caderninho coreano

Revirava as tralhas, desempoeirava as memórias. Remexia no que não servia mais, já que fora escondido em gavetas que deveriam permanecer fechadas. Mas se mantido, não atirado ao lixo, alguém em algum momento pensou um dia, um dia vai me servir.
Achei um caderninho coreano. Folhas amarelas, homenzinhos duendes na capa, de chapéus pontudos, bochechas coradas. Balançam na árvore, recolhem as folhas caídas, contemplam - em meio a um emaranhado de símbolos, que me parecem equações. MADE IN KOREA, consta na contracapa. Está posto o mistério. Como esse caderninho coreano chegou a uma família brasileira mineira nos anos 90, 2000? Naquela época ainda não havia coreanos com suas lojinhas de quinquilharias na cidade. Que travessia esse caderninho fez para cair em nossas mãos? Por quem foi trazido? Por que não foi usado, guardado? Por quem? Por mim, adolescente que não reconheço mais?
O adolescente solitário enfiou o caderninho coreano na gaveta e pensou: Vai me encontrar homem, para que eu escreva em você sobre o misterioso caderninho coreano; para que eu escreva em você sobre coisas que hoje não sei, não sei escrever.
Pois chegou ao homem. E se houvesse uma dessas máquinas do tempo, colocava o caderninho coreano nela e mandava de volta ao adolescente, em branco, para que ele imaginasse que o homem o enviara para que nele o jovem escrevesse sobre o que não sabia escrever.
