Pixo

- Mas você não acha que grafitar é mais bonito?

- Sei lá. Acho que sim, né? Mas é bonito ser feio também.

- E você acha que pixo é arte?

- Um monte de coisa na televisão não é arte e a galera é chamada de artista.

- Não tô falando da Geisy Arruda.

- Um monte de coisa no museu não é arte. É um monte de rabisco e parafernalha colada por playboy e patrícias da FAAP que só por estarem numa galeria autorizada, são chamadas de “arte”. Nada contra mas eu acho um lixo.

- Mas é a sua opinião. E você não entende nada de arte, pelo rabisco que vi você fazendo.

- Você conseguiu ler o rabisco?

- Não.

- Aqui todo mundo consegue ler esses rabiscos. É uma questão de percepção, né?

- Mas por que não fazer um grafite autorizado? É tão bonito.

- É sim. Mas a gente não quer agradar seus olhos. Nem ter que “ser autorizado”. A gente é nossa autorização.

- Isso é anarquia.

- Não. É usar a cidade como meu bloco de notas.

- Sua conversa não me convence: vocês deveriam procurar um lugar designado a arte.

- Mas é designado para todo mundo? Ou só pros filhos dos caras contra quem a gente protesta nas pixações?

- Você não pode comparar pixo com um trabalho de arte cuidadoso numa galeria.

- No pixo tem que ser cuidadoso também. Um pisão num cimento podre e você vai parar lá embaixo.

- Tá vendo? É loucura fazer isso.

- Ok, então eu sou louco. Só mais uma coisa: qual a sua opinião final sobre pixo?

- Eu acho que é vandalismo. É sujeira, é crime!

- Calma, toma um pedaço de papel e uma caneta. Anota aí o que você acha de pixo. Sem massagem, viu?

- Que massagem…?

- Pode falar tudo que pensa.

Ele anota com a mão tremendo. Leva 5 minutos. Que ideia ruim.

- Certo, agora você coloca na nossa caixa de sugestões.

- Onde?

- Tá vendo aquela caçamba ali de obra cheia de pedra quebrada e pedaço de madeira? Coloca ali pro pessoal do nosso SAC responder.

- Isso é sério?

- As baratas têm que fazer alguma coisa enquanto esperam uma bomba nuclear.