Drake jogou a toalha pro Kendrick Lamar?

Queria falar um pouco sobre essa coisa do Drake ter “aplaudido” o Kendrick Lamar e até “considerado” fazer uma faixa com Kendrick e Cole.

Eu achei que ele foi esperto. Pro bem ou pro mal, você que sabe.

O Kendrick superou o Drake em todos os sentidos. Antes ele era só um rapper melhor mas os números do Drake eram insanos e isso dava moral pra ele agir blasé com o Kendrick — isso estamos falando da época de “Control”, quando o Drake disse que “não se sentia ameaçado pelo Kendrick de forma alguma”. Pra você e para mim, números podem não ser nada. Mas são uma carta e tanto no rap game.

O que o Kendrick tinha era: ser um rapper altamente superior. De resto, o Drake era uma estrela maior, uma referência da cultura americana maior — mesmo sendo canadense, Drake é um produto da cultura americana. Os números não se comparavam.

Hoje em dia os números, a crítica e os fãs estão do lado do Kendrick. Desde To Pimp Butterfly isso vem crescendo até agora com DAMN.

Kendrick tem nos dois discos jabs subliminares pro Drake.

Isso põe Drake numa posição desconfortável. Não são mais os dias de Control, onde só hip hop heads fechavam com Kendrick. São dias de DAMN., onde Kendrick é superior em todos os quesitos.

Drake precisa responder. Ele precisa dar um jeito de devolver o ataque do Kendrick. Se ele não fizer isso, ele confirma a expectativa geral do público sobre ele: é um rapper molenga. Não existem rappers molengas. Junta isso com a ideia dele não escrever as próprias letras — sendo verdade ou não, é a percepção geral. Drake precisa responder. Mas ele olha Kendrick e não acha onde bater. “Onde eu vou bater nesse cara?”

Kendrick está protegido, se esquivando e com guarda alta, em total modo “Kung Fu Kenny”.

Drake decide jogar a toalha e oferecer trégua. É a única solução possível. É dar a outra face. Mas ele não faz isso tão abertamente. São em pequenos passos. Ele deixa um comentário no Instagram de um dos executivos do Tidal que havia postado sobre as vendas de Kendrick e Drake liderarem as paradas. “Fantástico ver nossa música girando!”

Isso foi bem humilde, você tem que admitir, mesmo sendo o maior fã-boy/girl do Kendrick. Drake foi “humble”. Cara, a Rihanna, mina que ele é abertamente apaixonado, rima com o Kendrick em DAMN sobre querer se manter humilde.

Drake cede.

No mesmo dia, ele curte o comentário de alguém que sugere que em resposta ao som do DJ Khaled com Justin Bieber, Chance The Rapper, Migos e Lil Wayne; ele deveria gravar uma música com J Cole e Kendrick Lamar, dois dos rappers da nova geração que são majoritariamente considerados como salvadores do bom flow no rap.

“J Cole também, Ronald?”

Isso não sou eu dizendo — embora eu concorde. Isso quem fala é o Q-Tip, em “Dis Generation”, faixa do último disco da ATCQ.

Talk to Joey, Earl, Kendrick, and Cole, gatekeepers of flow.

Kendrick pode ser o maior da geração mas não é o único grande habilidoso com palavras. Hip Hop não vive de um rapper só. Nunca viveu e nunca viverá assim.

Então o Drake curte o tal comentário que sugere que ele faça uma música com Kendrick e J Cole, os dois caras fodas do rap. Ele não precisa nem falar sobre isso abertamente, seus fãs caçam tudo que ele curte, segue, “des-segue” na internet. E isso vira notícia.

Drake sem fazer muito esforço aceitou que perde pro Kendrick. Não espere mais que isso como confissão. Ele não vai falar “Kendrick é melhor que eu.” Ele fez isso através dessas ações. Ele fez isso depois de levar tantos jabs do Kendrick. É isso, ele perdeu.

E aceitando isso publicamente, ele freia o Kendrick. Como o Kendrick vai bater no Drake num próximo disco se o Drake acabou de bater 3 vezes no chão, pedindo pro juiz parar a luta? Kendrick ganha a disputa — não por nocaute, mas submissão. A partir daí, bater do Drake depois da luta é errado.

Ao mesmo tempo que “Drake aceitou que perdeu de Kendrick”, ele fez isso de maneiras tão pequenas, com mínimas ações online — nenhuma delas em sua própria página nas redes-sociais — que ele pode voltar atrás e alegar que não aceitou nada disso. Porque curtir um comentário sugerindo colaboração com Kendrick e comentar “Fantástico ver nossa música girando” no Instagram dum cara da Tidal são ações que contém ambiguidade o bastante para Drake alegar que nunca jogou a toalha. Que nunca admitiu que Kendrick o venceu.

Ele admitiu? Talvez, eu pessoalmente acho que sim. Ele está tentando se aproximar? Sim, mas bem aos pouquinhos. Mas ele não cede o bastante. Isso tudo é amplificado pois virou notícias nos sites de rap.

Mas nada veio do Drake em letras garrafais. Nem virá. Só os próximos meses podem dizer qual é a real posição dele. Ele pode estar apenas se protegendo, não querendo divisão entre fãs, não querendo mais artistas do lado do Kendrick, não querendo ser mais o saco de pancadas do Lamar.

Ou ele pode estar admitindo que foi bem idiota ao começar uma treta com o Kendrick por causa do verso do K Dot em Control. Hoje tá mais claro do que nunca que estar citado ali é um atestado de relevância. Não é pejorativo, é o Kendrick deixando bem claro que reconhece esses rappers como a elite — técnica ou comercial da música.

A real intenção do Drake pode ser honesta e humilde. Ou pode ser apenas um cara tentando se proteger por saber que não dá pra entrar numa guerra com o Kendrick, mesmo com um exército de ghostwriters.

De qualquer forma, foi inteligente. Mas não se precipite em achá-lo tão superior por isso. Sobreviver é fundamental.