Primeira vez no Santo Daime

Ontem eu tomei Daime pela primeira vez. Fui a uma igreja “escondida” quase nos limites de Curitiba com Colombo. Chegamos lá pelas 20h. Era uma sala com umas 60, 70 pessoas. Homens de um lado, mulheres do outro e, no meio, um grupo de “iniciados” que ia coordenar o trabalho. O grupo incluía dois devotos com violões que puxavam os hinos.

Tomamos a primeira dose lá pelas 20h30 e voltamos a nos sentar. Daí começou a ladainha. Pra falar a verdade, não gostei das músicas. Além de erros crassos de português (com coisas do tipo “nós vai” escritas no livretos que distribuíram), não curti a filosofia dos textos. No seu sincretismo, os “daimistas” pegaram idéias do cristianismo que me dão um certo mal estar, como a de estarmos ali para “reparar nossos pecados” etc.

E não gostei também do óbvio caráter doutrinador das letras. Tinha uma que falava “se quiser me conhecer, vai ter que me obedecer” e por aí vai. Daí eu olhava para os “fardados” (que é como eles chamam os que estão ali para tomar conta dos viajantes) cantando de um jeito muito militar e me perguntava o que que eu estava fazendo naquele lugar.

Depois de uns 30 minutos de canto, nos levantamos para a segunda dose. Um pouco antes disso, eu estava meditando com as palmas das mãos para cima, sobre as minhas coxas, e comecei a sentir um formigamento. Era como se eu tivesse uma bola de energia em cada mão. Pouco depois de ter voltado a me sentar, reduziram as luzes para a meditação silenciosa. Quando tudo escureceu, eu não sabia mais se estava de olhos abertos ou fechados.

Demorei alguns minutos para perceber que eu realmente estava de olhos fechados, o que só aconteceu depois que eu fiz uma certa força para abri-los. Ok, ainda estou no controle, pensei. Quando fechei os olhos de novo, foi como se olhasse para um céu absurdamente estrelado. Fiquei contemplando o céu por um tempo. A essa altura, o formigamento nas palmas das mãos era muito intenso e eu sentia que meus dedos eram antenas captando energia do alto.

Também sentia meu terceiro olho formigando. Comecei a ter uma série de experiências visuais, impossíveis de serem descritas. A melhor analogia que posso fazer é que era uma espécie de evolução de fractais (mais ou menos assim: eu via um padrão visual riquíssimo em detalhes, daí eu pegava um detalhe e percebia que aquilo era um mundo inteiro de detalhes, daí eu pegava outro e assim por diante, num processo que me parecia infinito).

O mais impressionante é que aquilo fazia um tremendo sentido, me dando a sensação que tudo estava interconectado. Também me dava uma sensação de uma relação muito particular entre o tempo e o espaço que eu nunca tinha percebido antes. Sei que isso é muito vago, mas é o melhor que posso fazer.

Durante essa parte do trabalho, vi um ser muito horrível que parecia uma espécie de aranha, mas definitivamente não era deste mundo. Minha primeira reação foi de nojo, mas logo passei a achar aquele ser muito engraçado e comecei a rir. Em um certo momento tinha uma mulher do meu lado com uma bandeja me oferecendo mais Daime, mas eu não dei bola pra ela. Eu me lembrava que tinha recebido o Daime no altar, cheio de reverência, então me liguei que ela também era uma visão.

Enquanto tinha essas experiências, ia travando uma diálogo mental. Uma voz dizia “peraí, isso está indo longe demais” e outra dizia “se entrega, cara, deixa rolar”. Comecei a sentir náuseas. Levantei, fui ao banheiro, mas não vomitei. Apenas passei uma água no rosto e voltei a me sentar. O processo recomeçou a mil por hora, tive uma náusea muito forte e vomitei. Pelo menos os daimistas distribuem um saquinho plástico para esse tipo de emergência.

Passei alguns minutos suando em bicas, respirando fundo e torcendo para que aquilo acabasse logo. A respiração ajudou e voltei a meditar. Foi aí que começou a melhor parte do trabalho. Estava aplicando uma técnica de meditação, me concentrando na respiração. Foi então que “uma voz” falou algo do tipo “você está se enganando, isso aí não é meditar, é só a sua mente dizendo inspire e expire e fantasiando em cima disso”.

Percebi que essa voz já estava comigo há algum tempo e resolvi partir para o lado mais prático daquilo tudo e perguntei se havia um guia ali. Sim, foi a resposta. Mas foi uma resposta com a minha voz. Perguntei se esse guia não era eu mesmo. Não, disse a voz. Após alguns instantes de perplexidade, comecei a fazer perguntas objetivas sobre várias questões da minha vida e recebi respostas muito claras.

Estava muito feliz com aquilo tudo e passei a me concentrar na idéia central do livro Um Curso em Milagres (UCEM), de que só o amor é real. Senti um amor muito profundo pela vida, como nunca tinha sentido antes. Logo, esse sentimento começou a incluir todos que estavam ali, a minha volta. Até os “fardados”, de quem não tinha gostado nem um pouco. Entendi completamente o que eles estavam fazendo, apesar de não concordar. O sentimento continuou se expandindo e incluindo pessoas que não estavam ali. Logo, até por pessoas de quem eu não gosto eu sentia um amor transcendental, beatífico.

No fim, olhei para mim mesmo. Compreendi como a vida é algo frágil e como eu tenho uma falsa sensação de segurança centrada no meu ego. Vi como o meu projeto de ego é patético e achei muita graça dele. Continuei meditando muito feliz com os meus insights por mais uns 30 a 40 minutos. Eram pouco mais de 23h quando começaram a puxar os hinos novamente. Mas, pouco antes disso, eu disse para mim mesmo que o que eu tinha sentido era suficiente para minha primeira experiência e isso cortou bastante o efeito.

No final das contas, gostei muito da experiência, apesar de continuar desaprovando o excessivo controle dos “fardados”, os hinos de Português chinfrim e a “pira errada” com a culpa do cristianismo. Acho que uma experiência com Ayhuasca vale por alguns meses de psicoterapia. Com certeza, hoje, minha consciência sobre mim mesmo está diferente.

Esse texto foi escrito em junho de 2003.