Casa Grande e Senzala ou A auto mutilação do pensamento

Toda a vez que eu vejo alguém analisando as relações econômicas atuais e tentando encaixar no modelo “casa grande e senzala” eu sei que a pessoa não tem a mínima ideia do que está falando.
A tal da “escravidão moderna” é um padrão de vida melhor que reis de 200 anos atrás.
Só para comparar.
Em 1817 o Brasil ainda era colônia, havia 10 anos que Dom Pedro I estava no Brasil e em 5 anos viraria regente.
A expectativa de vida rondava 33 anos na Europa Ocidental. No Brasil de 1960 era 54 e agora estamos perto de 74 anos.
Não precisamos nem citar que os escravos eram propriedade e serviam seus donos. Os donos estupravam as meninas na naturalidade, puniam quem desobedecia e caçava os fugitivos. Os negros não tinham direitos, o dono podia fazer o que quisesse com eles. Além disso, seus donos eram os donos dos latifúndios. Os brancos sem terras não tinham escravos. Estamos falando da mais alta aristocracia na época.
E de repente eu começo a ler um livro sobre a favela e o título que inicia a obra é “casa grande e a senzala tem novos protagonistas”.
Conseguir enxergar relações econômicas parecidas com as condições de escravidão, que acabou em 1888, não é mau-caratismo.
É subjugar suas próprias reflexões a ideologia.
É restringir o próprio pensamento para que não veja as coisas por outros prismas. É propositalmente ser enviesado.
Engraçado como esta maneira de ver o mundo também define outras escolhas, como as preferências políticas.
Quantos poderiam mudar seus posicionamentos se soubesse que não existe mais casa grande e senzala no Brasil há mais de 120 anos. 4 gerações já passaram.