Eu sou Ronald Rios. Mas quem sou eu?

No aniversário de Regina

No mês passado eu fiz 30 anos. Wow. Então agora eu sou um adulto mesmo. Se fosse uns séculos atrás, baseado na expectativa de vida da época, eu provavelmente já estaria perto da morte. Então é muito louco pensar que eu vou viver mais do que figuras históricas importantes como, por exemplo, Jesus Cristo, Genghis Khan ou Fred Flintstone.

Eu me encontro numa daquelas situações, acho que é parte de uma crise de meia idade, mas eu achava que meia idade era só lá pros 50. E a terceira idade só seria determinada a partir do momento em que você estiver com os movimentos e a pele parecidos com os de uma tartaruga marinha.

Mas independente da categoria etária em que eu me encontre, eu me vejo em crise. Muita Internet danificou a minha cabeça. Não através de Wi-Fi fritando meu cérebro — tem gente que bota fé nisso, e sei lá, às vezes eles estão certos, porque pára pra pensar nas milhares de ondas invisíveis que passam por dentro do seu corpo todos os dias. A onda de celular atravessa paredes de concreto! Você tem certeza que ela não frita nem um pouquinho seu cérebro ou pelo menos é responsável pelas vozes que você ouve?

Mas a Internet me quebrou. Esse tem sido um ano difícil para mim, em termos de saúde mental. Como você já deve ter lido à exaustão, eu lido com depressão há alguns anos. É um processo chato do caralho e que eu às vezes tô no controle e às vezes eu ligo o foda-se.

7 semanas atrás eu parei no médico. E a doutora após me estudar como se eu fosse o Hannibal Lecter, me recomendou o seguinte: evitar completamente o stress.

Só.

Não falou para não comer gordura, não falou para tomar leite de quinoa — is this a thing? — e nem para eu arrumar um novo corte de cabelo — sinceramente isso seria bem útil porque eu às vezes só lembro de cortar o cabelo quando ele começa a atrapalhar a minha visão igual aquele cachorro do Cebolinha.

Mas e essa receita da Doutora hein? Evitar stress? Como? E isso é tudo que você tem pra mim? Esse conselho o Zeca Pagodinho podia ter me dado, como fez em 2002 com a Seleção Brasileira através do contagiante single “Deixa a Vida me Levar", que, contextualizando para os mais jovens, foi um hit da grandeza daquela collab da Anitta com Pablo Vittar, em que no videoclipe a dupla está no deserto sacudindo suas respectivas pélvis para nos doutrinar com o comunismo gay feminazi. Deu certo. Meus espermatozoides vão gerar junto dos óvulos de minha companheira uma criança gay que vai sair da boceta dela — parto natural, com doula hippie, embaixo da cachoeira — já dando uma baforada de maconha pra fora e falando “E AÍ AMIGXS, TUDO DESCONSTRUÍDO?!” graças ao comunismo gay feminazi nos doutrinando como gado via seus videoclipes musicais.

Acho que é assim que funciona, né?

Evitar stress não podia ser um pedido mais difícil. Eu queria algo mais como uma receita de Klonopim, Valium e Hidrocodona. Ou mesmo banhos gelados, igual faziam com os doidos nas antigas.

Mas voltei para casa pensando em como cortar o stress. Eu passo o dia dando F5 em sites de notícia e Twiter para saber o que está acontecendo. Eu fico no escritório enquanto deixo minha tv ligada na CNN e MSNBC. Eu consumo muita notícia.

Consumia. Parei. Não dou nem um pega mais.

“Então você da noite para o dia cortou o noticiário da sua vida? Fácil assim?”

Sim. Sites de notícia? Parei, tirei tudo dos favoritos. Canais de notícia? Passo. Nem deixo visível no menu. Se precisar, coloco até senha digitada de olho fechado para não ter como lembrar depois.

Por que vou assistir o noticiário se é tudo uma merda estressante e repetitiva? Você já sabe quem faz o que, quem diz o que, qual a posição de tal lado sobre tal pauta.

“Ah mas se acontecer algo grande?”

Eu vou saber.

PT com esse circo ridículo ao redor do Lula faltando semanas pras eleições. Os caras sempre souberam que ia ser o Haddad, então para que o joguinho? É Andy Kaufman essa porra? Alckmin atacando Temer pra se distanciar do vampiro quando ele é um canalha maior. Tem os empresários que “representam o novo” quando na real eles passaram décadas com políticos no bolso até perceber que é mais barato e vantajoso investir numa campanha pra si mesmo. E tem sempre as tragédias. Essa fita do Bolsonaro foi feia. Espero que ele se recupere. E que perca a eleição, claro. Não misturemos as coisas. Os dois sentimentos andam juntos. Foi uma covardia muito escrota.

Mas olha eu já falando de política. Meu ponto é: na real, se ele ganhar, foda-se. Não vou esquentar a cabeça porque não gosto do presidente. Esse é meu ponto principal. A vida vai ficar pior? Provavelmente. E acho que se ele ganhar, há um lado positivo: a gente vai testar reacionarismo como política por 4 anos e nunca mais repetir o erro. Ou repetir porque todo mundo é burro mesmo e foda-se.

O Trump ganhou e tem sido uma bosta para o mundo todo, não só pros EUA, (sem saco para descrever tudo, use o Google) mas houve um levante #Real+Oficial do conceito de socialismo democrático no país. Vários candidatos com projetos de maior bem-estar social estão sendo ouvidos e eleitos porque o país elegeu há 2 anos o direitista mais cretino possível, provou disso e não gostou.

Fica parecendo aquela alegoria besta do Batman precisar do Coringa mas é meio por aí mesmo. A esquerda americana acordou pra valer e está ganhando cadeiras. O mesmo pode acontecer aqui, então mesmo que o Bolsonaro ganhe, não será o fim do mundo — nem do Brasil. Então eu não estou a favor da sua ignorância, mas sim da minha. Eu tenho o direito de ser ignorante e estou usando à vontade. O que for importante vai chegar em mim. Mesmo eu tendo saído do Twitter.

De lá eu saí por dois motivos:

  • Evitar mais do que notícias, a repercussão delas. O povo só fala disso — e tá certo o povo. Eu prefiro ficar de fora do debate. De fora mesmo, não é só olhando. Porque isso já é o bastante para o sangue esquentar nas minhas veias.
  • Fugir da auto-exposição automática. Eu tenho a tendência de falar tudo que sinto mas eu passei a me irritar com a atenção. “Espero que você fique bem” é algo que eu cansei de ouvir. Eu usava o Twitter como se tivesse 16 seguidores mas a verdade é que para cada reclame que eu faço, são 200 mil pessoas lendo. E lógico, muitas pessoas reagem. E eu sei que as pessoas não fazem por mal, elas têm boa intenção. Eu que ando sem paciência.

Eu estou fora do radar. Eu driblei entrevistas porque sempre vão me perguntar sobre o CQC ou algum ex-membro e já passou tanto tempo que eu não tenho mais mágoa sobre o que aconteceu. Eu tenho ido bem pouco na rádio — acho que fui umas 2 vezes no mês passado e olhe lá — ou mesmo lançado poucas coisas minhas na web. Não é por falta de ideia, mas sim de confiança mesmo. Eu tenho escrito bastante para mim só. Escrevo, leio, gosto, não gosto, é ótimo, eu sou minha própria audiência e tá tudo bem, porque eu sei o que eu quis falar e busco só o meu respeito mesmo.

Sei lá, é o que eu digo para mim.

A real é que eu não sei onde está minha cabeça mais. Eu estou sem objetivo e confiança. Acho que não sei nada de Comédia. Há algum tempo eu olho pro espelho e vejo um adesivo na minha testa: FRAUDE. E isso tem acabado comigo aos poucos. Diariamente eu fico pensando numa solução para minha carreira porque eu não entendi que ia me expor tanto lá atrás, quando eu comecei a mexer nesses brinquedos. Eu até hoje não me acostumei com as pessoas me reconhecendo na rua — por isso eu raspo a cabeça às vezes, quando tenho algum encontro irritante na rua com alguém que quer saber se fulano é gay, se o outro é “gente boa na vida real” ou se “fulana é puta e entrou lá pelo sofá”.

Eu penso se está tarde para voltar para a faculdade e tentar virar um arquiteto. Ninguém pára um arquiteto na rua para perguntar o que houve que nunca mais viu um prédio dele. Nem fazem bolão no 55Chan para ver quando ele vai se matar.

Falando nisso, pensamentos suicidas? Sim, passaram por aqui bastante depois de anos não me atormentando a cabeça. Agosto foi muito merda. Eu pensava em consequências de uma morta diariamente mais vezes do que eu penso em acordar com a Rihanna me passando um blunt antes de fazer uma gulosa. Simplesmente porque eu não sei para onde ir na vida.

Aos poucos me adaptei a ideia de voltar para a terapia para valer, trocar o antidepressivo, toda essa merda que evitei por um tempo em que estive bem. Podem jogar fora seus canhotos de aposta, otários.

Eu acho que não estou acabado mas talvez eu esteja. Eu sou esse cara aí meio bagunçado. Bem intencionado, alienado e esquentado. Esse é o Ronald Rios.

Hoje.

Como nota final, um desejo:

Eu gostaria de ver um filme novo sobre Jesus, mas queria ver uma versão onde ele não morresse. Todas as vezes em que assisti “A Paixão de Cristo” do Mel Gibson (uma vez, pela metade), eu penso que se fosse um filme de ação, seria mais maneiro porque Jesus iria dar um jeito de se desvencilhar daquela cruz e depois encher aqueles romanos de porrada.

Não, mas ele simplesmente morre. Sempre. Seja no cinema, tv, teatro ou até na nova versão em podcast*.

Acho que precisam reinventar o personagem. Eu observo o que a Marvel anda fazendo com seu vasto elenco — eles conseguiram fazer um filme em que 30% do diálogo é “groot" — e penso que a Igreja Católica precisa atualizar seu personagem principal. O mesmo desperdício acontece com o Super Homem da DC Comics.

E se nem Jesus e Superman se dão bem, o que esperar de Ronald Rios xapa?

*Um podcast de ficção “tipo rádio novela” sobre a saga do filho do Criador seria demais. Fica a ideia aí, pode fazer. Só me paga um baseado depois, foda-se royalties.