De Hitler a Kataguiri: minha luta em defesa da livre depressão, digo, expressão

Um comentário a Mein Kampf à luz do novo colunista da Folha

Taí uma boa leitura depois que você largar os gibis da Mônica, KK(k)

Fiquei muito feliz com a notícia de que várias editoras brasileiras vão reeditar Minha Luta, do autor austríaco Adolf Hitler (1889–1945), um clássico há muito tempo ausente das livrarias. Outra notícia, no entanto, me deprimiu: a Folha de S.Paulo, jornal que leio há décadas, acaba de contratar como colunista a jovem estrela Kim Kataguiri (1996-), ativista paulista que curte posar ao lado de figuras cujo espectro ideológico se situa à direita de Hitler — Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Eduardo Cunha etc.

Não fez sentido o parágrafo acima? Explico.

Minha Luta, como qualquer droga ou o aborto, pode estar proibido de circular, mas não está indisponível. Substâncias ilegais são vendidas em qualquer esquina e o aborto é acessível a quem tenha dinheiro para pagá-lo; Minha Luta tem dúzias de cópias circulando pela internet. Não havia era uma edição física à venda em livrarias. Agora que o livro caiu em domínio público, não há como proibir sua reimpressão. E o pior que pode acontecer com ele é o que aconteceu à época de seu lançamento, 1925: ignorá-lo.

A intelligentsia dos anos 20/30 ignorou Hitler. Considerou Minha Luta um mero livro histérico de um reaça ignorante e não deu trela ao jovem comandante do Partido do Nacional-Socialismo. Deu no que deu. Não se ignora discurso de ódio, que é o lastro de Minha Luta: combate-se, ridiculariza-se, destrói-se com argumentos — sempre respeitando o adversário, na medida do possível, claro.

Muito pior do que ignorar é proibir. Achei constrangedor ler, em artigos como este, “intelectuais” defenderem publicamente que Minha Luta deveria ter sua leitura restrita ao círculo acadêmico ou a pesquisadores. Cretinice rematada, obscurantismo febril: o conhecimento — todo tipo de conhecimento — deve ter passe livre. Qualquer Kim Kataguiri, digo, qualquer iletrado sabe que quanto mais mistificado ou mitificado algum objeto, mais sedutor e fascinante ele ficará — é a lei da oferta e da procura. Em Portugal, depois que a maconha foi descriminalizada, seu consumo caiu. Perdeu a aura de proibido. Quando a inépcia de KK(k) passar a ser reconhecida por todos e, torço, ele for defenestrado do jornal, quem sabe volte a ler a Folha.

A reedição

Escrito ao longo de 1924, enquanto o líder do partido trabalhista de 34 anos cumpria prisão depois de tentar um golpe de Estado em Munique, o primeiro volume de Mein Kampf foi publicado no ano seguinte, obtendo sucesso modesto. Mas em 1929 foram vendidos 23 mil exemplares do primeiro volume e 13 mil do segundo (sim, porque lixo que é lixo vem em dois volumes). Após 1930, a tiragem aumentou: só em 1935 vendeu 1,5 milhões de exemplares. A partir de 1936 passou a ser presente de casamento para os jovens casais alemães (fica a dica de presente para aquele casal que você detesta). Estima-se que 10 milhões de exemplares circulavam na Alemanha antes de 1945. O livro foi traduzido para 16 idiomas; adaptado aos quadrinhos; ao braile; uma edição de luxo era destinada a dignatários nazis. Em 2008, as vendas de Mein Kampf estimavam-se em torno de 80 milhões de exemplares. A partir de 1945, os direitos do livro foram entregues ao estado da Baviera, que se recusava a republicar e permitir republicações do livro — até o momento, quando caiu em domínio público.

Partindo da excelente reedição da Geração Editorial, é possível fazer variadas ilações a respeito do sucesso do livro, um misto de autobiografia com libelo político. A edição, aliás, não é veículo para o texto nazista, e sim para a sua discussão. “A tradução é direta do original alemão, feita por William Lagos, e conta com todo o aparato crítico necessário”, afirma Luiz Fernando Emediato, o publisher. Há textos dos pesquisadores Eliane Hatherly Paz (PUC/RJ) e Nelson Jahar Garcia (USP) defendendo a reedição, centenas de notas e apêndices extraídos da edição norte-americana de 1939, em que especialistas contextualizaram o texto — inclusive apontando para as muitas inverdades históricas. “Deveria ter 650 páginas; com as notas, apêndices e comentários, ficou em mil”, descreve Emediato.

A ideologia

Os conceitos políticos de Adolf Hitler são confusos e quase sempre pouco elaborados. Sua linguagem é fria, simplória, carregada de substantivos abstratos, martelados de modo histérico. Há uso e abuso de generalizações. Um “outro” perigoso e temível sempre comparece nas frases, dando a tudo um clima paranoico. É um texto tão adolescente quanto uma letra de punk — só que na verdade Johnny Rotten é mais sofisticado que Adolf Hitler. Binário e primário, apela a baixos instintos e ao sentimento “nós contra eles”: existe uma difusa raiva por uma certa “burguesia”. Hitler queria identificar-se com a working class, mas também rejeitava a organização dos sindicatos, “cooptados pela burguesia e pelo Estado”. Já vimos esse filme na História muitas e muitas vezes depois, amigos.

A narrativa começa justo quando o nazistinha era jovem, se sentia excluído do grupo por se identificar com os alemães e sofrer bullying dos colegas austríacos. Essa narrativa enfatiza a visão do diferente, do vitimizado, do coitadinho, do loser. Vítima se identifica com vítima: na Alemanha detonada após a Primeira Guerra, o chororô reaça caiu bem como um chope. Logo no início Hitler mostra as garras contra seu grupo favorito: os judeus. É um ingrato. Como se lê na monumental biografia Hitler, de Ian Kershaw (Companhia das Letras), ao chegar a Viena o jovem nazista, então um pobretão inculto, sem amigos nem parentes importantes, mas que ainda sonhava em ver suas obras em museus e galerias de arte — às quais seu limitado talento jamais daria acesso —, foi muito assistido pelos seus colegas de pensão judeus, que compraram suas péssimas aquarelas e o livraram da fome. Feio, Adolfinho.

A cultura

O autor demonstra uma admiração ilimitada pelo imperador alemão e sugere que somente a imprensa antissemita lhe mostrava respeito. Aqui temos aquela velha vontade de pertencer a uma classe elevada — no caso, a corte alemã — , compreensível em um caipira tosco que teve educação sofrível como Adolfinho. Hitler conta que ao ler panfletos antissemitas e observar as diferenças dos judeus em relação aos austríacos, certifica-se de que eles não “se parecem” com os alemães.

Outro ponto interessante aponta para a rasa cultura do jovem nazi. “O judaísmo sofreu um revés pesado aos meus olhos quando soube de suas atividades na imprensa, na arte, na literatura e no drama. Olhava para seus cartazes e estudava os nomes dos criadores inspirados nessas invenções hediondas para o cinema e o teatro (…) Era uma peste espiritual pior do que a peste negra, com a qual a nação estava sendo inoculada”, descreve, baseando-se em panfletos apócrifos, como os célebres Protocolos dos Sábios de Sião, tola teoria de conspiração judaica para a dominação mundial.

À parte citações generosas a gênios como o norte-americano Henry Ford (não deixa de ser interessante descobrir que um dos inventores do capitalismo mostra-se, no texto O Judeu Internacional: o primeiro problema do mundo, de 1920, um ardoroso antissemita), o livro segue como começou: sem dados, sem contexto, sem aspas, sem remissões mínimas a qualquer tese, livro ou bibliografia. Em suma, é um livro que nega os livros, nega a ideia de cultura, sonega informações, sonega saberes. É pura ideologia. Nisso é aparentado a coisas bizarras como o livro Universo em Desencanto, de Manoel Jacintho Coelho — com a importante diferença de que os racionais não ficam por aí espalhando o ódio e seus confusos ensinamentos redundaram em três belos álbuns do Tim Maia.

A histeria

Em Minha Luta, a palavra “raça” aparece cerca de 300 vezes — é uma obsessão tão grande quanto o termo “cu” para o astrólogo e filósofo Olavo de Carvalho (não exagero: basta ver seus recentes posts no Facebook e no Twitter, em que Carvalho bate boca com seu ex-parça ideológico Rodrigo Constantino). Racista, sexista, homofóbica, militarista, irracional, mal-escrita, histérica — e, é bom lembrar, visceralmente antimarxista —, “a narrativa de Hitler é essencialmente retórica, apaixonada e beirando o delírio”, analisa a professora Eliane Hatherly Paz, na apresentação ao livro. “Hitler apela a crenças religiosas e doutrinas filosóficas, recorre a valores sociais conservadores e distorce evidências históricas. Usa de antissemitismo, anticatolicismo, racialismo, darwinismo social, antiparlamentarismo, antimarxismo, antiliberalismo, hostilidade a toda forma de organização democrática, belicismo e expansionismo para fundamentar sua visão de mundo simplista e maniqueísta”, escreve.

Claro que Minha Luta também pode ser lida como uma involuntária contribuição austríaca ao humor. “Acredito que devo agir de acordo com o Criador Todo-Poderoso. Defendendo-me contra os judeus, estou a lutar pelo trabalho do Senhor”, garatuja o nazi. Este risível período mostra um ponto escondido dos livros de História: Adolfinho conclama os cristãos a lutarem contra os judeus. Sim, quase todos aqueles genocidas burocratas que geriam os campos de concentração comungavam em Cristo. Talvez não haverá mea culpa bastante da Igreja Católica em relação à vista grossa — ou apoio velado — que o Papa Pio XII fez à ascensão do nazismo. É o tipo de informação que ainda merece ser mais discutida e aprofundada.

Bem, como você deve ter coisas mais interessantes para ler, não prosseguirei na paráfrase deste péssimo livro. O que instiga, claro, é sua capacidade em se estabelecer como o vetor da principal catástrofe do século 20. Como pessoas inteligentes puderam cair nesse conto?

Com a ignorância e a ausência do debate de ideias. Livros foram destruídos em diversos períodos da História: da biblioteca da Alexandria à Inquisição, passando pelas ditaduras latino-americanas, a perseguição aos livros demonstra o poder que têm. Ocultá-los lhes confere poder. É salutar saber que agora posso fazer um churrasco usando brasas nazistas. Do mesmo modo, também posso, agora, cancelar minha assinatura da Folha de S.Paulo, qua acaba de contratar como colunista o golpista-mirim Kim Kataguiri, líder do MBL, e comprar o jornal na banca só quando sair a coluna do Kim — para servir de amparo aos dejetos da Neve, minha gata de estimação. (Update: vi agora que o KK(k) só vai ser colunista do site. Então vou usar a coluna do Tio Rei como WC da Neve.)

Assim como me reservo o direito de cancelar a assinatura de um jornal que nos últimos anos passou a me entregar textos cuja ideologia e linguagem não me interessa, defendo ampla e totalmente o direito de qualquer um assinar a Folha de S. Paulo, deleitar-se com os problemas cognitivos de Kim Kataguiri, com a retórica reacionária de seu padrinho, Reinaldo Azevedo, com as falácias pseudofilosóficas do grosseiro Luiz Felipe Pondé, ou com a pauta claramente conservadora das reportagens políticas do jornal — assim como defendo irrestritamente o direito de qualquer um adquirir Minha Luta, de Adolf Hitler.

Senão, vejamos. Em apenas duas colunas na Folha, escritas em um registro muito parecido com o do Tio Rei (será que o líder do Movimento Brasil Livre sabe mesmo escrever? alguém já viu?), KK(k) chamou os manifestantes — qualquer manifestante, mas o alvo eram os integrantes do Movimento Passe Livre — de “terroristas”; reduziu a luta por moradia a milícia criminosa; negou a desigualdade social — em especial o fato histórico amplamente aceito de 1% da população deter o mesmo capital de 99% (certamente o MBL deve ter mais informações que Joseph Stiglitz, Nobel de economia); e assim defendeu-se de uma blague sexista cometida aos 17 anos: “piada não é ideologia”. De fato, KK(k): sua ideologia sim é uma piada. Tal como Mein Kampf, com o tempo as colunas de KK(k) cairão no domínio público do humor involuntário, assim como já caíram os textos de outro péssimo ex-colunista da Folha, o José Sarney.

Esconder nazistas, ocultar indivíduos que comungam com ideias racistas, sexistas e preconceituosas é torná-los mais fortes: faz-se necessário tirá-los do armário, dar livre expressão a suas deprimentes ideias, fornecer corda para que se enforquem sozinhos — e, se nem isso conseguirem, combatê-los à luz da inteligência. O que não quer dizer que eu tenha de ajudar a pagar seus cachês e convidá-los a sujar a mesa do meu café da manhã.

Faz sentido?