A cruel angústia da incerteza

Gostaria de tocar em um tema delicado, que me acomete a todo o tempo, e me angustia a alma: a falta de certeza. Nem sempre foi assim — ou talvez tivesse sido, mas levara alguns anos para eu me dar conta. Sinto-me incerto.

Ter garantia sobre cada passo e para onde ele nos levará parece ser crucial para o alcance de um objetivo neste mundo complexo em que vivemos. Mas a vida não é uma carta de garantia. Nem sempre estamos certos de nossas escolhas ou decisões.

Na casa dos 20, tinha certeza de que encontraria um caminho no qual pudesse me encontrar. Estava certo de que escolhera o curso universitário certo, com o perdão da redundância. Em sentido similar, estava convencido sobre o que era o amor. Outra certeza — esta alcançada por uma louca intuição: a de que meu lugar era aqui, onde hoje estou; não lá, onde estivera.

Hoje, balzaquiano, estou certo de que o tempo é impiedoso. Ele não perdoa nossas certezas tortas; recusa-se a voltar atrás para que façamos escolhas novas em um espectro distinto. Pior: cobra de nós certezas que talvez jamais tenhamos. Indiscutivelmente, corremos o risco de ser engolido pelo tempo que não temos de construir alguma certeza. Afinal, são poucas — ou nenhuma — as chances de “fazer de novo, de um jeito diferente”. Na verdade, perder-se no meio do caminho ou ter coragem para renunciar àquilo que se queria, mas talvez não se queira mais, é caro a nós. É preciso pagar um alto preço.

Curioso notar que, a despeito de minha total incerteza, vivemos um momento em que a certeza é fortemente cultuada — e esbravejada. Nessa conjuntura, é possível observar pessoas bastante certas do que quer e do que acredita. Em especial nas novas relações proporcionadas pelas tecnologias, há um certo conforto em bradar verdades e levantar bandeiras. Em proveito de um filão de mercado que se apresenta de bandeja, os mais diversos suportes informacionais disseminam velozmente conteúdos infalíveis de como chegar lá. A cultura da certeza é terreno fértil para a produção de manuais de certezas. Pergunto-me, contudo, até que ponto essas certezas se sustentam e sobre quais bases.

É assim, pois, que chego aos 30 e poucos: com a certeza de que a incerteza é encarada como um grave problema, o que talvez piore meu estado de sofreguidão. Mas seja como for, tento voltar aos 20 ou à primeira década – por que não? –, sem perder de vista as exigências do mundo contemporâneo, para me dar a oportunidade de buscar em mim, incançavelmente, a verdade perdida. Se isto é ser, em demasiado, contra a maré, dou-me o direito de sê-lo. Certo estou de que o peso da incerteza é proporcional ao da escolha realizada. Mas, quem é que detém a absoluta verdade para tomar decisões infalíveis, afinal?