Uma pneumatologia para a era do computador

Padre Raniero Cantalamessa, OFM Cap, Pregador da Casa Pontifícia desde 1980

A nossa civilização, dominada pela técnica, precisa de um coração com que o homem possa nela sobreviver sem se desumanizar totalmente. Não são apenas as pessoas religiosas, mas também as agnósticas e não crentes, que estão convecidas da necessidade de dar mais espaço às “razões do coração”, se queremos evitar que a humanidade volte a mergulhar numa era glacial.

Nisto, ao contrário de muitos outros campos, a técnica serve de muito pouco. Anda-se a trabalhar, há algum tempo, num tipo de computador capaz de “pensar”, e são muitos os que se convencem de que lá haveremos de chegar. Todavia (felizmente!) ainda ninguém pensou na possibilidade de um computador capaz de “amar”, de se comover, de vir em auxílio do homem no plano afetivo, facilitando-lhe o amor, do mesmo modo que lhe facilita o cálculo da distância entre as estrelas, o movimento dos átomos e a conservação de dados em memória… Na atualidade, os homens projetam relógios atômicos, cuja margem de erro seria de um segundo em cada dois milhões de anos; conhecem também com precisão quantas centenas de milhares de anos seriam necessárias para se alcançar determinado ponto do universo, viajando à velocidade da luz, e esquecem-se de que irão ser poucas as dezenas de anos que lhes serão dadas viver. Quanto excesso de técnica sobre a vida!

A potencialização da inteligência e das possibilidades do conhecimento humano não acompanha a potencialização da sua capacidade de amar. Mais: esta última parece nem contar para coisa alguma, quando, na verdade, todos sabemos muito bem que a felicidade ou a infelicidade na terra dependem não do conhecimento ou do não conhecimento, mas de amar ou não amar, de ser amado ou não ser amado. Não é difícil perceber a razão de andarmos tão atarefados a acumular conhecimentos, e tão pouco ocupados em aumentar a nossa capacidade de amar: o conhecimento traduz-se automaticamente em poder, ao passo que o amor se traduz… em serviço.

Uma das modernas idolatrias é a do “QI”, do “coeficiente de inteligência”. Determinaram-se numerosos métodos de medida, ainda que, até a data, todos se tenham revelado, felizmente, altamente não fiáveis. Na seleção dos embriões humanos, considera-se quase só este aspecto nos candidatos a doador de sêmen. Quem se preocupa com ter em conta o “quociente do coração”? Ora, continua em vigor a verdade de que falava São Paulo: “A ciência incha, mas o amor edifica” (1Cor 8,2). A cultura secular já não é capaz de ir buscar esta verdade à sua fonte religiosa, que é São Paulo; no entanto, está sempre pronta a subscrevê-la quando ela lhe é veiculada em roupagem literária. Que outra coisa significa, de resto, a tese final do Fausto de Goethe: “Só o amor redime e salva, ao passo que a ciência e a sede de conhecer, por si sós, podem deitar tudo a perder”?

Quem, pois, poderá salvar a nossa civilização deste abismo? Santo Agostinho explicou-nos, anteriormente, que não chega o livre-arbítrio, tal como também não chega o mero conhecimento do problema e do que “se deve” fazer. É necessário um socorro “de fora” — um “extraterrestre”, para usarmos linguagem moderna — , e esse socorro é o Espírito Santo, que “infunde no coração o amor”. O que nós precisamos é de uma nova abertura e de um recurso novo ao Espírito, de um reacender da saudade do Espírito Santo. Nesta época em que aprendemos a explorar em altura os espaços do cosmos e também as partículas subatômicas das profundezas da matéria, só Ele será capaz de dar à humanidade aquele suplemento de alma e de coração que permitirá que esta humanidade, longe de ficar árida em virtude daquilo mesmo que conhece, possa utilizar os seus conhecimentos para o serviço da humanização do planeta e para a melhora da vida de todos.

Foi Lutero quem, no cristianismo ocidental, fez reviver o grande tema augustiniano do Espírito Santo que leva o homem a passar do amor-próprio ao amor de Deus e ao próximo. Além de nos ter deixado, da sua autoria, uma tradução do Veni creator (que Bach iria, posteriormente, musicar), escreveu mais dois hinos ao Espírito Santo que continuam, ainda hoje, no centro do culto protestante. Em um deles (cuja versão métrica vou propor), Lutero retoma a antiga antífona de Pentecostes: “Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor”, e desenvolve-a num coral, sobre o qual um dia terá dito que “tinha sido composto, tanto a letra como a música, pelo próprio Espírito Santo”. Inspirando-se justamente na presente estrofe do Veni creator, Lutero reúne neste hino os dois temas do Espírito enquanto “luz” e “amor”. Rezemo-lo também nós, em união com todos os irmãos luteranos:

Vem, Espírito Santo, Deus e Senhor,

enche com Tua graça benigna

dos Teus fiéis a alma e a mente.

Acende neles o fogo do teu amor.

Com o esplendor da eterna luz,

Tu reuniste numa só fé

um povo de todas as nações:

Nós Te cantamos, Espírito Santo.

Tu, santa luz, porto seguro:

Ilumina aos crentes a Palavra.

Dá-nos de Deus reto saber

e vera alegria ao dizermos Pai.

Protege-nos, ó Santo, dos erros,

e por mestre tenhamos só a Cristo,

crendo Nele com ortodoxa fé

e Nele confiando de todo o coração.

Este texto faz parte do livro “Vem, Espírito Criador! Meditações sobre o Veni creator”. Escrito pelo Padre Raniero Cantalamessa e publicado pela editora Canção Nova.

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