Os fantasmas da professora Regina

Jess
Jess
Jul 24, 2017 · 4 min read
Da página “Doses diárias de amor e respeito”.

Eu e minha dinda temos uma piada interna chamada “a professora Regina”. Até ontem eu achava que razão dessa brincadeira tinha a ver com um incidente envolvendo um trabalho de grupo da quarta série, coordenado pela professora Regina. Estava certa quanto ao segundo ponto: a história envolvia a professora Regina, mas não um trabalho de grupo.

O que a professora Regina fez comigo foi bullying, e eu simplesmente apaguei isso da minha memória.

Tudo começou por causa de um caderno esquecido em casa. Por causa disso, a professora me colocou de frente para uma parede e me humilhou. Meus colegas riram de mim. Provavelmente engoli o choro, uma habilidade que desenvolvi ao longo de uma existência que me dizia que chorar era feio.

Ao chegar em casa, na esfera privada, eu chorei. Contei o que havia ocorrido para minha dinda, e ela foi falar com a professora Regina. Ela ainda alegou que eu poderia estar mentindo, veja bem. Quem dera essa fosse a única história sobre bullying que tenho para contar.

Em seguida, quando estávamos na sexta série talvez, um garoto passou o ano inteiro implicando comigo por causa da minha altura. Ele me tocava sem meu consentimento, apontava para mim e todos caíam na risada. Porque eles tinham medo de serem as próximas vítimas. Vítimas de um garoto que deixava a professora de espanhol à beira de um ataque de nervos. Ele praticamente acabou com o emocional dela. Um dia, ele me provocou tanto que eu abaixei a cabeça na classe e chorei. Eu chorei enquanto todos riam.

Enquanto minha dinda relembrava esse ocorrido com a professora Regina, a televisão exibia Big little lies. Na série, também há um caso de bullying na escola da cidade. Um dos personagens alega que as crianças são daquela forma mesmo. Será? Eu acho que não. O fato é que o bullying deixa marcas invisíveis na gente, na nossa personalidade e na maneira como enxergamos o mundo.

Na universidade, sofri assédio moral. Tudo isso doía muito mais, porque eu já não era mais uma criança. Como adulta, você não tem o direito de gritar e bater o pé. Eu queria berrar, mas eu só ia para o banheiro chorar, ou ainda engolia o choro. Você tinha que aceitar que o professor era daquele jeito e fazer com que ele engolisse os desaforos com suas notas. A universidade é um dos lugares que te fazem pensar que o espírito colegial jamais saiu de nós. Jamais.

Hoje os efeitos de todas essas situações são muito palpáveis. Percebo que a minha ansiedade e meu anseio por uma perfeição inatingível têm como raízes situações como as da professora Regina. Quando ela me colocou de frente para aquela parede, ela estava me punindo por não ter sido uma aluna exemplar que nunca esquece o caderno em casa. Então, de certa forma, você associa o fracasso com a punição, com o escracho e com a sua cabeça exposta em praça pública.

Minha terapeuta sempre me pede para que eu me pergunte o que uma situação pode trazer de pior. Qual é a pior coisa que pode acontecer? É ali, naquele instante precioso, que racionalizo e vejo que o pior já aconteceu. Eu estou desgraçada da cabeça por causa dos fantasmas da professora Regina. Não consigo confiar em mim. É por isso que cada minuto da minha terapia se tornou precioso, e eu preciso falar e gesticular muito. Minha alma nunca se conformou facilmente com nada, e eu não consigo admitir que a professora Regina vença. Mesmo que o pior já tenha acontecido.

No fim das contas, relembrar essa história, depois de tê-la apagado da memória por motivos óbvios, foi bom. Eu não posso me deixar ser tragada pela lembrança dessas situações. Como diz este texto fantástico da Paula:

Ainda acho que não posso me livrar de vez da minha tristeza, por isso, decidi tê-la como bichinho de estimação. Ela me inspira, me faz escrever coisas bonitas e me faz ver o mundo de um jeito mais cru, que me move e me faz querer mudá-lo. Mas ela só serve pra isso porque eu consegui transformá-la nessa coisinha de nada, que (quase sempre) não me atrapalha, não me assusta.

Não posso me livrar da lembrança do bullying e do assédio moral, mas posso transformar nisso em algo que não atrapalhe (tanto) a minha vida. É por isso que decidi me cuidar, frequentar a terapia.

A certeza de que um dia a professora Regina e seus fantasmas serão (quase) inofensivos me move.

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Jess

Tradutora, noveleira e apaixonada por cinema.

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