UM CANHOTO NUM MUNDO DE DESTROS

Eu tive que aprender a tocar num violão de adulto e de destro, sem poder inverter as cordas. E isso não é fácil quando se tem seis anos de idade.

Quem me emprestou disse: “contanto que você não inverta as cordas”. Bom, eu nem sabia fazer isso mesmo…

Com outros instrumentos, como piano, eu sequer tinha essa opção. A opção era sempre a adaptação. “Você tem que se adaptar” (era o que eu mais ouvia).

Eu sempre me atrasava para começar as provas, porque tinha que esperar alguém conseguir uma cadeira de canhoto para mim. Foi assim no primário, ginásio, passando pelo vestibular e até os concursos públicos.

Me habituei a viver com um borrão de caneta azul na mão esquerda, pois quem é canhoto passa por cima da tinta recente de tudo o que escreve. Já fazia parte da minha mão esse borrão, bem como já fazia parte das minhas redações ter as letras manchadas e ainda ouvir do professor que eu precisava ser mais organizado e fazer menos rasuras…

Já ouvi que escrevo de forma tosca, que sou estranho, mas também que sou charmoso. Tive que me adaptar a ser destro em várias artes marciais, já que a maioria é concebida para eles. Mas já me dei bem também em algumas, como boxe, onde a inversão da base ajuda a desestabilizar o adversário (que geralmente é mais acostumado com destros).

Escrevo diferente, penso diferente e manuseio tudo diferente da maioria. Esse foi um caminho difícil e que eu não escolhi; me foi entregue. Mas nunca abandonei o barco. Gosto sim de ser diferente e de enxergar o mundo sob outra perspectiva.

O mais bacana disso tudo, apesar de ser mais difícil viver num mundo buscando adaptações, é que eu estou acostumado com a maioria, mas a maioria não é acostumada comigo (o que me dá uma ligeira vantagem em várias situações).

Por outro lado, provavelmente os destros não reparem nisso, mas instrumentos simples do cotidiano (mouse, abridor de lata, tesoura, régua, faca, etc.) são feitos para eles. Todos os anos morrem 2.500 canhotos tentando usar instrumentos para destros.

Vivemos menos do que eles, fomos severamente perseguidos e discriminados nos séculos 18 e 19, na idade média já fomos passíveis de pena de morte e nas religiões em geral, ainda hoje, somos associados ao mal, ao diabo e à negatividade.

Em compensação, crianças canhotas têm QI acima de 131, temos o cérebro estruturado de forma a ampliar nossas habilidades, temos melhor percepção tridimensional, nos recuperamos mais rapidamente dos derrames e processamos melhor as informações simultâneas. Somos mais sensíveis e melhores no sexo.

Por termos o lado esquerdo do cérebro mais ativo, algumas pesquisas relacionam os canhotos à genialidade, à capacidade criativa e à veia artística. Não sei se isso está certo, pois nunca fui destro para poder me comparar comigo mesmo. Com certeza não me acho um gênio, mas pelo menos desenvolvi a expertise de me adaptar a tudo na vida. Sim, nesse aspecto eu sou diferenciado.

Somos como uma confraria. Nos reconhecemos na multidão e às vezes achamos alguém especial sem saber explicar o motivo. Quando vamos investigar, descobrimos que se trata de um canhoto também.

Sabemos que temos algo em comum que nos une, conhecemos nossas dificuldades e todos nós tivemos que passar por adaptações. De Paul McCartney, Ringo Star, Kurt Cobain, Jimmy Hendrix, Bob Dylan e Marlin Monroe, até os mais jovens, Lady Gaga, Beyoncé, Angelina Jolie e Barack Obama. Todos foram obrigados a desenvolver uma capacidade enorme de adaptação.

Somos apenas 7% da população, mas aqui em casa somos 100%. Casei com uma canhota que, por isso, me compreende melhor do que os outros 93% dos humanos. Maria nasceu e começou a escrever com a mão esquerda. Certamente também vai enxergar o mundo como nós enxergamos. Há uma cumplicidade entre nós três. A gente sabe que é difícil, mas que também é especial ser assim.

Maria vai passar pelas mesmas dificuldades que nós dois passamos. Mas isso vai ser bom para a formação do seu caráter. Ela vai ver que se adaptar às pessoas é mais difícil, mas é mais nobre também. Vai ser mais compreensiva e se esforçar para que os outros se sintam mais à vontade. Vai entender que isso não é sinal de inferioridade, mas sim de nobreza.

Aos destros do mundo, sabemos que vocês são maioria. Sabemos também que talvez vocês nem sempre lembrem que existe a distinção entre destro e canhoto, afinal, isso não afeta o cotidiano de vocês. Nós compreendemos isso. Não se esforcem para se adaptarem a nós. É difícil. Deixem que nós nos adaptemos a vocês. Já estamos mais do que acostumados…


Rômulo Lunelli, desfragmentador de pensamentos e devaneios, procurador federal, compositor e músico por paixão e blogueiro Contextual.