Mas e o tal do Poliamor, hein?

Em uma entrevista ao bom e velho Jô Soares no bom e velho SBT (Sistema Bozo de Televisão), Zeca Pagodinho foi questionado sobre as diferenças entre o samba de roda, o pagode e o partido alto. Além de um grande sambista, Zeca é notório por suas frases e seu jeito humilde. No papo, com a característica sinceridade, o cantor revela que havia oitos anos que lhe faziam a pergunta e ele não sabia como responder. Dois personagens marcantes de nossa cultura em uma entrevista hilária. Vale a pena o clique:

Pois bem.

A real é que muitas vezes não sabemos o nome das coisas, mas por algum motivo sabemos fazê-las. E se alguém perguntasse pra você as diferenças entre relação livre, poliamor e tico-tico-no-fubá? Você sabe fazer essas "coisas"?

O que você responderia? Sim, não, talvez, tenho vergonha…

Eu tomo como exemplo o senso comum de alguns amigos que dizem que eu sou/fui poliamorista. À eles, invoco o espírito de Caetano Veloso e o clássico "como você é burro, cara!!!". Vamos lá estudar a palavrinha, pessoal:

Poliamor (do grego πολύ — poli, que significa muitos ou vários, e do Latim amor, significando amor) é a prática, o desejo de ter mais de um relacionamento íntimo simultaneamente com o conhecimento e consentimento de todos os envolvidos, não devendo, no entanto, ser confundido com pansexualidade.

Em suma, EU entendo que é ter dois ou mais amores numa relação séria. Poxa, eu não consigo achar o controle remoto que sumiu há alguns meses aqui na bagunça quarto, como serei capaz de achar mais de um amor? Quando falo amor, não falo da paçoca (muito gostosa por sinal), mas falo de amor, amor. Aquele amor raiz, aquela coisa de planejar o futuro com a pessoa de forma natural, de viver juntos até que uma fatalidade ou um desses fins de mundo anunciados por cientistas que nunca acertam nada se torne realidade. O amor que vai além da paixão que é momentânea e passageira. Falo do amor como o sentimento mais sublime de todos.

Eu falo por mim, obviamente, mas gosto muito de um texto que diz que nem sempre ficaremos com os amores de nossas vidas: (http://www.huffpostbrasil.com/thought-catalog/nem-sempre-ficamos-com-o-grande-amor-de-nossas-vidas-e-tudo-bem_a_21697766/)

E mesmo que eu saísse pra comprar pão e voltasse para casa com, sei lá, dois amores (que poderiam ser Kelly Rowland e Gabrielle Union), há um outro problema básico. Até onde sei, relações poliamorosas rendem três, quatro, dez ou setenta e sete pessoas vivendo juntas ou se relacionando com um grau alto de intimidade (tá, setenta e sete é exagero da minha parte).

Vou dar exemplos fazendo uso de nomes "atuais":

Valentina ama Enzo. Enzo, por sua vez, ama Gael. Gael nutre um amor não Nutella efusivo por Valentina. Todos dividem a vida: boletos, senha da Netflix, shampoo e segredos. Tomando por base trisais que conheci, posso dizer seguramente que esse tipo de relação é raríssima, pois exige um equilíbrio raro como um deputado confiável em Brasília. Três pessoas, três ideias diferentes, três visões de vida: há quem ponha catchup na pizza, há quem goste de passas no arroz e há quem acredite que a Terra seja plana.

Tá, estou exagerando nos exemplos novamente, mas basta você que é casado ou namora notar como as diferenças entre um casal pesam numa relação. É preciso saber viver, irrelevar, suspirar, contar até dez e, às vezes, dar um migué. Agora imagine um terceiro elemento nessa mistureba.

Para tudo isso dar certo e não rolar uma treta severa, é necessário muita compreensão e muita, muita paciência. O que eu acho uma raridade. Não que as pessoas não tentem, mas nessa vida louca conheci centenas de seres humanos que não se relacionam no modo clássico. Falo, com segurança, que casais que seguem o "poliamor compromisso raiz" são raríssimos. Dentre os que conheci, havia um trio sensacional formado por suas orientais e um cara fantástico. Era muito legal ver os três juntos (mas eles se separaram).

Então, tomando por base o que sei da tal vida, o que não é muito, falo assumidamente que nunca fui, não sou e dificilmente serei um poliamorista (desculpa ae, Kelly e Gabi). Para você amigo que um dia me chamou de poliamor, sabia que você é bastante burro.

Sobre ter relações livres, aí já são outros 500. Subentende-se que a pessoa que é RLI é do oba-oba, toda trabalhada na putaria. Existem casos e casos, mas mais uma vez as pessoas tendem a misturar liberdade com esbórnia sexual ao som do Mr. Catra.

Eu acredito que a pessoa livre é uma pessoa que opta em viver suas relações de forma aberta e sincera, sem querer controlar alguém e ter rédeas que o controlem. Péra! Aquele seu amigo que pega geral e não liga no dia seguinte após a transa (aliás, hoje ninguém liga porque existe WhatsApp) ou aquela colega descoladona que aproveita muito bem uma liberdade que há alguns bons anos era impensável agem como pessoas RLI?

Na prática, sim. Porém, o fato de ter liberdade não DEVE SIGNIFICAR FALTA DE CUIDADO COM O COMPANHEIRO E A COMPANHEIRA, OK? Liberdade é uma coisa, ser escroto/escrota e não ter sentimentos e o básico do respeito é outra. POR FAVOR.

Em suma, a pessoa que busca relações livres busca viver bem a sua vida e, ao menos na teoria, aceitar a liberdade dos parceiros ou parceiras. Se o crush/crusha deseja ir sozinha para uma festa para maiores de 18 anos, ela que vá e seja feliz. Se quer viajar sozinha, vá. Se quer ir no show do Raça Negra sozinho ou sozinha, vá. E vice-versa. Dependendo do grau da relação, casais "livres" fazem coisas juntos o tempo todo também. Como disse acima, mais liberdade não significa abandono e tocar o foda-se pra pessoa. NÃO.

Tá certo que, na prática, a coisa não é tão simplista como parece ser ou como muitas pessoas vendem a ideia. Lembre-se que somos daltônicos quando olhamos a grama do vizinho que, quase sempre, parece mais verde. Em qualquer relação existem os fantasma do ciúmes, o bicho do ego e a lombriga das brigas (pára, Roniel). Voltando a falar da minha experiência, conheço casais livres que se cuidam de maneira inspiradora. Parece até coisa de filme da Sessão da Tarde. E também conheço gente que se casou na igreja de papel passado bonitinho, mas que não consegue ficar cinco minutos sem brigar.

A diferença de uma relação clássica e uma relação moderna (aham, vai estudar história e tu vai ver que o "moderno" é mais antigo que cagar sentado) é uma liberdade maior para debater sobre diversos temas. Infelizmente, muitos casais bacanas se separam pela falta da resenha, de papo mesmo. Se eu não posso dividir as coisas com minha companheira, quem será que vai segurar a marimba? O porteiro? A terapeuta? A torradeira? Dolores, a boneca inflável?

É aí que está a grande vantagem de ter alguém para falar de quase tudo e dividir outras coisitas más. Óbvio que não existe uma fórmula, que cada um se adapta às relações, sejam quais forem elas, de acordo com seus limites e desejos. Eu um dia já quis me casar, já quis ter filhos e já quis morar em uma casa com paredes branco Suvinil. Hoje eu quero ter estabilidade financeira e emocional, além de boletos em dia. Também quero minha mãe bem de saúde e continuar fazendo o que amo: fotografar, escrever e viajar quando possível.

A real é que lá no fundo, libertários e tradicionais querem a mesma coisa: ser feliz, ter uma pessoa para dividir os pesos da vida e, quem sabe, construir uma história ao lado dela. Ah, podem ser elas, embora eu ache muito difícil se apaixonar no mesmo nível por duas pessoas. Independentemente do tipo de relação, o negócio é ter respeito e tentar ser transparente, um dos grandes desafios nesse mundo cheio de ruídos e papos virtuais.

Mas enfim. Isso é de cada um.

E o que é o tico-tico-no-fubá?

Também não sei. Talvez seja a definição de pessoa livre ou desavergonhada nos tempos onde tudo era menos líquido e mais moral (aham).

Aliás pra você eu falei, falei, falei e não cheguei a lugar algum, certo? Se sim, vou fazer como Zeca Pagodinho. Só que ao invés de um destilado, vou tomar um Toddynho e puxar meu carro. Se não, espero que tenha entendido um pouco do que quis passar com esses anos de experiência de um homem solteiro, livre e que, se necessário, não pensaria duas vezes abrir mão do pouco que tem para viver uma relação, seja lá qual for ela. Porém, pra isso, eu preciso primeiro ter capacidade de encontrar o controle remoto sumido para depois depois dizer que vivo um mozão com eme de maravilhoso.

Quem sabe?

Segue o jogo, cada um no seu quadrado. Cada um à sua maneira na corrida pela busca da felicidade e por aquelas coisas perdidas que, vez ou outra, aparecem em nossas vidas. Vai de cada um de nós agarrar ou deixar passar. Não importa o jeito, mas sim o quanto você se dedica.