O convívio dos cristãos de ‘variadas horas’


Na primeira leitura (Is 55,6–9), todos nós somos convidados a constantemente avaliarmos nossas posições e toda a nossa vida por completo e então verificarmos se está conforme a vontade do Senhor. Devemos sempre lembrar que os pensamentos de Deus não são como os nossos e muitas vezes nos deixamos enganar pelos caminhos do mundo sem nem ao menos nos questionarmos a retidão desta escolha. Para tal, é necessária humilde e constante oração na intenção de obter uma visão espiritual para adequar nossa mentalidade e nosso comportamento ao Verdadeiro Amor.


Na segunda leitura (Fl 1,20c-24.27a), São Paulo nos revela ser um homem que viveu atento a esta realidade dos pensamentos de Deus. Preso, poderíamos dizer que viva a expectativa de ser morto ou não, porém, não o podemos fazer, pois para ele não havia importância alguma nessa decisão. O que importa é engrandecer a Cristo. Conforme a vida dos santos todos, e o desejo que devemos fazer arder em nossos corações, São Paulo ansiava logo para estar na presença de Deus, afinal, “para mim, viver é Cristo e morrer é lucro”. Mas, na sua fé e oração, sabia que o Senhor tinha outros planos para ele, e não pensa como nós, e então aprende que deve passar mais tempo na terra, a despeito de sua vontade, para o bem de todos nós e dar testemunho do Evangelho. Não são os interesses de São Paulo que contam, mas os de Jesus Cristo.


No Evangelho de hoje (Mt 20,1–16a), vemos o fazendeiro pagando o mesmo salário para trabalhadores que se dedicaram por horas diversas ao trabalho. Esta parábola foi proposta por São Mateus à sua comunidade para iluminar a situação que a comunidade enfrentava com a conversão de inúmeros pagãos. Os cristãos de origem judaica não conseguiam conceber que os pagãos, vindos mais tarde, estivessem em pé de igualdade com aqueles que tinham acolhido a proposta do Reino desde o início. Para Deus, há homens e mulheres, todos seus filhos a quem Ele ama, quer oferecer a salvação e que convida para trabalhar em sua vinha, e se aceitaram o serviço tarde ou cedo, não interessa a comunidade julgar.


Dentro desta lógica, é de entristecer o coração ao ver os cristãos que se apropriam da paróquia e se fazem donos. Porque “fico 24 horas na igreja”, “porque estou aqui desde a tenra infância” e “contribuo muito mais que os outros”, eu tenho certeza que “mereço e tenho muito mais direitos”. Cristãos de primeira hora que não admitem serem evangelizados pelos cristãos de última hora, senhoras que não suportam o fulgor da juventude, embarreiram qualquer tentativa de participação, com base em, talvez, questionável experiência. Também jovens que fecham o coração para a experiência que só o tempo proporciona, e tentam invadir a comunidade, cheios de doutrinas estranhas e condenadas, com base em suas ‘novidades’, muitas vezes, perigosas. O Santo Padre Francisco tem alertado sobre o descarte de idosos e jovens, então, não façamos nós isso dentro da Igreja. Um combate de gerações (tanto de idade física como de fé) que só serve para triunfar o diabo (divisão).


Se vivermos no amor, aprendendo uns com os outros, descendo do salto do tempo e mergulhando na humildade da fé, uma vida inteira de Igreja aprendendo com os convertidos, os convertidos aprendendo com a vida inteira de Igreja, na unidade que deve ter uma comunidade, sendo lapidado um pelo amor dos outros, nos aperfeiçoando, fiquemos certos que no fim receberemos a mesma recompensa: a felicidade eterna, a plena comunhão com Deus.