Ned Flanders e a dicotomia cognitivo-comportamental nas redes sociais: um estudo de caso

Volta e meia, as tretas da internet me fazem lembrar um capítulo lamentável da minha vida acadêmica, um trabalho sobre a Teoria da Dissonância Cognitiva. Lamentável por uma série de situações envolvendo a elaboração desse trabalho e também porque ele ganhou nota dois (sim, dois numa escala de zero a dez), o que me levou a teorizar sobre a forte dissonância cognitiva que a professora sofreu por ter que dar nota em relação a um assunto que ela não conhecia. Mas essa é uma história que não vem ao caso agora.

Venho aqui escrever este textão sobre essa teoria porque acho que esse deveria ser um assunto mais popular. Assim como o Código Brasileiro de Trânsito ou Direito do Consumidor. Coisa sobre a qual qualquer sujeito deveria ter alguma noção básica.

A Teoria da Dissonância Cognitiva foi criada nos anos 50 por Leon Festinger. É uma teoria do campo da psicologia social, com amplas implicações para estudos de marketing e publicidade. Gente que elabora estratégias de comunicação para campanhas eleitorais, por exemplo, usa e abusa dos preceitos dessa teoria para fazer a sua cabeça e conquistar o seu voto.

A teoria diz basicamente o seguinte: qualquer coisa que você pensa sobre qualquer coisa é uma cognição. Você tem (ou você é…) um conjunto de cognições: o que você acha “da vida, o universo e tudo mais”, a sua religião, o seu time do coração, a sua sobremesa favorita, as séries que você assiste. Ou seja, aquele resultado da lavagem cerebral que a família, a escola, a igreja, a mídia e a sociedade em geral fizeram com você.

Nesta era da informação, estamos constantemente sendo expostos a novas cognições, novos pensamentos que chegam a todo instante, através de conversas, meios de comunicação, redes sociais etc. Cada cognição que chega pode estar em consonância (em harmonia) com as cognições que você já tem ou em dissonância. Se é consonante, aí tá beleza! É algo que reforça suas crenças, confirma seu ponto-de-vista.

O problema é que, quando a nova cognição está em desarmonia com as suas cognições, vai lhe causar um estado de consciência desagradável, a dissonância cognitiva. Nesse caso, um mecanismo inconsciente de redução da dissonância é acionado, mais ou menos como o sistema imunológico entra em ação quando uma bactéria ou vírus é detectado no organismo.

Você tentará, então, restabelecer o estado de consonância o mais rápido possível, o que se dará: pela substituição de suas crenças para acomodar a nova cognição dissonante (um processo que pode ser mais difícil, doloroso até); pelo desinteresse pela nova cognição (olhar pro outro lado é sempre mais fácil); ou ainda pela negação (violenta até), desqualificação da fonte/interlocutor, criação de desculpas que desafiam a lógica ou até fabricação de memórias (enfim, o céu é o limite para os mecanismos de defesa do ego, dependendo do grau de dissonância a que você é submetido).

Um exemplo: o sujeito é uma pessoa religiosa, vai aos cultos com regularidade, paga seu dízimo, é voluntário em algum projeto social da igreja. Tipo um Ned Flanders (foi o que me ocorreu pra tacar alguma imagem neste post). Certo dia, o líder religioso a que esse cara está ligado (sua grande fonte de inspiração) é tema de uma reportagem escandalosa, envolvendo milhões de reais embolsados dos fiéis, festas com drogas e prostitutas. Enfim, uma tremenda dissonância cognitiva. Para restabelecer a consonância, o que você acha que o fulano vai fazer: a) revê seus conceitos, repensa sua filiação àquele grupo religioso, vai fazer terapia, cria um novo hobby para ocupar as manhãs de domingo…, ou b) diz que a tal matéria é coisa do capeta, são as forças do mal querendo combater a luz que sua religião representa neste planeta. Enfim, cada um alivia sua dissonância como pode.

Eu até tinha pensado em escrever outros exemplos em relação à orientação sexual, às escolhas partidárias, ao posicionamento ideológico, aos ídolos/celebridades, mas acho que basta dar uma olhada no seu feed de notícias do Facebook para ter uma ideia da dissonância cognitiva em ação. Ela é bastante democrática. Pega o pessoal de direita, de esquerda. Pega quem defende a Lava-Jato, quem critica. Quem quer que o Dória apague os grafites. Quem quer apagar o Dória…

Enfim, já indo para os finalmentes deste papo de boteco. Não me parece suficiente explicar esse fenômeno de acirramento das opiniões apenas com o algoritmo do seu Zuckerberg, a tal bolha de conteúdo e a dopamina liberada a cada curtida ou compartilhamento, embora esses fatores sejam, sim, relevantes. Acho que a dissonância cognitiva também desempenha um papel importante e é uma explicação bem razoável para a polarização que vivemos no mundo: Trump/republicanos/nacionalistas x Hillary/democratas/imigrantes, nos EUA; coxinhas/”militares me salvem” x petralhas/esquerdopatas/comunistas, no Brasil; neonazis/fascistas x pró-refugiados, na Europa e por aí vai.

O mundo é complexo, mas é preciso muito esforço para harmonizar as cognições de forma racional e coerente. No ambiente da rede, em que estamos constantemente sendo expostos a novas cognições, a dissonância cognitiva pode ocorrer a qualquer momento e o retorno ao estado de consonância precisa ser rápido. As interações na rede acabam servindo como mecanismos coletivos de redução de dissonância, em que cada um reforça as crenças, pontos-de-vista e preconceitos uns dos outros.

Ou seja, as redes sociais têm um lado bom, conectam as pessoas, os velhos amigos, parentes que moram longe, trazem informações pertinentes, fazem rir, emocionam. Mas também podem estar nos tornando mais fanáticos e preconceituosos. Isso explicaria por que parece que começamos a andar pra trás, esse saudosismo conservador do “make America great again”, Brexit, “intervenção militar constitucional” etc. Até a crença de que a terra é plana está voltando (tem uma tal de Flat Earth Society aí que está conquistando cada vez mais adeptos ao redor do globo!!!).

Bem, é uma hipótese.

Agora, se este texto lhe causou alguma dissonância, lhe peço desculpas. E já vou lhe ajudar a restabelecer a consonância. Lembre-se que eu tirei dois no meu trabalho sobre esse tema. Vai ver eu não entendi nada.

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