Para este dia não passar em branco (o título contém ironia)

Nunca fui tão consciente sobre a minha cor e tudo o que isso implica, como sou hoje. Minha mãe é mais clara do que eu, meu pai mais escuro.

Questões raciais nunca foram tema de conversas em família, não que eu lembre.

Desde criança, por não ser tão negro e também não ser branco, eu sempre me considerei pardo e nunca questionei isso. De fato, há uma padronização do que é ser negro no nosso país. Se você é negro, mas tem pele clara e “traços finos” (europeus, né): “ah mas você é tão bonito pra ser negro”, “Você é uma negra tão linda”, “ah, mas tu és pardo”.

Como vivemos em uma sociedade racista, posso afirmar que, de alguma maneira, eu também reproduzi, na minha infância e adolescência, discursos racistas, mesmo que de maneira velada. Eu sempre achava que por ser “pardo”, preto era o outro. Nunca me reconheci como negro, mesmo meu pai, minha avó e minha bisavó sendo negros.

Em 2007, na quinta série, fui estudar em um colégio católico. Lá, tive uma professora de Ensino Religioso chamada Clemilda. Foi uma experiência diferente que eu tive com essa disciplina. Na minha primeira escola, que também era católica, tudo era voltado para o lado cristão das coisas. Enquanto com a professora Clemilda era diferente. Ela foi uma das poucas professoras negras que tive, dava pra contar nos dedos de uma mão.

Com ela, aprendemos sobre os mitos africanos da criação, sobre o respeito a todas as religiões. Em épocas como essa, por exemplo, ela organizava programações com músicas, danças e concurso de bonecos negros. Lembro que uma vez eu fiz o boneco Kiriku para o concurso, depois que ela passou o filme/desenho Kiriku e a Feiticeira que conta a história da lenda africana de um bebê guerreiro que livra sua aldeia de uma feiticeira.

Olhando para trás, eu vejo o quanto aquilo foi importante pra mim.

Apesar de tudo isso, só vim me reconhecer como negro dentro da universidade, porque foi lá que eu pude ter uma visão macro do quanto a população negra sofre todos os dias com o racismo enraizado e institucionalizado em nossa sociedade. Foi lá que eu percebi que “ser pardo” é apenas uma forma de, muitas vezes, inconscientemente, você negar suas origens só para tentar não ser tratado com um negro é.

Além disso, como estudante de Comunicação, eu pude perceber como a mídia retrata a população negra nos jornais e noticiários e qual a nossa representatividade à frente das câmeras. Representatividade bem pequena, aliás.

Dizer que precisamos ter um dia da “Consciência Branca” ou “Humana” e que os negros não precisam de cotas porque a escravidão acabou há muito tempo é muita hipocrisia de uma pessoa que provavelmente acredita em meritocracia e que não sabe o que é sofrer todos os dias por causa da cor de sua pele.

Há um projeto de poder em curso no nosso país que vai atacar principalmente a população negra que é a que precisa mais dos serviços públicos. Sabe por quê? Porque a periferia é negra; porque os mais pobres são negros. “Ah, mas tem moradores da periferia e pobres que são brancos”, sim, é verdade, mas você sabe quem tem mais oportunidades, né? Porque quando a escravidão acabou, os problemas ficaram, os ex-escravos, em sua maioria analfabetos, foram jogados ao léu. Então, é nossa missão lutar por um país mais justo, lutar contra o racismo que mata e aflige a população negra todos os dias.

Sou negro, sim. E com muito orgulho!

Pra finalizar, uma música que aprendi com a professora Clemilda. Uma música que fala de nossos antepassados e nos dá força para lutar hoje.

“Sinto-me orgulhosa de ser africana

Meus antepassados, todos nasceram aqui

Filha legítimo, do mundo Rainha

Minha África, oie, oie”

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