Muito mais que dois garotos se beijando
No mês do orgulho LGBTT, eu finalmente li o livro do Levithan

Estamos chegando ao fim do mês do Orgulho LGBTT. E que mês, não? Mundialmente, ações publicitárias e de conteúdo de voltadas à diversidade são promovidas em junho, mas 2016 trouxe algo que ninguém poderia esperar. Eu sei, já falei disso aqui, mas não podemos parar de citar Orlando, não enquanto o mundo não for mais seguro e justo. Isso depende, ao meu ver, de como tratamos o assunto, o que, por sua vez, depende do tipo de informação que temos acesso. Complexo, né? Sim. A humanidade é complexa.
Desde que me assumi gay para meus pais, há 10 anos, muito mudou. E ainda bem que a diferença é enorme. Quando adolescente, é fato que tudo que não acontece conforme o planejado na sua vida vira uma grande tragédia. Comigo não foi diferente. Felizmente, eu já tinha acesso à internet para saber que mais pessoas vivenciavam aquilo, em diferentes lugares. Outras saídas poderiam ter sido filmes, livros, séries, reportagens, mas eu não tive acesso a nada disso.
No ano passado, me deparei com “Dois garotos se beijando”, livro do David Levithan lançado no Brasil pela Galera Record. Me interessei por ser um romance adolescente com protagonistas gays, mas não tive disposição suficiente para pegá-lo até o início desse mês. Esse artigo serve, entre outras coisas, para mostrar arrependimento por não ter me encantado com as histórias de Craig, Harry, Avery, Ryan e Cooper antes.
Antes de falar propriamente do livro, gostaria de avisar: não sou crítico literário. Eu leio e escrevo muito. Sou um constante aprendiz. Escrevo aqui as minhas impressões de leitura e como minhas referências me fizeram absorver a história. Sigamos em frente.

O primeiro choque foi o livro não ter capítulos. Não que isso seja algo inédito, mas você já se prepara para prestar atenção na história e não se confundir no meio da não-linearidade. Ponto para o Levithan. A minha vontade foi de devorar o livro em uma sentada. Isso não foi possível devido à minha rotina e também às pausas dramáticas e involuntárias que fiz.
Importante dizer também que, apesar do livro ter o título de “Dois garotos…”, não existe uma história completamente principal e outras completamente secundárias, digamos assim. Todos são protagonistas, incluindo os narradores da história: homens gays, já falecidos, de uma geração passada. Enquanto narram e vivem conosco as histórias dos cinco protagonistas, essa geração fala de grandes assuntos, como a aids, a aceitação dos pais, as melhorias sociais que são possíveis à geração atual por conta da luta de gerações passadas e, justamente, a importância da busca por direitos. Fiquei muito tocado, inclusive, ao ver pontos tão importantes serem tratados com sensibilidade e de forma contínua. São assuntos que aparecem durante todo o livro, mesmo que as palavras “aids” e “militância” não estejam tão presentes.
A forma como o livro acaba e a nota do autor, nas páginas finais, são arrepios à parte. Nem preciso falar como o livro ganhou o meu respeito ao trabalhar os medos e inseguranças de um garoto trans (Avery), né?
Com 222 páginas, “Dois garotos se beijando” foi um livro que li em três dias, em meio a lágrimas, suspiros, temor e taquicardia. Se foi uma aula para mim, imagina o que teria sido para o Roldão de 10 anos atrás, mais alinhado ao público-alvo buscado por Levithan? Compre aqui.
Roldão Barros é jornalista, escritor e gateiro. Além de compartilhar seus textos no medium e no seu blog literário, solta alguns caracteres no Twitter. No Snapchat e no Instagram é muitos em um único perfil: roldaao.