Zaratustra está morto:
A vontade é um delírio, disse o sábio ao contemplar a abóbada de sua própria ignorância. A vontade é o que pensam ter os insipientes, indoutos de seu próprio torpor. Ela é como um véu que esconde da vista o fato de que nada podemos. Somos seres que vivem a odisseia de sermos incapazes de esconder a própria impotência, um vaso quebrado em busca da completude, puro sofrimento esperando ser preenchido com alegria. No delírio de querer ser mais que isso, o poeta da nova modernidade se destinou a matar Deus. Era ele um vaso esperando ser completado, mas que, por fim, matara a água que podia preenchê-lo, o único néctar dos deuses, a luz de todos os caminhos.
— — A verdade não existe — — Poderia ser a voz de mais um insensato. As moscas da modernidade se destrinchavam nas mais espúrias conjecturas. Antes prado fértil e cheio de vida, a vida intelectual moderna já não encontrou mais espaço para crer nos contos de sua juventude. Este insensato que acabara de se expressar não era um augúrio isolado, não era voz das mais ensandecidas que se predispunham a contestar o óbvio. Era mais, o espírito de uma época que já nascera morta, era por si a voz de um período que tinha nascido para findar-se. Esforço do seu tempo era matar aquilo que no passado já lhe dera alento, já não ouvia a voz que gritava dentro de si. Esforço de não querer mais o conhecimento, toda a arte seria vã.
— — O nada absoluto é o único que existe — — O homem era feito para o nada, pelo nada, a serviço do nada. O vazo buscava completude num vazio sem fim. O álibi de sua servidão vil era que já inventara outros deuses, e nenhum poderia dar aquilo que lhe faltava. O vaso buscava preencher-se com água, e por não encontrar o espírito absoluto, via-se como se por preencher-se de diversões vãs. Eu preencho meu nada com aquilo que nunca preencherá meu nada.
— — Zaratustra está morto — — Um dia gritará o sensato, e seu grito, por fim, será ouvido.
