
O Abutre: O Retrato de uma Sociedade Corrompida
Alguns filmes funcionam muito mais como uma fotografia da sociedade ou do ser humano do que uma película em si. Esses filmes escolhem conversar sobre um aspecto específico, eles deixam outras variáveis de lado para falar sobre um tema só.
E essa é justamente a função da fotografia, um frame, um segundo, um enquadramento, escolher um momento específico para falar de algo. Tão importante quanto o que vemos na foto é o que não vemos. O que ele escolheu excluir? Por que ele prefere colocar esse assunto sobre os holofotes? Por que esse momento e não o momento que vem exatamente em seguida? Por que aqui? Por que agora?
Por que somente aqui, nesse momento, nessa luz, mostrando dessa forma é que vamos poder ver claramente. E se vemos claramente, podemos conversar melhor.
E é exatamente essa sensação que muitos filmes tentam passar. Mostrar um momento, um lado da história, tirar uma fotografia da sociedade na luz certa, no enquadramento certo no momento certo, para que assim possamos ver melhor.
Wall Street, filme do Oliver Stone, fez isso muito bem para falar sobre Ganância. Mostrando como ela era o motor de uma economia multibilionária que transformava homens odiosos em ricos e poderosos.
A Qualquer Custo, usa de uma história muito simples e direta para falar sobre a decadência do interior dos Estados Unidos. E como o desespero de uma recessão econômica pode levar pessoas ao extremo.
Taxi Driver, usa da Nova York suja e podre para conversar sobre paranoia pós guerra e inversão de valores de uma sociedade em decadência.
E um dos meus filmes favoritos nos últimos anos carrega todos esses valores dentro de si funcionando como uma fotografia da nossa sociedade. Sem vergonha de falar, ele mostra como essa sociedade é feia, corrompida, suja.
É sobre esse filme que eu quero conversar hoje: O Abutre.
A partir de agora, spoilers.
- Sangrento?
- Bem, gráfico. A melhor e mais clara forma que eu posso lhe explicar sobre o espírito das coisas que nós colocamos no ar é imaginar uma mulher branca gritando no meio da rua, correndo com a sua garganta cortada.
- Entendi
O Abutre conta a história de Louis Boom, um cara que nós vemos desde o começo não ser muito honesto. A primeira cena já mostra ele roubando fios de cobre e nocauteando um segurança que o pegou roubando.
Um dia, voltando para casa, Lou vê um acidente na estrada, algumas pessoas feridas, outras mortas. Mas o que realmente chamou sua atenção foi como uma equipe de filmagem chegou rápido ao local para gravar as imagens. Conversando com um dos membros da equipe ele percebe uma oportunidade muito boa de ganhar dinheiro ali, vendendo imagens mórbidas para jornais que se interessassem.
O filme então acompanha a ascensão meteórica de Lou no mundo do telejornalismo sensacionalista. Onde nesse caminho ele ganha muito dinheiro e respeito, porém, faz muitas escolhas moralmente questionáveis e algumas vezes até criminosas.
A profissão é perfeita para Lou, ela exige um certo grau de desprezo pela vida humana, algo que ele tem de sobra. Podemos ver a sociopatia de Lou em várias cenas ao longo do filme.
Para falar a verdade Lou nem se quer parece humano, parece muito mais um monstro, um animal que tem um conhecimento superficial sobre emoções humanas e tenta da maneira que seu conhecimento permite passar uma imagem de pessoa normal. Ele nunca nos parece real, parece alguém interpretando um ser humano, quase como um bicho vestindo uma roupa de homem, quase como um abutre literalmente.

E essa sensação só é possível por conta da atuação primorosa de Jake Gyllenhaal, um dos melhores atores dessa geração. Ele é capaz de transmitir todo o asco que o personagem exige, a sociopatia fica evidente na forma que ele olha e isso só é possível de se ver por conta da atuação de Jake.
Além de desprezo pela vida humana outra característica para o sucesso nessa carreira é determinação, e isso Lou também tem de sobra. Ele é movido por uma ambição pelo sucesso, o que ele mais almeja na vida é alcançar a glória. E isso fica evidente na forma que ele fala. Parece que tudo que sai da boca de Lou é roteirizado, tudo é cuidadosamente planejado para que ele consiga o que quer. Lou é extremamente educado, calmo e fala com uma lucidez absurda, o que faz com que seja quase impossível para os outros personagens não concordarem com ele, Lou consegue dobrar a todos.
Porém, ao mesmo tempo que o seu discurso é perfeito ele nos soa antinatural, ensaiado, perfeito demais. Conseguimos sentir a manipulação nas suas palavras, mas não podemos fazer nada contra porque tudo que ele fala é educadamente, pausadamente, tranquilamente comunicado. E isso dá muito mais frio na espinha do que um maluco gritando a plenos pulmões que vai te matar.
- E se o meu problema não fosse que eu não entendo as pessoas, mas que eu não gosto delas? E se eu fosse o tipo de pessoa que estava obrigada a machucá-lo por isso? Quero dizer, fisicamente. Acho que você teria que acreditar depois, se pudesse, que concordar em participar e, em seguida, dar para trás em um momento crítico foi um erro. Porque é o que eu estou lhe dizendo, tão claramente quanto eu posso.
Apesar do título em português ser muito bom, o título original é mais preciso em descrever Lou Bloom, Nightcrawler, que traduzindo seria um verme que sai da terra a noite para se alimentar. Um bicho podre, nojento, rastejante, desprezível e que se alimenta dos mortos, ótima definição para Lou.
Durante o filme nós o vemos filmar pessoas mortas sem o consentimento dos seus familiares, vemos ele invadir a privacidade alheia, manipular cenas de crime para conseguir o melhor ângulo, invadir uma cena de crime para conseguir imagens antes da polícia, colocar a vida de pessoas em risco para conseguir uma boa reportagem e matar o seu colega porque ele estava atrapalhando a sua ascensão no trabalho. Atitudes desprezivas de uma pessoa sem consideração por ninguém além dele mesmo.

Ainda assim, nós vemos ele vencer e sair impune depois de tudo isso.
Não é a toa que o filme foi criticado por muitos por, em tese, glorificar e recompensar os atos de um sociopata. O diretor do filme, Dan Gilroy, dá a melhor resposta possível.
- O Abutre não tem a intenção de glorificar os atos de um sociopata. O Abutre simplesmente conta a história de um empreendedor de sucesso que vive em uma sociedade que tem sede pelos seus serviços.
Parece que o jogo virou.
De quem é a culpa? Lou por fornecer as imagens, a emissora por querer comprá-las ou a sociedade por constantemente demandar notícias sangrentas?
Lou nos parece agora muito mais como uma engrenagem de um enorme sistema de produção. Demanda de um lado, oferta do outro. Ali, ele só se aproveita de uma oportunidade de negócios.
Apesar de toda a nossa revolta frente aos atos de Lou durante o filme é difícil não nos questionarmos sobre a nossa parcela de responsabilidade diante daquilo.
Toda vez que eu paro para ver a notícia de um assalto, um filmagem de um acidente de trânsito, uma foto de um assassinato eu estou alimentando uma indústria que se alimenta do medo. Eu estou reforçando a ideia de que a morte e a violência são interessantes. E o subproduto dessa minha demanda são vários Louis Bloom.
O verdadeiro vilão da história não é o nosso protagonista, mas nós mesmos. Nossa demanda pelo sangrento, pelo violento tem que ser saciada por alguém, emissoras de TV sabem muito bem disso, Lou sabe muito bem disso.

Porém, um outro ponto também deve ser colocado, comida, sexo e, claro, morte, sempre atraíram e sempre vão atrair a nossa atenção. É primitivo, está no nosso instinto de sobrevivência. Durante 200 mil anos isso era tudo que interessava ao nosso cérebro, sexo para reprodução, comida para a manutenção da vida e morte para sobrevivência.
Aquele nosso ancestral que não tava nem aí pra morte acabou comido pela onça, os medrosos que enxergavam em tudo uma ameaça a vida acabaram sobrevivendo e procriando.
Preocupações com amor, estabilidade financeira, carreira com propósito, felicidade são extremamente recentes, nosso mindset instintivo não está treinado para elas.
E é justamente essa dissonância entre valores atuais e características biológicas que cria as nossas sociedades corrompidas. O mindset de sobrevivência é que dá o aporte ao egoísmo, a ideia de ploriferação da espécie se torna justificativa para a objetificação da mulher e o nosso medo da morte cria personagens como Lou Bloom.
É por essas razões, por essas reflexões que eu considero O Abutre um filme indispensável. Porque ele se atreve a pôr o dedo na ferida. É quase como se ele falasse:
- Isso aqui é culpa tua. E é tua responsabilidade consertar.
Nós não podemos nos ausentar da responsabilidade sobre a sociedade que estamos criando. É papel coletivo e individual lutar por uma sociedade com valores mais humanos, que valorize a vida em detrimento de uma cultura de medo. Coletivamente nós podemos atingir uma sociedade melhor, mas para isso nós precisamos abandonar o nosso mindset primitivo.
Ao invés de morte, sexo e comida, está na hora de valorizarmos o amor, a compaixão, a educação, o companheirismo, nossos relacionamentos e uma sociedade mais igualitária. Chegou a hora de nós abandonarmos os paradigmas do passado e encontrarmos um novo caminho, novas formas de pensar.
Nossos desafios agora não são garantir a sobrevivência mas sim garantir sociedades melhores, que carreguem em si valores melhores.
A preocupação principal agora não é garantir a sobrevivência do indivíduo mas sim do coletivo.
Está na hora de juntos evoluirmos como sociedade para chegarmos no dia em que não precisemos mais de pessoas como Louis Bloom.