Um olhar sobre o Brasil nas Olimpíadas Rio 2016

Sem isenção, sem ufanismo, sem pessimismo, com um pouco de realismo

Desde 1996, quando vi pela primeira vez uma Olimpíada, esse evento sempre mexeu muito comigo. As Olimpíadas são o símbolo máximo do que é o esporte: a busca pela glória. Mas vou fazer uma análise de resultados e desempenho do Brasil nesses Jogos. Dá ou não pra comemorar? Há perspectiva de um programa olímpico planejado e de continuidade, como fez/faz a Grã-Bretanha desde 1996?

Judô — vencemos por Wazari

“Falaram que o judô não era para mim, que eu era a vergonha da família. Agora, sou campeã olímpica” — Rafaela Silva

A sensação é de vitória, sim. Não aquela épica com o golpe perfeito, mas aquela suada com o golpe que tem um gostinho de quase, mas traz a vitória do mesmo jeito. Rafaela Silva que o diga. O Judô tem histórico de bom desempenho e certa tradição no Brasil. A expectativa com uma Olimpíada em casa era de superar o melhor desempenho histórico da modalidade, 1 ouro e 3 bronzes, em Londres 2012. Fechamos com 1 ouro e 2 bronzes. É o segundo melhor da história, mas a meta de superar a performance anterior não foi batida e o Judô masculino deixou a desejar. É um esporte que não pode reclamar de investimentos e apoio no Brasil. Mas o saldo geral não é negativo, o Brasil sobe no quadro geral de medalhas (de 6º em 2012 pra 5º neste ano). Fica a torcida por continuidade.

Natação — largamos bem em 2013, cansamos na chegada em 2016

Bruno Fratus, felizão

De longe a maior decepção brasileira dos Jogos. Outra modalidade que recebeu grandes investimentos e não conseguiu transformá-los em conquistas. Sem a conquista de um bronze sequer, com atletas capacitados pra fazer o resultado, a natação sai de cena sem aplausos. A torcida brasileira se contentou em reverenciar lendas estrangeiras, como Michael Phelps, Katie Ledecky, Kantinka Hosszú e Anthony Ervin. Além do investimento, os resultados nas principais competições do ciclo olímpico eram animadores: 3 ouros, 2 pratas e 3 bronzes no Mundial de Esportes Aquáticos de Barcelona 2013. Os 50m Borboleta (ouro nesse mundial com César Cielo) não é prova olímpica. No mundial de Kazan 2015, tivemos 1 ouro, 4 pratas e 3 bronzes. O ouro veio com Ana Marcela Cunha na maratona de 25km, que não está no programa olímpico. Também ganhamos a prata nos 50m Borboleta, com Nicholas Santos. A prova, como já citado aqui, não faz parte do programa olímpico. Havia uma tendência clara de queda de rendimento, mas nenhum bronze? Isso nas piscinas. Fica o brilho do bronze de Poliana Okimoto na maratona aquática. Ela não era favorita mesmo, criticou o fato de todos os holofotes terem ido exclusivamente para Ana Marcela, mas é do esporte. Os resultados prévios dela não eram bons.

Vôlei — ace deles, largadinha delas

“A gente pode conquistar o mundo apenas com uma manchete” — Serginho

Nosso principal esporte olímpico. As expectativas são e sempre serão grandes para a modalidade que, desde Barcelona 92, sempre traz medalhas, seja na areia ou na quadra. Só ficamos sem ouro em Sidney 2000. Enquanto o ouro veio no masculino, no feminino a sensação foi a de que tomamos um ponto de largadinha que dava pra evitar. Foi mais ou menos isso.

Na quadra…
O feminino fez o que se esperava: passou em primeiro em seu grupo sem perder sets. Contou com a “sorte” (pra mim, na verdade, azar) de ter caído num grupo fácil, extremamente fácil, como diria Rogério Flausino, com uma Rússia que, desde 2012, não assusta mais ninguém no feminino. Japão e Coreia já deram trabalho, mas não têm hoje grandes equipes. Pegou a China nas quartas e caiu. Caiu pras futuras campeãs olímpicas. Apesar da campanha irregular na fase de grupos, a seleção da craque Ting Zhu era forte e superou o Brasil, que caiu de pé. Agora a China, depois de anos e anos, volta ao cenário dos grandes do vôlei feminino. Paras as nossas bicampeãs olímpicas, agora resta o grande desafio da renovação. Vem aí uma entressafra que preocupa. Sheila e Fabiana se despedem e encontrar jogadoras do nível delas é difícil, mas é normal no esporte coletivo. Brasil chegou à competição como 3ª força e sai como 5ª força do esporte. Com a ascensão de Sérvia e Holanda, o feminino caminha para o mesmo quadro do masculino: vários times fortes e nenhum sinal de hegemonia.

O masculino teve uma campanha insegura na primeira fase. Perder um set pro México (pro México, repito) preocupou. A classificação dramática contra a França desenhou dois caminhos possíveis: 1. o time se fortalece e vai com tudo até a final e 2. a campanha irregular confirma que o Brasil não passaria do mata-mata. O Brasil chegou como grande favorito ao ouro, mas teve três jogadores lesionados: Maurício Sousa, Lucarelli e Lipe. Lucão chegou a preocupar com uma possível lesão e Serginho não estava em sua melhor forma física. Já Wallace jogou muito, desequilibrou, se sobrecarregou e impressionou. Engoliu os adversários, passou por cima de bloqueios, desestruturou defesas. O time jogou o tempo todo na base da superação. O jogo contra a Argentina foi nervoso. No vôlei, há jogos que encaixam. Três seleções no cenário mundial têm estilos parecidos hoje: Brasil, França e Argentina. Times com volume de jogo, variação de saque e equilíbrio em todos os setores. Quando o Brasil pegou uma Rússia que não conseguia fazer um bom passe sequer e soube sacar, o domínio do jogo foi absoluto. Veio a final contra a Itália, a seleção favorita. Favorita pela melhor campanha e pelo time em melhores condições físicas. E foi, de novo, na base da superação. Mas o Brasil sabia que não podia jogar 5 sets e tratou de resolver tudo em 3. Sets apertados, mas jogados com a cabeça. O saque inteligente e o ataque eficaz fizeram o time ser competitivo. Mesmo não sendo imbatível, o Brasil mostrou que não foi à toa que chegou em praticamente todas as decisões de competições mundiais que disputou. Não venceu nenhuma, mas aprendeu a perder pra ganhar o que mais importava: o ouro olímpico.

Na praia…

“ No ano de 2014, compramos um terreno. Em 2015, subimos uma casa e, em 2016, pintamos ela” — Alison

Equilíbrio. Evandro e Pedro não avançaram às oitavas. Sem surpresas aí. Sem surpresas também que Alison e Bruno tenham chegado à final. Campeões mundiais, mostram força e poder de decisão em quadra. Larissa e Talita não foram decepção, perderam pra melhor dupla da temporada: as alemãs Ludwig e Walkenhorst. A surpresa do torneio foi a dupla Ágatha e Bárbara na final contra as alemãs. Bateram Walsh e Ross num jogo taticamente perfeito. Mas diante de uma superioridade notável, nossas campeãs mundiais não conseguiram encaixar seu jogo. As alemãs sagraram-se campeãs olímpicas de forma incontestável.

Bruno merece um destaque: o melhor jogador disparado da competição. Domínio completo do fundo de quadra, ataques mágicos em momentos decisivos, saques estratégicos. Ele foi quase perfeito. Só o bloqueio não teve o brilho dele. Aí deixa pro Alison, monstro desse fundamento, que também jogou muito. Caçado nos saques, ele soube aguentar a pressão. Um ouro incontestável.

Basquete — não deu nem aro

Uma linha rápida sobre o feminino: a campanha desastrosa já era esperada, não só por conta dos problemas políticos e desorganização, mas também por conta de uma carência de talentos. Sobre o masculino, dessa vez a história de falta de entrosamento, falta de compromisso dos jogadores da NBA e baixo investimento não colam. O Bradesco injetou dinheiro no esporte, houve compromisso das estrelas da liga americana e hoje temos uma liga nacional consolidada. Pegou um grupo difícil? Sim, mas mostrou que podia ganhar os jogos que perdeu. E a situação financeira da CBB preocupa. O futuro do esporte não tá muito bem desenhado na prancheta tática dos dirigentes do basquete.

Handebol — Uh, defesa!

As meninas confirmaram o favoritismo na primeira fase e não foi só isso, elas mostraram na bola que podiam, sim, ser campeãs, o time jogou muito. Mas veio o mata-mata e elas caíram diante da Holanda, que ficou em 4º lugar. O domínio das holandesas foi enorme na partida decisiva e o time do Brasil não teve o mesmo volume de jogo que encantou a Arena do Futuro na primeira fase. O time era bom, mas não conseguiu um grande resultado, que era uma medalha. Para o masculino, o grande resultado foi alcançado: passar de fase. Deu grande exemplo de time que soube aproveitar o fator casa pra conseguir vitórias improváveis como diante da Alemanha e que, no futuro, pode disputar títulos importantes. E que sensacional o público no ginásio compreendendo o esporte e gritando “uh, defesa!”. A participação da torcida nos jogos de handebol foi espetacular.

Ginástica Artística — cravou

“Na primeira Olimpíada, eu caí de bunda. Na segunda, eu caí de cara. E, nessa, eu caí de pé” — Diego Hypólito

A ginástica é a grande vencedora do esporte brasileiro nestes jogos. Também tiveram investimento e transformaram isso em resultado. Final por equipes no masculino e feminino, finais do individual geral e por aparelhos. Fora as medalhas de Diego Hypólito, Arthur Nory e Arthur Zanetti.

Futebol — as lágrimas delas valem mais que o ouro deles

“Não desistam do futebol feminino” — Marta

Sobre o futebol masculino não tem o que falar. Chegar à final e ganhar a medalha de ouro não foi mais que a obrigação. Não vou nem citar aquele jogador que vocês sabem o nome. Não merece confete.

O feminino foi surpresa. Não se esperava que passassem das quartas (isso nos prognósticos pré-competição) e com Estados Unidos inacreditavelmente eliminados, já dava pra sonhar com medalha. O ouro era sonho improvável e realmente não virou realidade. Nem prata, nem bronze. A única competição importante do ciclo foi a Copa do Mundo do Canadá, na qual elas não passaram das oitavas, eliminadas pela Austrália. A seleção feminina de futebol também deve passar por um período de renovação, o que preocupa mais que a seleção de vôlei. Não há grande material humano que gere peças de reposição por aqui. Marta e Cristiane foram duas em 1 milhão. Da prata de 2004 pra cá, as coisas melhoraram, mas muito pouco. O futuro da modalidade ainda é nebuloso ainda mais com a CBF cogitando acabar com a seleção permanente de futebol feminino.

Boxe — uh, vai vencer!

“Nunca desistir. O caminho é longo, mas a vitória é certa” — Robson Conceição

Ao som das doces palavras dos torcedores brasileiros para os adversários “uh, vai morrer!” (olha o carinho da torcida), chegamos ao ouro inédito na modalidade. Não repetimos os resultados de Londres, em quantidade, mas veio a medalha de ouro. Porém, quando se fala em consistência, as conquistas de Londres pesam mais e a impressão que fica é a de que não houve crescimento. “A medalha de ouro supera um quilo de medalha de prata, de bronze, que qualquer um conseguiu”, disse o presidente da CCBoxe, Mauro Silva. Não é bem assim. Não se valoriza uma conquista desvalorizando outras. É uma grande conquista, mas inconsistente se olharmos pra modalidade de uma forma macro. O problema está exatamente no ouro ser o que importa de fato no quadro de medalhas. A vitória do Robson fica como um fruto do talento e da superação, mais exceção do que regra. Mas tirando vôlei, natação e judô, qual conquista esportiva não é mais superação do que qualquer outra coisa, né?

Tênis — bola com efeito

Tênis olímpico, às vezes, é uma caixinha de surpresas. Ele quebrou a ilusão dos favoritos: Djokovic, Serena e Marcelo Melo e Bruno Soares. Mas consagrou outros favoritos: Murray, no simples, e Nadal, nas duplas, com Marc López. E uma zebra: Monica Puig, de Porto Rico, no simples feminino. Primeira medalha de ouro da história do país. A única chance do Brasil era realmente nas duplas masculinas, mas nunca foi um grande favoritismo. Melo e Soares não jogam juntos nos torneios da ATP e Grand Slams, apenas na Davis, aliás, quase nenhuma dupla que disputou os Jogos têm histórico de competir junta, o que fez com que essa competição específica fosse incógnita.

Atletismo — estrela solitária no lugar mais alto (do estádio e do pódio)

“ Uma medalha olímpica era muito importante até para a continuidade da minha carreira. Para continuar meu trabalho lá fora, dependo de apoio” — Thiago Braz

A medalha de ouro, conquista espetacular do Thiago Braz no salto com vara, vai pra conta do talento individual também. O atletismo é terra infértil do esporte brasileiro e o país hoje não consegue ser competitivo na modalidade de uma forma consistente. Thiago não era favorito, não se esperava medalha. Ele tinha acabado de sair da categoria junior para competir entre os profissionais. Era promessa ainda. Eis que ele não só ganha o ouro, como também quebra o recorde olímpico. Há alguns resultados que são avanços: final do arremesso de martelo depois de 84 anos, com o Montanha, e quinto lugar (!) no arremesso de peso com o Darlan Romani.

Canoagem — a consagração do maior brasileiro olímpico

“ Acho que mostrei para o mundo que baiano tem garra, tem determinação e dedico as três medalhas para a Bahia. Nunca deixei de mostrar minhas raízes” — Isaquias Queiroz

E de uma modalidade que poucos imaginavam que seria capaz de nos dar alegrias, veio Isaquias Queiroz, o maior atleta olímpico brasileiro da história. Podemos até divergir e pensar no César Cielo, que tem duas medalhas em uma mesma olimpíada, sendo que uma delas é um ouro, mas ganhar três medalhas (duas pratas e um bronze) é um feito histórico. Os prognósticos já apontavam Isaquias como favorito por conta dos resultados nas competições prévias. Prata no C1 100m, bronze no C1 200m e prata no C2 1000m, com o Erlon Silva.

Outros esportes — tiro, porrada e Bonfim

“Aqui dentro é só alegria. É uma brincadeira, é diversão. Duro é no CT, onde tomo porrada todo dia” — Maicon Siqueira

Felipe Wu conquistou prata no Tiro Esportivo, confirmando as expectativas pelos bons resultados em competições prévias. Maicon Siqueira foi bronze no Taekwondo, esporte que cogitou até ter Anderson Silva competindo. Personagem vencedor de última hora numa modalidade que não havia criado nenhuma expectativa no público e na imprensa. Caio Bonfim, 4º colocado na marcha atlética de 20km e 7º na de 50km, os melhores resultados do Brasil na história desse esporte. Nathalie Moellhausen com o melhor resultado histórico na esgrima. Todos esses (e talvez alguns outros que eu não tenha lembrado aqui) também merece destaque.

Mais que investimento

Dinheiro várias confederações esportivas chegaram a ter e algumas transformaram em resultado. Mas não é só isso. É preciso saber o que fazer com esse dinheiro. As confederações estão endividadas e poucas têm capacidade de gerar receita. O governo já anunciou cortes de investimentos no esporte, cujo apoio precisa ser feito lá na Educação Física das escolas. É aí que começa a formação de um atleta e nossa educação física é muito deficiente. As perspectivas para Tóquio 2020 são pessimistas e não poderia ser diferente.