Em queda livre e sem uma tia.

Ronald Porto
Dec 18, 2018 · 3 min read

Doutor, às vezes eu tenho a impressão de que estão me emburrecendo. Pior! Que estão me roubando algo, sabe? Parece que existe uma força opressiva e constante, presente em cada parte da minha vida, que me motiva a ficar alheio. Alheio, aéreo, nas nuvens. Mas não no sentido de prazer, de êxtase. É nas nuvens como se eu tivesse pra sempre caindo de um avião, sentindo meu corpo girar, vendo uma hora o céu, outra hora a terra, uma hora o céu, outra hora a terra, e tendo a certeza de que nunca vou chegar ao chão. Tendo a certeza de que vou ficar pra sempre ali, caindo. E eu sei que, se eu caísse, eu morreria. Mas… Preciso dizer… Se pelo menos isso acontecesse, já seria algo. É, já seria algo.

Um dia, na minha infância, eu estava na escolinha. Minha mãe tinha que me deixar lá porque trabalhava, e tal. E, enfim, indo direto ao ponto: eu não me dava muito bem com as outras crianças. Por nenhum motivo em especial. Elas apenas me escolheram, e por isso eu nem levava pro lado pessoal. Então, nesse dia, elas fizeram uma roda, comigo no meio. E, entre empurrões, eu ia de um extremo pro outro. Não chorava, não gritava, não berrava. Estava sério, com os braços colados ao corpo. Alguém de fora podia ver e até pensar que eu estava brincando, e eu achava ideal que pensassem assim. E eles riam, riam muito, xingavam também. Eu não ouvia, era como um filme, naquelas cenas onde tudo fica mudo.

É mais ou menos disso que eu estou falando agora pra você. Dessa sensação.

Não. É mais do que a humilhação. É a inércia diante da humilhação. Me jogam de um lado pro outro e eu não faço nada, não digo nada, não grito. Ainda que, talvez naquela época, havia uma tia pra chamar e ser socorrido. Hoje não tem nenhuma tia. Eu sei que não tem.

Exemplos práticos… Deixa eu ver… Tudo. Está em tudo e em todo o tempo. É acordar, olhar pro celular e ver pequenos pedaços da vida de muitos, ir ao banheiro e tomar banho ouvindo música, tomar café ouvindo um podcast até sair de casa e pegar o ônibus, tentar ler um livro sobre algo grandioso como A História da Humanidade Em 90 Páginas, chegar no trabalho e passar as próximas oito horas ouvindo som de folhas e chuva no fone de ouvido mais isolador de todos, ir pra casa cansado ouvindo outro podcast, chegar em casa e passar duas horas deitado na cama, suado, vendo pedaços da vida de muitos pelo celular, tomar banho ouvindo música, comer alguma coisa ouvindo o mesmo podcast pra tentar memorizar, depois deitar e, antes de dormir, mostrar algum pedaço da própria vida e esperar que outros a vejam e comentem. Pra quando os olhos arderem, desligar as luzes e tomar um remédio pra calar as vozes que, se você deixar, começam a surgir no escuro do quarto. E dormir.

Nunca um único momento pra mim. Nunca um único momento pra parar, observar, sentir. Apenas uma queda livre, vendo o céu, vendo a terra, vendo o céu, vendo a terra. Sem uma tia pra me socorrer, vendo as pessoas ao redor pensando que eu estou me divertindo — pior: eu tentando convencê-las de que estou me divertindo.

Ai ai, essas coisas… É isso, então.

Pois é, semana que vem não vou vir. Mas na outra, sim. É, viagem.

Obrigado, Doutor. Até.

    Ronald Porto

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    21 anos. Porto Alegre. | Aqui, só o inevitável.

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