A Índia dos tempos védicos e as origens da civilização (I)

Fonte: Daily Mail

Para um jornalista, é sempre um desafio tornar palatável um tema complexo e restrito a especialistas, como é o caso da(s) origem(ns) da civilização. Tentarei fazer o meu melhor, já sabendo, de antemão, que não será suficiente, visto que gente muito mais gabaritada do que eu, como Graham Hancock, Robert Bauval, John Anthony West e Robert Schoch, já percorrem essa trilha há vários anos com muito mais propriedade e nem por isso deixam de receber ataques virulentos pelas hipóteses que levantam.

Como vejo muito pouco conteúdo sobre esse debate em Português, resolvi dar uma contribuição com este resumão em três partes. A história da civilização é um de meus temas favoritos. E, pra mim, quanto mais antigo, mais misterioso e instigante. E desde que passei uma parte da minha vida em contato com a filosofia hindu, em especial a literatura Védica, sempre me chamou a atenção a grande disparidade entre as visões oriental e ocidental sobre como a civilização humana se desenvolveu.

Na Índia, a tradição ensina que a civilização é muito mais antiga do que prega o Ocidente. E que, além disso, a civilização humana passa por grandes ciclos de evolução e decadência. Esse é um conceito filosófico-religioso que encontra eco em algumas pesquisas arqueológicas, dedicadas a comprovar que o período védico, uma época de grande desenvolvimento espiritual, científico e artístico de fato existiu, séculos antes da civilização babilônica, tida no Ocidente como berço da civilização. Diga para um indiano que as tábuas sumérias com a escrita cuneiforme são o primeiro registro de escrita e ele vai rir e dizer que o sânscrito é muito mais antigo.

No estado indiano de Tamil Nadu, a existência de uma terra pré-histórica ao sul do subcontinente indiano, chamado Lemúria, é ensinada nas escolas, é tema de teses defendidas em universidades e já virou documentário patrocinado pelo governo. A antiga Lemúria, também chamada de Kumarikantan, teria sido não somente o berço da humanidade, mas também da vida urbana e, consequentemente, da civilização, em um período anterior a 8.000 a.C, segundo a tradição tamil.

Na tragédia do tsunami de 2004, o recuo das águas do Índico permitiu vislumbrar ruínas até então encobertas pelo mar nas praias de Pumphuhar e Mahabalipuram (fonte). De fato, o subcontinente indiano está cercado de ruínas submersas, incluindo nas proximidades em que, há séculos, a tradição conta que ficava a cidade de Dwaraka (ou Dwarka) onde teria vivido Krishna. No documentário Underworld, Flooded Kingdons of the Ice Age (disponível no Youtube), várias dessas ruínas são filmadas pela primeira vez. Algumas são conhecidas de comunidades de pescadores há séculos. Outras são objeto de pesquisas arqueológicas conduzidas por universidade locais.

A ciência tradicional dirá que essas cidades antigas foram submergidas por grandes deslocamentos de terra causados por terremotos. Porém, os avanços em campos emergentes da pesquisa científica (como a paleoclimatologia, que estuda o clima em diferentes eras geológicas da Terra) têm permitido entender melhor como era o planeta durante a última Era Glacial (ou durante o período mais intenso da glaciação, uma vez que, tecnicamente, ainda estamos na Era Glacial, já que há calotas polares e geleiras em vários lugares do planeta, mas essa é outra discussão).

Enfim, cerca de 12 mil anos atrás, o planeta era bem diferente de sua configuração atual, com glaciares de mais de 1,5 km sobre a América do Norte, começando mais ou menos da latitude onde hoje está Nova Iorque. A linha d’água dos oceanos era cerca de 100 metros abaixo da atual, o que resultava em um desenho das costas dos oceanos bem diferente do que se tem hoje. Com a ajuda de satélites e radares, os cientistas tem conseguido projetar como seria o Mapa Mundi naquela época. Curiosamente, as tais ruínas indianas, especialmente ao Sul do subcontinente, estão todas a uma profundidade relativamente próxima, correspondendo ao litoral indiano durante a última glaciação. Além do Sul da Índia, o Sudeste Asiático, a Oceania, o Sul da América do Sul, o litoral Norte da Europa e o Caribe estariam entre as áreas que mais perderam terras com a subida dos oceanos, cerca de 12 mil anos atrás.

Ice Age Now

Curiosamente, no centro dessa grande área do Sudeste Asiático submersa ao fim da Era Glacial há um sítio arqueológico que desafia a narrativa civilizatória tradicional. Gunung Padang (Montanha de Luz), na Indonésia, foi descoberto em 1914 e inicialmente foi tido como um complexo de megálitos, com blocos de granito espalhados desordenadamente por sobre uma colina. Em 2010, o geólogo Danny Hilman Natawidjaj, formado na Cal Tech, começou a suspeitar que a colina era artificial. Utilizando técnicas que combinam escavação tradicional, radar de penetração de solo e perfuração de alta profundidade, Natwidjaj identificou câmaras subterrâneas e retirou material para análise por datação de carbono, resultando em mais de 26 mil anos de idade, auge da Idade do Gelo, quando éramos caçadores coletores, incapazes de construir uma pirâmide como essa.

Obviamente, os resultados chocaram a comunidade arqueológica que fez lobby para o governo indonésio retirar a permissão para as escavações. Natwidjaj conseguiu reverter a situação em 2014, mas com o compromisso de ir “mais devagar”. Este artigo do escritor e jornalista Graham Hancock traz algumas explicações do geólogo, entre elas a afirmação de que “não há dúvidas de que há uma pirâmide debaixo daquela colina”. Abaixo uma projeção de como era a estrutura.

Fonte: Graham Hancock

Portanto, não admira que a Índia seja berço de tradições que defendem que a humanidade é muito mais velha do que se diz. Mas essa crença não é exclusividade da cultura Védica. Ela também está presente no Egito, o que será abordado no próximo texto desta série.