Eu fracassei

Já parou pra pensar quantos sonhos você já teve e sequer chegou perto de realizar? Pois bem. Tenho estado bastante reflexivo nesses dias, vivendo aquela famosa crise dos 29. E foi ela que me fez enumerar alguns desses sonhos falidos que acumulo vida adentro.
Eu já quis ser moço. Do tempo. Ficava encantado com a previsão do tempo do Jornal Hoje, tanto que logo cedo aprendi a falar a palavra meteorologista para dizer que era isso que eu queria ser. Me projetava em frente a um mapa colorido, decorado por sóis, nuvens e marcações de temperatura. De acordo com o enunciado, o tempo passou e eu:
A — ( ) Sofri calado.
B — (x) Obviamente fracassei.
O próximo sonho foi ser ator. A experiência bandeirante que empreendi nas escolas por onde passei tentando implementar o ofício de alguma forma me fizeram acreditar que eu tinha potencial. Eu protagonizava e dirigia as peças que eu mesmo escrevia. Um destino artístico promissor, né? Não se você imaginar que eu fracassei também.
Já quis ser VJ. Os apresentadores da MTV exerceram grande fascínio sobre mim. Eram mais descolados que os apresentadores das TVs tradicionais. Eram jovens, soltos. E usavam o 3 tabela, aquela caixa sobre a qual apoiavam geralmente a perna direita e que conferia a eles um charme todo especial. E na primeira posição do Disk MTV: o meu fracasso.mp4
Já quis ser jornalista de cultura (note que os sonhos vão ficando cada vez menores). Queria ser o cara que contava histórias dos ícones da música e do cinema. A questão aqui foi que quando ingressei na universidade e, em seguida, no mercado de trabalho, resolvi fracassar logo para não experimentar o fracasso maior que seria ter, de fato, me tornado um jornalista.
Quis ser blogueiro de sucesso. Fiz de tudo: listas polêmicas, traduções rápidas de notícias que saíam nos sites gringos para tentar ser o primeiro a publicar, posts especiais, com pesquisa, artes próprias etc. Sim, meus amigos. Fracassei.
Um dia quis ser popular no Twitter. Lá em 2009 isso devia ser tipo influenciador, termo que acredito não ser usado à época. Entre raros retweets, favoritos (não era like) e replies, vocês já devem imaginar: isso mesmo:
E é bem assim que estou, é tudo que restou. Aos 29 posso dizer que o fracasso me subiu à cabeça. E se talvez houver alguma coisa em que posso dizer que fui bem-sucedido foi em ter acatado as palavras do anjo torto que, assim como disse para Drummond, deve provavelmente também ter dito pra mim:
Vai, Romulo! Ser gauche na vida.
E eu fui.
Nota do autor: apenas após finalizar esse relato percebi que esses sonhos estavam todos ligados à fama de alguma forma. Cadê aqueles sonhos nobres de viajar, ser pai, transformar a sociedade? Mereço mesmo é participar de um reality show e sair na primeira semana.
