Reaprendi o valor da escrita graças a minha mãe

Ontem foi um living hell. Minha mãe estava internada há dias por uma infecção no braço e ninguém me avisou disso. Ela quase perdeu o braço. E eu não fazia ideia. A gente sempre se fala pelo Facebook e as vezes ela demora pra responder, então não fazia ideia do que tava rolando. Ela pediu para não me contarem. Eu entendo. Ela se preocupa com minha depressão e sabe que os últimos meses têm sido foda.

Assim que eu soube, quis correr pro hospital mas não achava as chaves. Enquanto buscava as chaves pela casa, ia ficando mais irritado e impotente. Tava puto de não ter sido informado, me sentindo menos homem. Me senti o garotinho do A Vida é Bela. Tentei pular pela janela da cozinha para cair na garagem e esperar um carro entrar no prédio para eu sair mas depois de olhar o cenário e tentar duas posições bizarras, eu percebi que eu iria acabar chegando no hospital pelos motivos errados.

Voltei a revirar a casa por uma chave. A partir dum momento, eu perdi a cabeça e comecei a destruir a casa, tipo naqueles restaurantes japoneses que têm uma sala que o cara paga para destruir tudo, manja? Uma bosta. Eventualmente a Rachel veio pra casa me liberar.

Cheguei ao hospital. Minha mãe não entendia porque eu tava tão sério. Basicamente porque eu não sei chorar. No meio da confusão ainda em casa, lembrei de pegar livros pois ela ama ler. Peguei um do Sabino e um do Veríssimo. E quando dei para ela, ela ficou tão feliz. Me disse que a única coisa que tinha para ela ler era a Bíblia. Não reclamando, pois ela é religiosa, ao contrário do filho. Mas no meio desse inferno de dia, ela me mostrou o que fez com a Bíblia: usava todas as páginas em branco, espaços nos cantos para escrever um diário. Ela começou a ler e eu acho que não me senti tão feliz assim em muitos meses. Eu entendi o poder da escrita mais uma vez.

Você pode escrever profissionalmente, pode escrever uma carta de amor, uma carta de ódio, um desabafo em público e pode escrever uma coisa que eu esqueci que existia: um diário para si. 4 da manhã, ela com apenas um braço bom e sem conseguir dormir, escreveu no escuro — ela divide quarto com uma senhora — aproveitando o pouquinho de luz que vinha da rua, sobre tudo que vinha passando, tanto na prática quanto no que sentia. Eu sorri querendo chorar de alegria mas eu não sei chorar. Mas eu senti uma conexão com ela muito forte. Ela liberou suas emoções escrevendo. O poder de escrever é lindo e com certeza ajudou ela a manter a cabeça no lugar. Eu me senti tão feliz que eu não consigo esquecer esse momento, tá grudado na minha cabeça. Obrigado mãe, por me ensinar o poder da caneta. E obrigado caneta, por dar poder a minha mãe.

Dito isso, reforço: Peço para que doem sangue no Hospital das Clínicas, ali do ladinho do metrô. Em nome de Marisa Bittencourt Rios (número de paciente, 910077931). Minha mãe recebeu transfusão de 2 bolsas de sangue e é importante o hospital repôr isso. Obrigado.