Eu e minha companheira silenciosa: a surdez

Estamos caminhando na rua, eu e ela. As pessoas falam, gritam, mas não ligamos. Tudo passa despercebido por nós, embora meus olhos estejam bem atentos ao que acontece. Ela apita dentro do meu ouvido, lembrando que carrego um pequeno objeto na orelha esquerda que não me deixa perder a conexão total com o mundo real: um aparelho de surdez. De vez em quando, ela emite um apito mais alto, para avisar que a bateria do aparelho está terminando. Ela apita tão alto que tenho a impressão de que todos estão ouvindo. Mas não. Ninguém ouve. Ninguém percebe.

Ela, a surdez, me acompanha desde criança, quando eu andava pelas salas de espera de consultórios médicos com meu moletom de panda, morrendo de fome, uma criança que não entendia por que tinha que passar por uma cirurgia tão complicada, mas com nome bonito: timpanoplastia. Alguns repuxam o rosto, mas eu retoquei meu tímpano. Chique, não?

Naquela época, eu tinha que entrar no mar com tampões ou chicletes dentro do ouvido. Cresci com medo de água, com medo do mar. Eu sabia que se, por um acaso, a água entrasse no meu ouvido, eu teria dores horríveis, e o buraquinho no tímpano aumentaria de tamanho. A privação de nadar, da água, foi um dos primeiros grandes efeitos da surdez na minha vida. Aquilo parecia o fim do mundo, porém a dor de pingar remédio dentro do ouvido era ainda pior. Por isso, algo em mim conformou-se com a ideia de talvez nunca soubesse como é a sensação de mergulhar.

À medida que você cresce, os efeitos da surdez tornam-se mais evidentes. É aquela frase que o professor diz e você não ouve. É ter que virar o chamado “ouvido bom” para ouvir um segredo. Ou estragar todo o telefone sem fio por não ouvir o que as pessoas diziam. Aos poucos, a água tornou-se fichinha perto de toda a fobia que eu experimentava cada vez que alguém ia falar algo no ouvido “ruim”. Enquanto isso, eu continuava retocando meu tímpano, como uma estrela de cinema insatisfeita com o próprio rosto, pois a cirurgia tinha uma recuperação delicada, nem sempre dando certo. Portanto, tinha de refazer meu tímpano, até que ele ficasse perfeito. Bom, essa perfeição só foi atingida de fato em 2014.

A audiometria, exame que a gente faz para testar a audição, sempre foi um dos maiores pânicos da minha vida. Toda vez que entro naquela cabine, eu penso que estou fadada a ir perdendo mais e mais minha preciosa audição e que não há exame que vá deter isso. É um medo muito forte, de quem sabe que já perdeu muito não ouvindo as coisas.

Eis que o aparelho auditivo apareceu na minha vida. No começo, fiquei receosa, não queria usar. Tinha vergonha, pois aquilo estava assumindo pra sempre que, sim, eu tinha perda auditiva. Os chicletes não adiantaram pra nada. Como eu iria usar meu cabelo preso com aquela coisa aparecendo? Depois que comecei a usá-lo, percebi como a vida poderia ser fácil, simples, leve. Como era delicioso entender as palavras dos meus atores favoritos, ouvir os meus debates em francês e entender o que eles diziam. Recuperou muito a minha autoestima.

O aparelho trouxe a consciência de que a surdez é a minha companheira silenciosa, aquela que me conhece bem demais. Aquela criatura que fez com que eu desenvolvesse habilidades como leitura labial pra saber me virar quando o aparelho auditivo não poderia me ajudar. Temos uma relação de amor e ódio. Ela está na beira da praia, quando não consigo ouvir como as ondas batem de verdade, o barulho de verdade delas. Ela existe, não há como negar a existência dela. Cada vez que alguém fala mais alto comigo, eu percebo como ela nunca irá embora, por mais que eu peça. Então fizemos um acordo e tentamos conviver da melhor forma possível. O aparelho auditivo é um mediador das frustrações por a vida ter levado boa parte da minha audição embora. Ele é um mediador entre nós, lembrando que não devemos tornar isso uma tragédia, acontece, oras.

Hoje eu posso aprender a nadar, entrar no mar e experimentar as coisas das quais fui privada durante tantos anos. Ainda não me aventurei. Acho que minha companheira solitária diz para eu tomar cuidado, revive algumas memórias na minha mente para que eu perceba que não é bem assim, entrar no mar e mergulhar. Nem boiar eu sei.

Ela quer cuidar de mim, como uma terceira mãe, uma mãe invisível.