De: Ronald Rios / Para: Jair Bolsonaro

Salve, Mito, tudo bem?

Você não me conhece. Acho que estivemos juntos uma vez só, durante meu teste pro CQC, uns 6 anos atrás. Lembro de ter entrevistado o senhor lá — eu uso “senhor” ou “você”? Veja bem, eu tô tentando ser o mais respeitoso o possível, pois escrevo isso do fundo do meu coração com vontade de ser pacífico e respeitoso. A gente é exatamente o contrário em praticamente tudo, mas eu quero que um cara como eu e um cara como você tenhamos cortesia um com o outro no diálogo. Eu decidi que eu respeito o senhor. Eu costumo levar a sério as pessoas que dizem que me respeitam, egocêntrico que sou, então acho que vale a pena tentar apelar para isso. Não sei se você tem o ego tão sensível como o meu. Ai, ai, como é fácil comprar a minha vaidade, Jair! Ela é uma puta bem barata. Daquelas que aquele velhinho broxa dum viral de 2003 descreve como “5 reais pra fazer caridade.”

Olha só, eu já abrindo segredos do meu âmago psicológico… como se nós dois fôssemos amigos íntimos. Não é o caso, não somos mesmo amigos, mas somos brasileiros e eu quero poder conversar com você sempre numa mão dupla de sinceridade. Eu acho que me abri assim só porque eu quero que você saiba que eu estou disposto a dialogar com você. Então eu me permiti falar de forma séria que sou sim um bicho por vezes alimentado pelo ego. Isso é coisa de quem está de peito aberto, concorda? Mas se você se unir a mim, vira coisa de quem tá de peito, abdômen, e intestino abertos!

Um pouco cedo para essa piada? Se você se ofendeu, eu peço desculpas — sem sarcasmo. Eu arrisquei essa porque não acho que você tem problema com um pouco de humor negro, né? Até onde eu lembro, quem é sensível a piadas é a esquerda — e eu vou concordar que eu acho que sim, às vezes perdemos um pouco a linha na problematização, e vacilamos na hora de agir de verdade em pontos que passam desapercebidos no nosso nariz porque a gente (eu incluso) reclamou de uma piada, em vez de ignorar e focar nossa energia em situações e problemas tangíveis, reais.

Eu tenho uma parte de culpa nisso mas isso é assunto para outra carta. Mas veja só cara, eu falando com você numa carta aberta — e aberta apenas pois não tenho uma conexão direta com você, senão juro que optaria por ela* — para trocar essa ideia, porque ao fazer disso uma carta aberta, eu acho que tem algumas piadas que vão me prejudicar até com a minha galera da lacração. Aquela piada ali da puta barata pode me custar uma perseguição das feministas. Mas isso é a minha vontade de chegar até você.

Então eu estou tentando ser uma parte da esquerda que não está pirando por suas “mitadas” e piadas, nem mordendo meu próprio cu ao ouvir frases de efeito que você manda defendendo ideias tão descaralhadamente retrógradas que eu só consigo pensar: “esse cara vai precisar duma máquina do tempo para realizar tudo que planeja”.

Estou tentando ficar mais de olho na sua (falta de) habilidade como presidente. Tem algo aí. Tem muita coisa que eu preciso falar para você, Bolsonaro.

(Ah, eu optei pelo “você” pois sinto que você nesse sentido prefere ser informal — eu sou igualzinho! — Olha como é bacana quando a gente concorda com algo! Faz pensar no que mais a gente iria concordar, não? Imagina a gente passando um fim de semana em Búzios concordando o tempo todo um com o outro… sem nem sair do quarto. Isso seria maravilhoso.)

Jair, eu entendo o que você tem de maneiro pro pessoal. Você é o cara de segurança. Ricos e pobres estão inseguros, por isso você está ganhando votos na favela também, não é só coisa da Palmeirense votar em você. Você tá prometendo tolerância zero com a bandidagem e isso é uma promessa que enche os olhos de um povo desesperado pela violência. O cara lá da ZL ouve seu Racionais mas quando tem a moto que ele parcelou em 36 vezes roubada, ele vai querer um líder que evite que isso se repita. Não importa o que você fale, Jair. E isso que você tem é um puta trunfo. Você está vendendo segurança pra tratar medo.

Mas me preocupa que você nunca parece se preocupar muito com o fator humano das coisas.

“Lá vem o chato falar de direitos humanos!”

Sim, Jair. Pô, me ouve, cara. Não é papo de PSOL não. Eu não entendo nada do PSOL. Eu já falei um pouco com o Freixo e simpatizei com ele mas não somos best friends forever não. Inclusive lembro quando ele fez aquela piada sobre a mulher do Pedro Paulo e a esquerda perdeu um tempo ali que rapaz… e veja bem, eu entendi a piada e acho que até você deve ter achado graça, embora jamais admitiria pois a chance da direita sair com o grau moral superior é simplesmente boa e rara demais para desperdiçar. Normalmente essa soberba é da minha galera!

Mas então, sim, Jair. Eu não acho que é humano resolver tudo na bala e jogando na jaula. Existe uma criminalização da pobreza, somada a todas as merdas pós-abolição da escravidão que geram um problema bizaroooooooo de termos mais mortes e prisões em jovens negros e pobres. Isso é foda, Mito.

Não dá pra resolver na bala. Não olha pra mim com essa cara de “tá com pena, leva pra casa!”, que não é isso. Eu só preciso ter alguma garantia de que a gente não vai mais derramar sangue nem colocar na cadeia um moleque de 16 anos porque ele tava fazendo um aviãozinho com uma dúzia de pino de cocaína. Eu sou contra o uso de cocaína — pelo menos, para mim — mas queria saber se você quando pensa num garoto que quer comprar uns negócios pra casa — e por que não um boot pra se adequar às seduções do capitalismo? — , e por isso vende um baratinho… você acha que vale pena jogar ele na cadeia por 8 anos? E aí quando ele sai o que ele faz com a vida? Vai estar tarde demais. É hora de voltar a vender mais cocaína. Cê entende? Bolso, você entende?

Eu não espero que você reveja suas posições todas. Eu só quero que você me ouça e reflita. Se não concordar, tudo bem, mas eu posso contar com a sua atenção, pelo menos? Se sua presidência acontecer eu sinceramente vou ficar chateado mas quero falar contigo.

Uma coisa que eu entendi é que você não entende de nenhum dos assuntos básicos para ser um presidente mas escolheu a melhor pessoa possível para ser o Ministro em cada caso. Mas como você escolheu o melhor se você não entende nada do assunto? Yelp?

Não tenho como entrar muito no seu bravado misógino, racista e homofóbico. É aí que você ganha. Porque infelizmente tem muita gente preconceituosa no Brasil. Então você fala algo que funciona para o para-choque de um caminhão e foi, turn down for what!

Nem todo mundo que carrega esses preconceitos é simplesmente “mal”. Muita gente só não se adaptou às coisas novas da nossa sociedade. Eu não entendia o que era uma pessoa transsexual até uns 5 anos atrás. Tem noção? É um longo caminho. E você tem sorte. Tem muita gente que trata empregada doméstica com escrava. Tem muito gay apanhando ainda porque é gay. Minha mina mesmo, que não é gay — nem bi, nem nada, é sem graça que nem eu, mas já apanhou por estar andando ao lado de uma amiga na rua. Porra Bolso, se você virar nosso líder, eu tenho que saber que você é um cara que não acharia isso justo. Você é esse cara?

Eu sei lá. Eu quero que você fique bem. Eu fiquei chateado com o bagulho da facada. Primeiro porque pensei “fodeu, eles vão usar isso à exaustão para transformar ele no herói”. Confesso que eu fui aí primeiro, antes da empatia. Mas logo veio o “que merda, melhoras para o cara”.

E depois algo me ocorreu. Quem é esse cara que esfaqueou você? Será que ele não é um daqueles caras que, tal qual todo mundo promete, “ah, se puder viajar no tempo, vou matar o Hitler” e ele lá em 2086 viu como sua presidência foi bizarra, com milhões de mortos e presos, censura contra a imprensa, e o país caminhando para ser uma mistura de Coreia do Norte x Texas x Curitiba… e simplesmente viajou no tempo e fracassou na tentativa?

Cedo demais? Novamente, estou contando aqui com seu senso de humor. Mimimi é coisa da minha galera.

Mas eu sei lá, cara. Eu espero que você me responda. Se você for eleito — vai que, né? — eu não quero ter que falar para todo mundo que eu vou para o Uruguai e desistir duas semanas depois porque a multa para cancelar o contrato de locação do meu apartamento não compensa viver fora do governo de um milico delusional.

Não me veja como um Stan, apenas como um cara curioso. Eu acho que a gente tem nada a ver mesmo — sei lá, aborto, tenho certeza que você acha que o bebê já tem vida no momento da ejaculação, enquanto eu acho que enquanto der para dar reset sem comprometer a saúde da gestante, melhor — mas eu tô cansado do país do jeito que tá. Não dá mais para trocar ideia com um desconhecido sem querer dar um soco no pescoço dele porque ele repete alguma das suas groselhas sobre pena de morte. A gente precisa voltar a cair na porrada por coisas que importam: futebol.

*Jair, se quiser, me adiciona no Zap. Vamos trocar ideias sobre o Brasil.