Apocalipsismo

O fim do mundo é a finalidade do mundo: é só observar como as distopias vendem mais do que pãozinho quente e as religiões sonham com o juízo final

ilustra Mari Casalecchi

Qualquer dia o mundo acaba, eu pedi quando deitei, exausto, prevendo nova luta contra a insônia. Qualquer dia o mundo acaba, pensei, quando de manhã desisti de tentar dormir, puxei o celular do criado-mudo e soube da tragédia com o time de futebol. Qualquer dia o mundo acaba, me disse o credor que bateu na porta cobrando uma dívida pra pagar seu tratamento de saúde. Qualquer dia o mundo acaba, torço, vendo as cobranças impossíveis que um amor do passado deixou em gigabytes de mensagens que jamais ouvirei. Qualquer dia o mundo acaba, tinha me sugerido uma aluna em um conto sobre uma garota que dá dicas espertas para a melhor amiga se matar. Qualquer dia o mundo acaba, me disse o feirante, mas essa minha banana parece que não acaba nunca, riu. Qualquer dia o mundo acaba, me fala a árvore caída no meio da rua ao sucumbir à chuva que despertou minha insônia durante a madrugada. Qualquer dia o mundo acaba, cantam as geleiras eternas do Ártico, enquanto derretem e deixam de ser eternas, embora o próximo líder do mundo não acredite nisso e sequer tenha a mínima ideia do que isso represente. Qualquer dia o mundo acaba, contudo adiei o fim ao máximo e driblei todos os inimigos menos um, me fala o jovem Fidel na primeira página do jornal. Qualquer dia o mundo acaba, me diz Otto Friedrich em O Fim do Mundo, destrinchando nosso amor pelo precipício, do reveillon de 999 pro ano 1000 até a hora em que os aliados pisaram pela primeira vez em Auschwitz, passando pelo incêndio de Lisboa, a queda de Roma, a peste negra e o turismo-catástrofe: o fim do mundo é a finalidade do mundo, é só sacar como as distopias vendem mais que pãozinho quente e as religiões sonham com o juízo final. Qualquer dia o mundo acaba, professa o Apocalipsismo, filosofia que funda o conhecimento em estados de experiência pessoais em estrita observância de fatos aterradores, não estabelecendo relação direta entre esses estados e o conhecimento de algo além deles, estendendo o ceticismo aos próprios estados passados e possíveis futuros, de tal modo que só reste o presente perturbador, reduzindo toda a realidade à paixão pelo fim (como o rato no labirinto de Kafka, que se distraiu e foi comido pelo gato); para o apocalipsista, só existem o eu e o fim do mundo, então o único modo sábio de viver é passear assobiando na beira do abismo. Qualquer dia o mundo acaba, não me falou o gato, escarrapachado no sofá. Qualquer dia o mundo acaba, ouvi eu mesmo me dizer, escondido sob o sofá, contando acaba, 2012!, acaba, 2013!, acaba, 2014!, acaba, 2015!, acaba, 2016! e assim por diante até lembrar que não, o meteoro não virá sumir com a insônia, o futebol, os credores, os ex-amores, os jornais, os livros, as bananas, as árvores, as geleiras e os apocalipsistas e os sofás: o meteoro não nos salvará posto que não há nem nunca houve salvação. Qualquer dia o mundo acaba, não me disse minha filha, entanto ainda assim eu a ouvi sussurrar isso deitada de barriga no chão, as mãos segurando o queixo, enquanto me sorria balançando os pezinhos no ar, ao fim de sua primeira apresentação de balé.

[originalmente publicado na seção Doenças Crônicas da revista Pessoa]