DOIS BISPOS INERTES DIANTE DA PROFANAÇÃO DOS CORPOS POBRES COM A VIOLÊNCIA

Cidade de Deus, Manguinhos, Chapadão, Maré, Alemão. A cidade do Rio de Janeiro está coroada em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém. Está sob o controle de dois bispos, algo raro. De um lado, o arcebispo católico, Dom Orani Tempesta, e cardeal, o que aumenta, e muito, seu poder e influência na cidade e na política da cidade. Do outro, Marcelo Crivella, evangélico, bispo da Igreja Universal, agora alçado à condição de prefeito, leva sua zona de influência enquanto senador a uma condição ainda mais poderosa na cidade, enquanto chefe do executivo, em meio a condição caótica do Estado. Arrisco dizer que estamos à beira de uma demonstração incrível de concentração de poder, nas mãos da igreja, ou, das igrejas. Sim, nem todos os católicos, nem todos os evangélicos são iguais, conservadores e com projetos de poder. Mas o progressismo cristão no Estado tende a ser silenciado ou ainda mais marginalizado, junto com os movimentos sociais, coletivos e ativistas que já esbravejam desconfiança e resistência a esta estranha santa dobradinha.

Mas aqui, o que me chama atenção mesmo é para onde aponta este domínio do bispado no Rio de Janeiro. Sou de uma tradição evangélica que tem a defesa da diversidade e dos direitos humanos como um princípio importante, norteadores na esfera pública. Mas não parece ser isto a ser esperado do poder cristão empossado na cidade do Rio. A violência e a opressão-controle-repressão em nome dessa violência e da megalomaníaca e ineficiente política de guerra às drogas varre as periferias da cidade, enquanto no santo dos santos político evangélico e católico o silêncio e o desinteresse por uma resposta ou intervenção é a tônica. Nem uma manifestação, nem uma ação coerente entre a dor das famílias e da comunidade e a pregada solidariedade e amor cristãos. Nem do bispo prefeito, nem do bispo cardeal. Apenas silêncio. Silêncio de quem mais tem poder para gritar junto com a comunidade. Silêncio que transita ziguezagueando entre a adesão da ação, a conivência e a omissão indiferente. Se a banalização da vida preta, pobre e favelada não perturba o evangelho dos bispos, já podemos intuir para onde o Rio da política cristianizada vai.

Privilegiado pelo aparato de segurança que tem, em 2016 Dom Orani experimentou por dez minutos o que é o cotidiano de moradores em diversas comunidades no Rio de Janeiro. A vulnerabilidade diante de um tiroteio tornou-se rotina para estas pessoas, que se adaptam de maneira a não permitirem que suas vidas parem por conta desta vulnerabilidade. Também não é diferente como Marcelo Crivella lida com a violência e as vítimas que ela mais produz. O bispo de hoje, é o mesmo bispo de 2008, quando, os jovens David Wilson, 24, Wellington Gonzaga, 19, e Marcos Paulo, 17, todos negros e pobres, moradores do Morro da Providência, no Centro do Rio, foram entregues por soldados do Exército a traficantes de facção rival do Morro da Mineira, como punição por estarem envolvidos com roubo de material do projeto Cimento Social. O projeto, para quem não lembra, era a principal cartada do bispo para a sua candidatura naquele ano. Na ocasião, Crivella foi acusado inclusive de ter negociado com traficantes da Providência para garantirem a permanência do projeto no morro, e de usar o Exército, sob o álibi de uma intervenção militar para pacificar a comunidade, como “protetores” dos materiais do projeto. Os jovens foram torturados e mortos pelos traficantes da Mineira e seus corpos deixados em um lixão da Baixada Fluminense.

Talvez, enquanto bispos, Crivella e Orani, tenham se reunido para rezarem pelas vidas perdidas, secretamente. Mas, publicamente, ao que parece, importante mesmo é que a cidade não se afaste da conduta moral do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

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