Abrindo feridas feias para limpar e cicatrizar

ou

Alive and kicking

Esse ano foi uma viagem. Tudo começou maravilhoso. Conheci minha última namorada. Essa é para sempre. Eu já quis namorar desde o primeiro dia que a gente se beijou. Se ela for embora, eu corto meu pau, empano e frito. Como de entrada no almoço, antes de devorar uma macarronada com almôndegas feitas das minhas bolas. Depois dela, eu viro assexuado com orgulho.

Eu tenho um jeito meio bizarro de expressar meu amor.

Bom, pelo menos não são os anos 30 e meu jeito estranho de expressar amor não envolve alcoolismo, hematomas e gritos de “viu o que você me fez fazer? Eu faço isso porque TE AMO!”

Não. Eu sou mais o tipo de cara que demonstra amor fazendo danças com o piru balançando para fazer minha namorada rir. Meu piru dançando dá de 10 a 0 no moonwalker.

De novo. Eu acho que o bagulho de “rosas são vermelhas” não é pra mim.

Voltando: 2016 começou com o doc de rap na Gazeta, “Histórias do Rap Nacional”. Foi foda. Fez tanta gente feliz. Me fez feliz. Eu estava rodeado de uma equipe foda. Não vou marcar ninguém. Quem estava lá e fez parte, sabe disso. A maior parte se amarrava num rap então a equipe era feliz para caralho. Ao contrário da maior parte dos apresentadores de tv, eu acompanhava todo o processo, especialmente no jeito de contar as histórias. Com a ajuda dos editores, eu escolhia tudo do jeito que eu podia para preencher 28 minutos de tv. Em 6 episódios.

Gente pra caralho ficou muito feliz em ver esses episódios, ver o rap sendo protagonista. Eu sou tímido, não gosto de sair, mas quando alguém me para para falar do documentário de rap, vale 10 vezes mais do que a matéria de Gaza. A matéria de Gaza foi uma satisfação jornalística e pessoal. Uma obsessão que eu tinha. E assim: ela não seria vista por palestinos ou israelenses. Era sobre eles mas era uma informação pro Brasil apenas. Então era muito mais sobre mim, sobre fazer um bom trabalho.

Com o rap, era sobre fazer o trabalho e dar minha colaboração pro rap. Fazer as pessoas se sentirem importantes. Artistas que normalmente não estão na tv aberta. Conteúdo pros moleques e minas que amam rap mas nunca vêem essa cultura na tv aberta apresentada daquela forma. Acho foda quando rappers vão tocar na TV. Mas normalmente é isso. É tocar aqui e ali. Entrevista curtinha. E solta a matéria com YouTuber. Chama o noticiário. Vem agora a atriz da nova novela das 7.

Então quando alguém vem falar comigo do doc de rap, eu sinto que fiz algo de bom nessa vida.

Erros foram cometidos.

Eu consegui trazer várias minas do rap. Especialmente no começo da série. Depois não consegui mais. Eram poucos episódios e a proporção de homens é maior. Mas ainda assim eu sinto que faltou ter mais minas e eu podia ter ido além da conta, me planejado melhor. Não querendo dar desculpas, mas algumas mulheres que estavam programas para entrevistas pros últimos episódios cancelaram entrevistas em cima da hora também — por motivos profissionais, totalmente compreensíveis.

As vezes a gente precisava cancelar por não ter equipe no dia. A gente tinha de duas a 3 saídas por semana para fazer o programa. Por mais bem intencionada que a Gazeta tenha sido com o programa, a emissora não tinha os recursos para me mandar as ruas 5 vezes por semana fazendo entrevistas.

Então eu aceito uma parte da culpa mas também levo em consideração a aleatoriedade da vida. Você não pode controlar tudo. Então para que ficar pagando de católico e querer carregar a culpa de tudo. Eu já lido com isso num nível médico — minha terapeuta diz que meu complexo de culpo é acima de qualquer coisa que já viu. Ela fica perplexa com minhas histórias. Desde criança, eu não me considero um merecedor. Então hoje, trabalhando isso aos trancos e barrancos na terapia, quando eu tô alerta que posso cobrar demais de mim, eu SIM tiro o cu da reta.

Aliás, um salve para a indústria farmacêutica também, né? Zoloft, Valium e Clonazepam são os meus 3 Reis Magos, porque sempre que eu engulo um punhado desses, a vida fica tão sustentável que é como se eu fosse o menino Jesus nascendo.

— — PAUSA — —

Eu não sou um modelo de comportamento para ninguém. Eu já fiz matérias extensas pra TV sobre dependência de remédios Tarja Preta. Eu já li tudo sobre o assunto. Sei dos riscos. Tomo dum jeito controlado. O MEU jeito controlado. Sei que um pouco além da conta, mas é o que eu preciso para ser feliz hoje e dentro do meu controle. Eu sou viciado? Sim. Igual o Zico era viciado em morfina durante uma época depois que fez aquela cirurgia foda e precisou tomar o remédio. Faz parte. A gente não escolhe algumas, a gente é escolhido. Eu não acho que você deve seguir meu estilo de vida. Quando eu faço uma música ou piada e falo sobre isso, eu não quero glorificar. Sou eu apenas expressando quem sou eu. Eu não sou responsável pelo que você (ou seu filho) vê na Internet. Eu sou responsável por me expressar.

Quando eu faço alguma piada sobre depressão ou outras condições da cabeça, tem gente que se identifica e ri. Tem gente que não entende bem mais ri — as vezes pelos motivos errados. Tem gente que fica puta. Novamente: eu não sou responsável pelo seu triggers. Eu tenho os meus e nem por isso eu culpo, sei lá, digamos a Maria Bamford, umas das minhas comediantes favoritas, por fazer piadas sobre a depressão clínica dela. Pelo contrário, faz eu me sentir confiante e compreendido. TUDO é assunto para piada. Depende do ângulo.

Teve esse vacilo que eu cometi no doc de rap: eu falei pro SPVIC do Haikass que ele iria entrar em 2 episódios. Um falando como MC e outro mais sobre produção. Passou o dele como MC logo no primeiro episódio. As semanas foram passando, mais convidados iam aparecer nos episódios, e com limitado tempo — eu havia pedido 9 episódios para a emissora, mas acabamos ganhando só 6 — precisei tirar a parte do SPVIC no episódio de produção. Me doeu o coração ter que fazer isso porque além de talentoso, ele é um puta cara coração aberto, inteligente. Ele me deu tanta atenção, eu aprendi várias fitas. E eu esqueci de avisar — ou pelo menos mandar alguém da produção avisar — o SPVIC. A decisão tinha sido tomada na quinta. O programa passava na sexta. Eu estava muito desgastado e não pensei direito nas coisas.

Resultado: O SPVIC ficou (justamente) bolado e veio me cobrar. Eu podia ter dado a famosa desculpa do “foi a edição”. Isso sempre salva o apresentador. Ele põe culpa nessa pessoa que ele nem dá um nome e fica tudo bem. Mas se eu for mentir dentro do rap, eu não aprendi nada com o rap. Expliquei que eu decidi isso, que não era o melhor para mim e que eu me sentia mal por ele e entendia qualquer raiva que ele tivesse. Ele entendeu meu lado. Ficou tudo bem. A gente nunca mais trocou ideia mas acompanho o trampo dele e torço. Se um dia ele quiser me dar uma entrevista de novo, eu tô aberto.

Isso tem muito a ver com o Ulisses Mattos. Eu não tive pai presente — o meu me abandonou eu devia ter… 9? O Ulisses é mais velho que eu. E alguém que eu sou fã desde 2003, por considerá-lo exímio criador de piadas, análises e histórias. Ele é um cara com valores muito preciosos. Valem bem mais do que uma cobertura no Morumbi com 2 Ferraris na garagem. E pelo que vi até hoje, não estão a venda. O código de honra do Ulisses me fez um homem melhor. Não fosse por ele, eu não seria uma parte de quem eu sou.

Mas no doc de rap eu fiz uma coisa propositalmente que era trazer a discussão sobre raça a partir do ponto de vista dos rapper — especialmente os mais engajados e estudiosos do assunto. Por isso, sinto uma alegria dos momentos em que o DMN esteve lá. Que o Gog esteve lá. Que o Emicida esteve lá. KL Jay, meu Deus, Kleber, obrigado!

Eu usei, subliminarmente, um programa sobre um assunto que a normalmente na tv aberta, usa-se apenas quando é conveniente (RAP), para falar dum assunto que a TV só lembra que existe quando acontece com jogador de futebol (racismo).

Tudo que eu puder fazer pelo rap eu faço. Eu sou um soldado. Seja escrevendo um artigo, seja fazendo um som, seja fazendo um VT, seja dando um pouco do meu spotlight pros guerreiros do movimento, eu sou um soldado do rap. Não é a toa. Foi a primeira coisa que ouvi, ainda com 10 anos, lá na minha casinha pequenina no Complexo do Alemão, que FEZ SENTIDO. Minha vida se resumia a Racionais, Gabriel o Pensador e MV Bill.

Então veio o programa humorístico sobre noticiário. Foram as 16 semanas mais insanas da minha vida. Eu amei cada segundo. Cada disputa com o diretor Rafael Machado, quem eu fui de “detesto” para “ponho a mão no fogo” em algumas semanas. Eu trabalhei pra caralho nesse projeto. Meu sono não fazia sentido, eu escrevia para caralho. Mas o programa ia sempre melhorando. Até que veio o incidente da Igreja Universal que eu nem comento mais. Doeu muito. Por dois motivos: 1) fazer um programa satirizando notícias é meu sonho há mais de 10 anos, eu estudei tudo nesse sentido e eu estava agora aprendendo a pôr em prática as coisas dentro da nossa realidade. 2) Meu chefe de núcleo na Gazeta tinha me prometido a segunda temporada do programa de rap. Foram 2 tiros. Um no coração e um no buraco no coração que ficou aberto.

Então aí foi uma época que ficou foda. Eu vivi sob a filosofia “pílulas, tv e maconha” por semanas. Me levantei. Fui atrás dos canais. Entendi como tava podre o esquema de tv a cabo. Como as restrições aqui são bizarras e era mais difícil ainda fazer o que eu queria no cabo. Discuti com um canal e a quantidade de coisas que pediram para mudar no projeto simplesmente fez ele não existir mais. Tirei meu nome da roda. Outro canal não fez exigências nenhuma, mas demorou tanto para decidir que eu precisei tirar minha oferta da mesa. Fui pesquisando e pesquisando e vi que TV a cabo no Brasil: só Globosat (não me vejo como material do interesse deles) ou com uma produtora grande apoiando. Eu tenho minha produtora. Eu não conheço a galera das produtoras. Elas tem pessoas famosas para pôr na tv. Eu não sou prioridade. Elas são grandes, elas não precisam dum apoio. As produtoras pequenas sim precisam. As pequenas mesmo. O investimento é pouco, vai para as grandes produtoras, o jurídico dos canais a cabo aceita ordens de Miami extremamente conservadoras. Aprovar uma ideia é um parto. Que eu taria disposto a cair dentro mas uma hora você cansa. Foi quando, conversando com o Mauricio Stycer do UOL, dei uma entrevista sobre outro assunto, mas aproveitei para avisar que tinha me aposentado desse negócio de tv. Eu tô cansado de tudo. Eu fiz várias fitas foda e se não me querem, não me querem. Não quero ficar batalhando espaço, provando o que eu posso fazer. Eu fiz paradas iradas e eu não tenho mais vontade de bater em canal e produtora para mostrar outras coisas. E depois viver com medo de censura, puto com as restrições.

Nesse meio tempo, minha depressão voltou forte. Antes do programa terminar, eu já tava me sentindo bem mal. Conversei com a terapeuta. Todo o amargor no peito da depressão tinha voltado. Semanas antes do programa acabar. Quando acabou, vixi, fui parar no chão. Me levantei. Andei torto, vi que tava sem chances de fazer um trabalho num lugar que me desse a liberdade criativa e técnica que eu precisava. Eu vinha ainda fazendo conteúdo pro canal de humor TBS, mas era um frila pequeno. Divertido mas que deu muito dor de cabeça por conta da produtora que eles contrataram, Contente, que saiu nos jornais pela segunda vez esse ano, em notícias relacionadas a atrasos de pagamento — o que eu sofri quando tava frilando lá. Acho essa situação toda uma merda. Porque queima o nome da TBS de graça — porque eles fizeram a parte deles. Mas fizeram com produtora grande — que tinha problemas. Se fizessem numa produtora pequena, independente MESMO, talvez tivessem mais sorte. Mas tenho grande valor por tudo que a Lilian Amarante e Cris Lobo fizeram para eu ficar no projeto, valorizando e acreditando no meu trampo, para que tudo rolasse direito no fim do dia.

Nisso teve o lance minha mãe parar no hospital. Aí fodeu com tudo na minha cabeça. A Rachel sempre acha engraçado que eu não choro nunca. Bom, chorei. A última vez que tinha chorado foi em… sei lá. Talvez não tenha sido nesse século — sério. Eu tava fodido bem bem bem forte. Voltei pra cama.

E fiquei por muito tempo deitado quando percebi que o ano que começou maravilhoso… tinha virado uma tempestade de diarréia.

Mas das coisas com que comecei o ano, uma não me desapontou: a Rachel. Essa aí é uma grande mulher. Do meu lado. Nunca atrás.

Eu aos poucos tô fazendo minhas coisas. Tem o livro de rap que vai rolar — hopefully. Precisa acertar umas fitas. E tem a chance de outro livro, um romance, rolar também. Livros livros, de verdade. Sem ghostwriters. Sem biografia. Eu não entendo o que houve com a literatura brasileira virou autobiografia de adolescentes do YouTube. Normalmente escrita por outra pessoa, que consiga juntar palavras e fazer algum sentido.

Tem os projetos jornalísticos do Rap Cru. Que eu tava empurrando com a barriga até o Rodrigo Ogi me ajudar forte para voltar. E novamente eu tava fazendo o que gosto de novo: falar de rap. Não sou pago — como fui no doc — mas tô aí.

Tem minhas músicas, que eu faço a miliano, mas só ano passado graças ao Wzy e o Anderson Akan eu botei na rua. Eu nem penso nelas como uma parada comercial. Eu só quero fazer sempre uns rap foda para eu poder ouvir quando for velho e ter esses momentos registrados, ter meu estado mental e emotivo em cada linha.

Sim, eu tô deprimido, tenho dias bons e ruins. Ainda tenho MUITOS dias reclusos e isso é nocivo. Mas eu acho que eu já tô de pé. Por hoje. E isso é mais do que eu posso pedir.