêutico (Martins, 1992). Talvez esta opacidade seja uma das razões da pouco fecunda transposição dos conhecimentos advindos do “setting” psicoterapêutico para outros ambientes profissionais.
 No entanto, toda e qualquer forma de psicoterapia possui ou assume uma teoria do homem e do mundo (Martins, 1995 a.). Tal “Weltanchaaung” orienta e delimita o trabalho psicoterápico em todas as suas fases, desde sua elaboração teórica até a maneira de como se dirigir ao cliente ou de que forma conceber o local de atendimento, por exemplo.
 Da mesma forma as diversas abordagens à psicoterapia obtém, a partir da formulação e sistematização de sua teoria e de sua praxis, um saber específico acerca do homem e do seu ser-no-mundo, que funcionam como uma “invenção” ou “construção” do homem e do mundo.
 A Gestalt-Terapia através de suas descobertas ou, como preferia Fritz, re-descobertas (Perls, 1977), põe em evidência uma re-configuração do homem e do seu ser-no-mundo. Tal re-configuração aponta para uma série de atitudes, posturas, comportamentos, ações, idéias e reflexões sobre o normal e o patológico, sobre vida saudável e vida sem saúde, sobre o indivíduo, a sociedade e sobre a relação entre os homens, sobre a paz e sobre a guerra, etc. Reflete sobre os métodos de apreensão do real e propugna-se por um deles — o fenomenológico. Perquiri as filosofias e inclina-se para o existencialismo e o dialógico. Enfim, a Gestalt-Terapia apresenta a sua “construção” do mundo.
 A “construção” do mundo a partir da Gestalt-Terapia tem, desde sua formulação inicial, propiciado crescimento e mudança em muitas pessoas que realizam psicoterapia. Contudo como “invenção” ou “construção” do mundo tal saber necessitaria estar cindido apenas à atividade psicoterápica? Até por uma questão de congruência, pois uma “Weltanchaaung” é, por definição, universalista, acreditamos que não.
 Este trabalho pretende refletir sobre as possibilidades de transposição do saber ou da “construção” do mundo oriundas da gestalt-terapia para outras atuações profissionais.
 Como primeiro passo julgamos pertinente levantar uma velha e surrada questão, embora sempre atual: o que é gestalt-terapia? Temos percebido, inclusive em Congressos de nossa abordagem, incursões teóricas ou práticas, que a nosso ver, não se caracterizam como gestalt-terapia. Sem nenhum objetivo de legislar sobre a questão, pensamos que os gestalt-terapeutas necessitam formalizar parâmetros mínimos do que seja sua filosofia, sua teoria e sua prática. A isso chamo solidificar para expandir.
 Em seguida, o trabalho examina, a partir de uma série de monografias realizadas por alunos de psicologia da UFES, nos últimos três anos, cujo tema proposto foi A Aplicabilidade da Gestalt-Terapia e também, a partir da elaboração e execução de um projeto piloto de aplicação da Gestalt-terapia em outras atividades profissionais, as possibilidades de expansão da Gestalt-terapia para outras atuações profissionais e outras atividades humanas.

DESENVOLVIMENTO

O QUE É GESTALT-TERAPIA?

Em uma conferência no Congresso da Associação Européia de Análise Transacional, na Áustria, em julho de 1977, Laura Perls afirmou (Perls, L.1977):

“ O diabo é o mestre do atalho, pretensioso, sedutor e enganador, prometendo, induzindo e impondo sem parar. Suas ferramentas são simplificação, manipulação e distorção.”

Indo do mito ao fato ela completa:

“ Durante uma reunião do Instituto de Gestalt-Terapia de New York coloquei a questão: Qual é a sua resposta quando alguém lhe pergunta: O que é Gestalt? O nosso vice-presidente Richard Kityler, que gosta de bancar o advogado do diabo, falou baixinho: “O assento quente e a cadeira vazia”. Obviamente, como Mefistófeles, ele falou contendo o riso. Mas o discípulo ingênuo e impaciente aceita e não questiona; ele sempre tornará a parte pelo todo”

Boa parte dos gestaltistas sabe que, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil a gestalt-terapia desenvolveu-se às avessas. A obra inicial e mais densa de conteúdo de Fritz Perls e seus colaboradores iniciais (Perls et alli, 1951) não teve a divulgação e a repercussão necessárias a consolidação de um suporte teórico indispensável para o exercício cuidadoso e criterioso de uma abordagem psicoterápica florescente, e, embora em menor medida, não tem até hoje.
 Por outro lado, o estilo de trabalho desenvolvido por Perls em seus últimos anos de vida (Perls, 1979, 1977, 1973), aplicado em seminários de demonstração para profissionais, se tornou amplamente difundido. Filmes, vídeos tapes, o livro Gestalt-terapy Verbatin (que é uma transcrição destas gravações) e cartazes com a oração da gestalt espalharam-se pelos Estados Unidos. No Brasil não tivemos os filmes e os vídeos tapes mas o livro Gestalt-terapy Verbatin foi nosso referencial primeiro (Perls, 1977).
 Devido a tal inversão, não houve inicialmente uma absorção da teoria e também da filosofia implícita nesta abordagem. A gestalt-terapia passou a ser vista e praticada como uma modalidade puramente técnica. E, como as técnicas “aprendidas” ou “inspiradas” nas demonstrações de Perls eram obviamente limitadas, passou-se a combinar gestalt com uma série de técnicas outras, de abordagens, procedimentos e até “invenções” que estivessem disponíveis. Assim tivemos, e talvez ainda tenhamos, diversas combinações, entre as quais algumas muito esdrúxulas: Sensibilização e Gestalt, Conscientização Corporal e Gestalt, Bioenergética e Gestalt; Terapias de Arte e Gestalt, Dança e Gestalt, Música e Gestalt (lembro que fui presentiado com uma fita de música destinada, segundo consta, ao relaxamento, de autoria de Carlos Fregtman e intitulada Gestalt. Ainda hoje não entendi a relação), Meditação Transcendental e Gestalt, Análise Transacional e Gestalt, etc. Vale registrar que, na Conferência de abertura do III Encontro Nacional de Gestalt-Terapia, em Brasília, Jean Clark Juliano (1991) realizou um muito bom resgate da história da Gestalt, tanto nos EUA quanto no Brasil. Sugiro a todos que não a leram que o façam.
 Sustentamos que a Gestalt-Terapia é uma abordagem existencial- fenomenológica e como tal é experiencial e experimental. Seus conceitos básicos são mais filosóficos do que técnicos. Gestalt-terapia é um jeito particular de olhar o mundo; uma “Weltanchaaung”. Isto todos nós já ouvimos muito falar. Mas vejamos um pouco mais de perto estas questões. Minha intenção agora é demonstrar a necessidade de realizarmos antes uma necessária solidificação da gestalt-terapia para depois falarmos de expansão.
 O que significa ser uma abordagem existencial-fenomenológica? A primeira vista significa embasar-se na filosofia existencialista e no método fenomenológico proposto por Husserl.
 Aí, a nosso ver, reside um primeiro engano. Ou, uma primeira necessidade de aclararmos o suporte, o chão, da gestalt-terapia. Existem muitos existencialismos, talvez tantos quanto o número de pessoas que se detenham a refletir sobre a existência humana. Em um trabalho nosso anterior intitulado “A Concepção de Homem em Gestalt-Terapia e suas implicações no Processo Psicoterápico” (Martins, 1995 a.), a fim de explicitar, em um modelo mais enxuto, a questão do existencialismo, tomamos Deus como o divisor de águas. Falamos então de um existencialismo teísta, cujo filósofo mais representativo talvez tenha sido Kierkgaard; de um existencialismo da natureza humana, cujas figuras centrais foram Diderot, Voltaire e Montesquieu e, de um existencialismo ateu, que para mim quem melhor o representou foi Sartre.
 O existencialismo teísta basicamente concebe um homem como um projeto de Deus. A existência deste homem, em que pese o livre arbítrio, é concebida e delimitada no bojo do conceito de homem que já existe na mente de Deus. Sua essência, concebida por Deus, precede sua existência. Para Kierkgaard (1979) o homem evolui para uma existência autêntica ao poder galgar os estágios da carne, da razão e da fé; essa é sua liberdade e seu destino. Em síntese o existencialismo teísta afirma que a existência do homem, concebida por Deus, é no sentido da evolução em direção à transcendência, em direção ao próprio Deus. Livre arbítrio ou liberdade arbitrada?
 O existencialismo da natureza humana tentou eliminar a existência de Deus, mais ainda assim continuou a conceber o homem como sendo determinado através da noção da natureza humana. Dessa forma, os homens de qualquer cultura e de todos os lugares e épocas estariam unidos por um substrato comum. O homem seria um exemplo particular de um conceito universal. Dessa maneira a idéia de que o homem é a realização de um projeto continua; permanece a idéia de que a essência precede a existência.
 Posição inversa assume o existencialismo ateu. Segundo ele, no início, o homem não é nada e posteriormente será aquilo que se fizer de si mesmo. Não existe natureza humana por que não há um Deus para concebê-la. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo. Sendo assim, para o existencialismo ateu, o homem é responsável pelo que é (Sartre, 1978). O primeiro esforço do existencialismo é colocar todo homem na posse do que ele é, e submetê-lo à responsabilidade total de sua existência. Assim, o homem não é responsável apenas pela sua individualidade, mas é responsável por todos os homens.
 Ora, o existencialismo consentâneo com a gestalt-terapia é o existencialismo ateu. Não porque seja necessário à gestalt-terapia e para sua congruência teórica e filosófica a inexistência de Deus. Deus pode continuar existindo, desde que com a idéia subjacente de genuíno e verdadeiro livre arbítrio.
 A questão central é a da liberdade, da responsabilidade, e da escolha humana. Não é compatível com os conceitos básicos da gestalt-terapia uma concepção de homem em que o mesmo seja privado de sua liberdade, eximido de sua responsabilidade e subtraído de suas escolhas. O existencialismo teísta e o da natureza humana, em maior ou menor medida, encarnam tal posição, pois ao falarem de Deus ou de uma natureza do homem, indicam que o homem, no seu ser-no-mundo, é conduzido até certo ponto por tais forças. Sua liberdade e responsabilidade são arbitradas por estas forças (Deus e natureza humana), que possuem um projeto de homem ou um destino para o homem.
 Já o existencialismo ateu, de modo radical, não assume tal “a priori” sobre o homem. O homem é o que faz de si mesmo. Mesmo que não saiba disso, mesmo que não queira as coisas assim. Tal responsabilidade (response ability — resposta de aptidão) não deve ser confundida com culpa mas sim com a capacidade de ser, de gerir a própria vida. Paradoxalmente esta “exagerada” responsabilidade é um a priori; um a priori de que o homem é mesmo o homem. 
 Não quero, com tudo isso que falei sobre o existencialismo, dizer que estou apontando para “a verdade”, que a Gestalt-terapia deva ser uma abordagem alicerçada exclusivamente no existencialismo sartreano, embora esteja disposto a debater com os interessados acerca destas idéias, que para mim parecem fecundas e fazem sentido. Mas apenas exemplificar o que considero uma tarefa de hoje: solidificar a gestalt-terapia, ou seja, esmiuçar e debulhar seus conceitos, refletir sobre eles, sentir as coerências e incoerências, congruências e incongruências, não tomar enunciados e jargões como verdade, senão, o que expandiremos será uma bruta confusão.
 Vejamos agora a questão de ser a Gestalt-terapia uma abordagem fenomenológica.
 A fenomenologia surgiu como uma contestação ao método experimental. O ponto de partida de Husserl (1980) é a crítica às teorias científicas, particularmente as de inspiração positiva, apegadas à objetividade, à crença de que a realidade se reduz àquilo que percebemos pelos sentidos e à noção de que o cientista e o objeto que pretende conhecer são completamente separados e independentes. 
 Husserl nega a existência tanto do sujeito como do mundo, como puros e independentes um do outro. Afirma que o homem é um ser consciente e que a consciência é sempre intencional, ou seja, ela não existe independentemente do objeto: “ toda consciência é consciência de alguma coisa “. Quer isso dizer que todos os atos psíquicos, tudo que se passa em nossa mente, visa um objeto, logo, não ocorre no vazio.
 Fenomenologia gera-se de duas expressões gregas: phainomenon e logos. Phainomenon (fenômeno) significa aquilo que se mostra por si mesmo, o manifesto. Logos é tomado como discurso esclarecedor a respeito daquilo que se mostra por si mesmo. Para tanto se faz necessário “ir à coisa mesma”. Para que se possa chegar a isso, Husserl propõe que o indivíduo suspenda todo juízo sobre os objetos que o cercam. Que nada afirme nem negue sobre as coisas, adotando uma espécie de abandono do mundo e recolhimento dentro de si mesmo. Tal atitude, denominada redução fenomenológica ou “epoqué”, leva-nos a um tipo particular de conhecimento, em oposição ao conhecimento objetivo, o categorial. 
 A percepção categorial é imediata, espontânea, pré-reflexiva, própria da vida cotidiana, do viver imediato — nela não há separação entre o sujeito e objeto e este é captado na sua totalidade por intuição — é a percepção própria das ciências do homem.
 A concepção do homem subjacente à abordagem fenomenológica de Husserl é a de que o homem é um ser-em-relação-com-o-mundo. Que só assim ele pode ser entendido e ao mesmo tempo entender o mundo. Esta concepção de homem implica também em um radical abandono da intelecção em favor da intuição, pois só esta é capaz de captar a totalidade de uma vivência humana.
 A fenomenologia é pois um método. Um método de trabalho onde abandonamos a intelecção em favor da intuição. A objetividade em favor da subjetividade, a percepção sensorial em favor da percepção que vem das entranhas, a concepção dos seres independentes em favor de uma concepção holística de integração.
 O método fenomenológico, muito semelhantemente ao método dialógico, busca, no encontro espontâneo e pré-reflexivo da relação entre os homens “ir à coisa mesma”. Para nós, Buber (1979), com seu magistral conceito de “entre”, caminha um pouco mais na mesma direção na qual Husserl já trilhava.
 Se a gestalt-terapia assume o método fenomenológico como fica a questão da técnica? É congruente aos gestalt-terapeutas usarem ou dizerem que usam técnicas?
 Penso que, mais uma vez, esta é uma questão que merece ser solidificada antes de pensarmos em expandir a gestalt-terapia. Embora, talvez aqui, a questão seja mais conceitual do que de conteúdo. Vejamos.
 Citando novamente Laura Perls (Perls, L. 1976), agora em um artigo intitulado Comentários sobre as novas direções da gestalt-terapia, vemos que ela nos diz que “a imitação de seu método (de Fritz Perls) como “a” técnica terapêutica sem maiores preocupações com necessidades específicas e limitações na situação real do momento, é superficial, simplista, mecânica; manipulativa e falsa. O gestalt terapeuta não usa técnicas; auto-aplica-se na e para a situação, com qualquer habilidade profissional e experiência de vida que acumulou e integrou”.
 A questão que Laura coloca não é a da imitação de Fritz Perls, nem é a da imitação de qualquer pessoa, é, muito mais do que isso, a da utilização de qualquer recurso, adrede preparado ou concebido, fora da situação vivida por ambos, terapeuta e cliente, naquele dado momento.
 Fugir a isso é fugir do método fenomenológico, fugir a isso é fugir do caminho dialógico. Como dizia Buber (1967):
“A realidade decisiva é o terapeuta, não os métodos. Sem os métodos somos diletantes. Sou a favor dos métodos, mas somente para usá-los, não para acreditar neles. Embora nenhum médico possa passar sem uma tipologia, ele sabe que, em certo momento, a pessoa incomparável do paciente está frente à pessoa incomparável do médico. Ele joga fora sua tipologia o máximo que puder, e aceita essa coisa imprevisível que acontece entre terapeuta e cliente”.
 
 Para ser fenomenológico o procedimento, a técnica, a tática, assim como qualquer outra coisa, precisa brotar do fenômeno que ocorre aqui e agora. Assim como para ser dialógico, o método que Buber usava precisava ser “fruto do entre”.
 Para ilustrar isto aos meus alunos gosto de usar uma alegoria inspirada nas praias do litoral capixaba, e que peço licença para reproduzir para vocês:

Vejamos um surfista, com sua apreciada prancha, indo ao mar em busca das ondas. O surfista e sua prancha cada vez mais se entrosam e se envolvem. Ambos, em alguns momentos, frutos da almejada parceria, quase que agem como em uma unidade, usufruindo do prazer de deslizar sobre as ondas.
 Chamemos a esse surfista de terapeuta, a prancha de cliente e a onda de fenômeno. O cliente pode, como a prancha, deslizar por seus fenômenos sem um terapeuta. Mas quando procura um, este pode ajudá-lo a desfrutar melhor de sua onda, do seu fenômeno. Deve saber no entanto, nosso terapeuta-surfista, que a condução é feita pelo fenômeno-onda, pois é ali que está a energia. O papel do terapeuta- surfista cinge-se a lidar, junto com o cliente, como for possível agora, com essa onda fenomenológica. Suas manobras, em consonância com o momento e o cliente, atuam no fenômeno (a prancha pode ir mais rápida ou mais devagar, para a direita, esquerda, etc), mas não existem sem o fenômeno. Se nosso terapeuta-surfista for de encontro a energia do fenômeno (fazendo um “drop-out”) levará seu cliente a perder a sua onda. Nosso surfista-terapeuta usa todos os recursos que acumulou e assimilou em sua vida na hora de surfar. Ele tem o seu estilo. É diferente dos outros surfistas que, por terem experiências distintas, acumuladas e assimiladas, possuem em consequência estilos diferentes. Duas coisas orientam nosso terapeuta-surfista: o cliente e o fenômeno. 
 Por fim nosso surfista-terapeuta sabe que, ao mergulhar com sua prancha no mar, sempre encontrará, a cada mergulho, uma realidade diferente. Os ventos são diferentes, as correntes marítimas, a cor da água, etc. Tudo é diferente a cada dia, a cada instante. Portanto os procedimentos que ele adotar em uma onda não valem para a seguinte.
 Deixando de lado esta alegoria encerremos este tópico com as palavras de Laura Perls (op. cit.): “um bom terapeuta não usa técnicas, ele se usa dentro e de acordo com uma situação, com os conhecimentos, habilidades e experiência global de vida que formam parte integrada do seu próprio fundo e com a percepção que tiver em qualquer momento dado. Assim é apropriado falar em estilos de terapia a falar em técnicas”.
 Concluindo diríamos que, o que é adrede concebido e preparado para ser usado em uma sessão de psicoterapia não é gestalt-terapia ou então a gestalt-terapia não é fenomenológica. O que experienciamos e assimilamos em nossa vidas constitui o nosso estilo e seremos gestaltistas se tudo o que usarmos estiver em balanço e harmonia com o cliente e com o fenômeno.
 Vejam em que duas palavrinhas — existencial e fenomenológico — implicam! Vejam o quanto precisamos solidificar para partirmos rumo a uma expansão da Gestalt-terapia!

O QUE É EXPANDIR A GESTALT-TERAPIA?

Devemos a Fritz Perls a re-colocação da noção do óbvio em seu devido lugar, ou seja, a de que antes de procurarmos as coisas que porventura estejam por detrás, melhor faremos se focalizarmos nossa atenção no que está ali, dado, presente, visível, na cara. Além de que, nisto que está aí, neste óbvio, certamente também estão presentes elementos do que possa estar por detrás.
 Ora, o que é então expandir a gestalt-terapia? É levar a outros campos de atuação, além da clínica psicológica, uma abordagem que seja existencial e fenomenológica.
 O que não é expandir a gestalt-terapia? É levar a outros campos de atuação, além da clínica psicológica, um conjunto de procedimentos, técnicas, táticas, etc, experienciados e aprendidos durante o exercício da prática clínica, e que por serem oriundos de momento ou outra situação anterior, e não terem origem na situação presente, desconsideram as circunstâncias de eclosão e desenvolvimento deste novo momento e desta nova situação.
 Em síntese, afirmo que expandir a gestalt-terapia para outros campos de atuação, significa levar “o espírito” presente no gestalt-terapeuta de caminhar em uma vereda estreita, de não ter nenhuma certeza pressuposta. Expandir a Gestalt-terapia adequadamente é entender que nossos pressupostos teóricos são somente a entrada e não substituem o encontro.
 Fazer gestalt-terapia, assim como expandi-la, será sempre um desafio. O desafio de estar presente ao “nada mais que processo” e ainda assim não se perder no abismo, não fazendo da teoria uma defesa contra o desconhecido.
 Certa vez um mestre-zen disse a seu discípulo que tanto procurava a iluminação: quando encontrar Buda mate-o. E eu afirmo: quando encontrarem a gestalt-terapia matem-na, pois não é mais gestalt-terapia.
 Ao levarmos a outras atuações profissionais, ou mesmo a outras situações dentro da própria clínica, a saberes adquiridos com a prática adequada da gestalt-terapia, não estaremos mais fazendo gestalt-terapia, pois a gestalt-terapia é uma atitude de re-descobrir aquilo que está ali, sem a priori; é uma atitude de lidar com o novo como novo, é uma atitude de nada afirmar nem negar, nada pensar nem sentir acerca daquilo que está ali, a energir, para que aquilo que emerja possa ser o que é. Valendo-me novamente do budismo-zen diria que a gestalt-terapia é como o vento. Quando prendemos o vento em uma caixa não temos mais vento mais sim ar estagnado. Quando prendemos a gestalt que emerge em uma situação nova, a um conhecimento anterior, não temos mais gestalt-terapia, mas outras coisas. Estas outras coisas podem, sinceramente, ser muito interessantes, apenas não são gestalt-terapia como a entendemos.

A EXPERIÊNCIA EM VITÓRIA

Nos últimos quatro anos tenho me detido na temática da expansão da gestalt-terapia e buscado refletir sobre suas consequências. Esta, inclusive, foi a razão básica de eu ter proposto à comunidade gestáltica no Encontro e Congresso de Vitória, uma reflexão sobre as vantagens e desvantagens da criação de uma Sociedade Brasileira de Gestalt-Terapia (Martins, 1995 b).
 Nos últimos seis semestres, como requisito de avaliação, propus aos meus alunos de graduação em uma disciplina que ministro sobre gestalt-terapia na Universidade Federal do Espírito Santo, a realização de uma monografia cujo tema era “A Aplicabilidade da Gestalt-Terapia: possibilidades de expansão para outras atuações profissionais e outras atividades humanas”. E, no último ano, no Estágio Supervisionado em Psicologia Clínica I e II, com duração de hum ano, que supervisiono, propus aos estagiários a realização da montagem e execução de um projeto que objetivasse levar a gestalt-terapia além da prática de consultório que realizavam comigo.
 Os títulos das monografias ilustram a dispersão de interesses dos mesmos, bem como sua inventiva e criatividade. Assim é que tivemos monografias que pesquisaram a aplicabilidade da gestalt-terapia na (o):

- Publicidade e propaganda
- Vivência cotidiana
- Processo de emagrecimento; uso da alimentação
- Programa narcóticos anônimos, programa alcoólicos anônimos
- Arte; criação e contemplação; arte terapia; música, pintura, dança, teatro, poesia, 
 dramatização, preparação do ator
- Massagem corporal
- Futebol, basquetebol, ginástica olímpica, natação, educação física, atividades 
 físicas, atendimento ao atleta
- Concepção da adolescência
- Campo jurídico
- Astronomia
- Preparação de cargos de liderança
- Sala de aula
- Instituições
- Pais de deficientes visuais
- Representação simbólica de Papai Noel
- Folclore, carnaval, banda de congo, capoeira, folclore capixaba, desfile das 
 escolas de samba
- Redescoberta dos portadores de síndrome de down
- Turismo
- Treinamento de vendedores
- Restauração de imagens sacras
- Relacionamento amoroso, As cinco linguagens do amor
- Pesquisa científica em Ciências Humanas
- Empresa
- Religião
- Trânsito (condução de veículos)
- Grupo de gestantes
- Relações de amizades
- Vida e obra de Cartola, de Clarice Lispector, de Milton Nascimento, de Mário 
 Quintana
- Administração de Recursos Humanos
- Abordagem gestáltica do mundo do trabalho
- Melhoria da aprendizagem
- Literatura oral-popular: provérbios
- Busca de inteligência extraterrestre
- Direito
- Cartas de tarô
- Mahabharata
- Cultura
- etc

O projeto desenvolvido pelos estagiários, por sua vez, deteve-se na busca de um incremento do contínuo de presentificação (awareness) dos militares do Corpo de Bombeiros do Espírito Santo que se voluntariassem para participar do projeto.
 Entre o muito volumoso material monográfico produzido pelos alunos verificamos que, do ponto de vista da qualidade, o mesmo distribuiu-se em consonância à curva normal. Tivemos alguns trabalhos excelentes, vários trabalhos bons, muitos trabalhos medianos, vários trabalhos ruins e alguns trabalhos fracos. No entanto todos os alunos merecem de público elogios, independentemente do que puderam produzir naquele momento, pois a tarefa proposta é árdua, mesmo para profissionais já muito tarimbados, ou seja, é complicado refletir acerca da aplicabilidade da gestalt-terapia em um outro contexto que não o da clínica psicológica.
 Meu objetivo aqui e agora é tecer considerações sobre tais dificuldades. Na minha visão, a grande maioria dos trabalhos tomou a parte pelo todo, a aparência pela essência. Isto é, após o estudo da gestalt-terapia, a mesma foi tomada como um ferramental ou uma tecnologia a ser aplicada, após algum esforço intelectual e adaptativo, a outras situações profissionais e outras atividades humanas. A este caminho talvez todos nós, em um primeiro impulso, nos inclinemos. Arguo no entanto que talvez isto seja um atalho, e atalho, lembrem-se da afirmação de Laura (op. cit.), é onde o diabo é mestre: pretensioso, sedutor e enganador.
 Pouquíssimos trabalhos (três para ser exato) intuiram que a questão era a da “presença do espírito gestáltico”, de uma atitude frente a vida, independentemente do que esta atitude pudesse já ter produzido.
 No que se refere ao projeto realizado no Estágio Supervisionado, por ser uma atividade que além de uma construção teórica ensejou uma realização prática pudemos todos, estagiários e supervisor, aprender muito. Dos vários ensinamentos retirados da experiência vou destacar aqui apenas um. O chamaria de “A presunção do portador da boa nova”. Fui tomado por isto. Afinal, estava realizando um trabalho voluntário, sem remuneração e além da carga horária destinada à Universidade, em um sábado ensolarado e convidativo a uma praia, acompanhado por cinco alunos também voluntários e muito interessados. Estava com genuíno interesse de partilhar com outros os benefícios que experienciei em mim próprio a partir do contato que tive com a gestalt-terapia. E, enfim, seriamente acreditando que estava ali dando o melhor de mim.
 Hoje, refletindo sobre aquela experiência, posso perceber, ainda mais, a profundidade do existencialismo sartreano que por um lado nos mostra que criando o homem que queremos ser, criamos uma imagem do homem tal como julgamos que deva ser. Escolher significa atribuir valor, escolher para si implica em legislar para o outro (daí tanta catequese e proselitismo). Por outro lado, paradoxalmente, este existencialismo afirma que o homem é responsável por si mesmo, isto é, ele possui uma aptidão para responder de modo a constituir sua individualidade, a constituir o seu ser. Uma das implicações mais profundas desta concepção, na qual os gestalt-terapeutas encontram-se ancorados, é a idéia da não prescrição. Nada prescrever para os outros, pois eles sabem de si e se fazem, como podem se fazer, aqui e agora.
 Vejam como é, de um lado o diabo pretensioso apontando o caminho para as pessoas do outro lado a desprendida oração da Gestalt (eu sou eu, você é você…..).
 A presunção do portador da boa nova, a que me referi, é a de dar muito ouvido para o diabo. Talvez seja proveitoso para todos os gestalt-terapeutas que estejam engajados em treinamentos, quer de futuros terapeutas, quer destinados a outros públicos, refletirem sobre o que e como é apontado para o outro.

CONCLUSÃO

Expandir adequadamente a gestalt-terapia é levá-la para outras atuações profissionais e outras atividades humanas sem atalhos, ou seja, sem simplificação, sem manipulação e sem distorção. Portanto expandir adequadamente a gestalt-terapia implica em um conhecimento profundo do que seja a essência da gestalt-terapia, e não apenas de sua aparência externa.
 A essência da gestalt-terapia é o seu alicerce filosófico, existencial-fenomenológico. Como pudemos demonstrar, tal alicerce filosófico precisa ainda ser melhor delimitado. Por esta razão insisti na necessária tarefa de solidificar a gestalt-terapia antes de expandí-la.
 É correto entender a gestalt-terapia como uma Weltanchaaung, uma visão de mundo passível de expansão para outras áreas do conhecimento. Tal expansão afigura-se como muito fecunda, tanto para a própria gestalt-terapia, quanto para as áreas de conhecimento que a recebam.
 Não tivemos por nenhum momento a idéia de legislar acerca do que é adequado em gestalt-terapia. Contudo, como pudemos ver a popularização da gestalt-terapia deu-se sem a necessária assimilação de seu conteúdo filosófico e teórico profundo, deixando nossa abordagem psicoterápica bastante vulnerável a diversas simplificações, manipulações e distorções.
 Com o objetivo de contribuir para a solidificação da gestalt-terapia examinamos o que significa ser uma abordagem existencial-fenomenológica. Propusemos uma radical adoção deste alicerce filosófico, o que significa adotá-lo em sua essência, em seu espírito. O espírito é: caminhando em uma vereda estreita, não ter nenhuma certeza pressuposta, presente ao nada mais que processo, para então re-descobrir aquilo que está ali, sem a priori, e aquilo que emerja possa ser o que é.
 Por fim, explicitando experiências de expansão da gestalt-terapia que realizamos em Vitória, constatamos a enorme dificuldade que encerra esta tarefa e os riscos que corremos ao intentá-la.
 Concluo colocando-me francamente favorável a idéia de expandirmos a gestalt-terapia, pois só de pensarmos nesta idéia já estamos contribuindo para a própria re-elaboração e desenvolvimento da gestalt-terapia. No entanto insisto, desde que sem simplificações, manipulações e distorções.

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 Mimeo.
Perls, F.S. (1977). Gestalt-terapia explicada. São Paulo: Summus Editorial.
Perls, F.S. (1979). Escarafunchando Fritz: dentro e fora da lata do lixo. São Paulo: 
 Summus Editorial.
Sartre, J. P. (1978). O existencialismo é um Humanismo in Coleção Os Pensadores. 
 São Paulo: Abril Cultural.

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