Sobre prevenção do suicídio

Estamos no “setembro amarelo”, uma campanha anual de conscientização para prevenir suicídio. Todos os esforços são para alertar a população a respeito de quão feia a situação tá. Se liga na sofrência: os números oficiais indicam que 32 brasileiros se matam todos os dias. No mesmo período, menos pessoas morrem vítimas da AIDS ou da maior parte dos tipos de câncer. E essas são duas doenças que fala-se abertamente sobre. Há diversas campanhas sobre AIDS, que também é tema constante nos programas de TV, onde sempre tem aquela simulação necessária mas meio constrangedora de ensinar a colocar uma camisinha usando uma banana.

Isso é necessário? Sim. Isso é engraçado? Sim.

E somos obcecados por câncer. São tantos tipos que a gente se perde. E o tempo como fator fundamental? Um câncer detectado com algumas semanas de atraso pode ser a diferença entre vida e morte. A gente aprendeu isso tudo, e não tem sido bom evitar tantas mortes? Ir no médico checar que mancha é essa que você nunca tinha notado, dar aquela apertada cuidadosa nos seios ou deixar o Dr colocar um dedo cuidadoso na porta de trás. Não precisa ler a página sobre câncer no WebMD para saber algumas coisas básicas.

AIDS e Câncer. Duas doenças amplamente divulgadas e debatidas. Então como o suicídio, um cenário igualmente ou com até mais chances de matar, pode ser tão pouco discutido? Eu já vi mais aparições dos gêmeos Flávio e Gustavo na tv do que campanhas do CVV (Centro de Valorização da Vida, instituição que atende pessoas com pensamentos suicidas).

O assunto não é popular, então uso de tudo pra chamar a atenção

Só os números já seriam o bastante para me fazer coçar a cabeça e ver que tem algo errado. “É sério que tem isso tudo de gente se matando?”, eu me perguntaria se eu mesmo já não tivesse contemplado suicídio por meses, há uns 4 anos.

Há 3 anos eu fui diagnosticado com depressão. Uma série de sentimentos e pensamentos que eu sabia já ter desde pelo menos 2007. Tudo foi crescendo e sendo ignorado porque eu achava que psicólogo/psiquiatra era “coisa de gente rica de Copacabana. Sabe o que é doença? Asma!”

Eu lembro que lá para 2009, eu estava me sentindo cada dia mais angustiado e comecei a considerar fazer terapia. Mas era um conceito tão escroto e frouxo para mim, que eu ensaiava na minha cabeça o dia da primeira consulta: eu chegaria na salinha do(a) terapeuta e diria que “não confio nessa parada, mas com todo respeito, vou te deixar uma chance, tá bom?”

Eu não fui. Minha insônia aumentou. Foco diminuiu. E eu desenvolvi um elevado grau de TOC pelos próximos anos. Em 2012, meu primeiro ano no CQC, a pressão e intensa carga horária do trabalho somada a distância do Rio, onde minha mãe morava; foi o que me levou ao limite: lá pra outubro, eu pensava todo dia em me matar.

Eu não entendi o que era. Eu namorava, ganhava um salário decente, estava fazendo coisas novas e empolgantes mas tudo que eu guardei no peito ao longo dos anos resolveu estourar nessa hora. Eu lembro exatamente o primeiro dia em que eu pensei em me matar: eu estava numa festa conversando com um amigo meu. Estávamos na sacada dum apartamento de um amigo dele, era uma festa. De repente o meu casual medo por altura perdeu proporções saudáveis enquanto meu amigo falava alguma sobre cinema. E não se engane, ele é um dos meus amigos mais interessantes e não era por tédio de ter que ouvi-lo falar que eu senti pela primeira vez a necessidade de pular e acabar com a minha vida.

E foram meses e meses assim. Recusava convites para qualquer festa acima do quarto andar. Eu imaginava que se tivesse a chance, ia me matar. E era uma coisa muito bizarra. Eu me enganava: “é uma coisa com altura.” Mas eu comecei a ter vontade de morrer em qualquer lugar. Lembro até hoje dum dia que fui na Transamérica dar uma entrevista; e no táxi eu estava com vontade de explodir. Não havia nada errado naquele dia. Eu não estava nervoso pela participação ao vivo, eu havia apresentado rádio ao vivo por anos. Foi só uma - vou reforçar essas palavras, pois elas traduzem exatamente o que senti — vontade de explodir.

Essas vontades de explodir voltaram. Em vários cenários e com maior frequência. Em casa, no avião, no metrô, em shows, no cinema, em qualquer lugar. Teve uma hora que eu entendi que eu ia morrer e só não sabia a hora que eu ia escolher.

E tudo silenciosamente. Essa foi a pior parte.

Até que um amigo indicou uma psicóloga. Funcionou no começo. Mas depois precisei ir para um psiquiatra, que trabalha dum jeito diferente do psicólogo - e te prescreve drogas.

Friends forever, infelizmente.

Lembro que nessa época achei engraçado essa coisa da cabeça: se você tá com um pé torcido, um ortopedista te ajuda. Se você está com o pé quebrado, um ortopedista te ajuda. Já com a cabeça é assim: se tá torcida, psicólogo. Se tá quebrada, tem que chamar outro médico, o psiquiatra. Que órgão maravilhoso e com tanta margem para se foder é essa massa cinzenta?

E fui me conhecendo no consultório da psicóloga, entendendo a cada semana como meu cérebro funcionava; os padrões e as armadilhas que eu me pregava. Falo aqui dum ser-humano que solta armadilhas contra si na mesma proporção de um Dick Vigarista tentando vender a Corrida Maluca. Mas me entender na terapia foi fundamental para lidar com minha depressão. Isso e claro, um caminhão de antidepressivos e ansiolíticos.

Eu ainda sofro de depressão. Tenho altos e baixos. Tem dia que eu penso “acho ela foi embora”. Mas ela tá ali. Um dia vai.

A vontade de explodir? Nunca mais. Eu não sinto menor ímpeto de terminar minha vida há pelo menos 2 anos. E essa é a história que eu queria dividir com você. A parte ruim? Ninguém compartilha a sua história abertamente por medo de preconceito. A parte boa? Com jeitinho, conversa e intimidade você descobre que é algo existente, de verdade, e você não é um freak. Seu mano tem, sua amiga já teve.

E você pode fazer como fizeram por mim: me levaram a buscar ajuda profissional. E lutar de igual para igual com a depressão. Não fosse por isso, talvez eu não tivesse aqui agora. Talvez eu não tivesse visto o 7x1 ou The Get Down. Talvez eu não tivesse viajado por aí e trazido uma mineira fantástica para ser minha mulher.

Foi engraçado, vai…

Por isso eu proponho um diálogo mais aberto sobre suicídio. Por isso eu proponho que você dê um tempo para conhecer o site e a campanha do Setembro Amarelo. A Organização Mundial da Saúde diz que 9 em 10 casos de suicídio podiam ter sido evitados. Mãos a obra, partiu?

Então além de usar camisinha, não compartilhar seringa na hora de dar um pico de heroína e evitar alimentos com agrotóxicos (ou beber Coca Zero), veja se você — ou alguém querido — precisa de mais algum tipo de prevenção, dessa vez contra o suicídio. 9 em 10, hein? Vamos salvar essas 9 pessoas.