Uma carta em Yiddish

As pessoas dizem que mágoas são levadas pelo canto, outras que pelo mar, a mim só resta acreditar que essas águas levarão minhas mágoas para longe, ou melhor que as águas me tirarão dessas mágoas, que há tantos anos estavam insolúveis e agora se tornaram leves, não que foram embora, mas eram suportáveis. Esse lugar era incrível, o pátio da liberdade religiosa em meio a tanto fogo, no meio das fogueiras do Santo Ofício, a Nova Holanda se foi, e com ela foi junto meu povo, para outros mares, uns para o interior dessa terra, outros para outros domínios holandeses. Eu estava caminhando para a incerteza de um amanhã, quem me dera está em minha Sefarad novamente, quem me dera ver meus hijos brincando em meio àqueles campos, a liberdade, a saudade soa como um doce, um doce que quebra o amargo sabor de saber que meu povo talvez jamais voltará a ver sua terra, talvez não em minha vida.

Nesses momentos que imagino a humanidade, que faz esta espécie para ser tão cruel, porque odiar o semelhante por agir diferente, ser diferente, de certa forma adquiri um certo ódio, ódio contra o espanhois, o maldito Dom Manuel, Portugal, a igreja, queria vê-los pagar um dia! Por tudo, pelo meu povo, meus filhos, meu marido, tudo que eles haviam destruído.

Eu caminhava para a caravela que me levaria finalmente para um lugar mais seguro, era linda a paisagem, isso sim me dará saudade, aquela praia suntuosa, do qual de longe era possível ver a grande floresta, imaginar as belezas, os algores, e as surpresas que tal imensidão poderia guardar em meio a tanto mistério, do véu da floresta ao sopro do vento ao longe, tudo parecia guardar por trás o gosto do desconhecido. Ao longe pude ouvir os gritos de uma menina, parecia está sendo segurada por dois guardas portugueses e gritava, forte, como se pedisse ajuda:

- זאל מיר גיין זאל מיר גיין, איך ווילן מיין מאַמי!

Corri para ajudá-la:

- Eu sou a mãe dela, favor deixe-me a levar!

- Leve!

E menti dizendo ir a Lisboa e logo voltaria, mas fugi pra Holanda e nunca mais fui vista nessas terras!

Cássia Ben Maya

( texto de 2014)