As vantagens de ser invisível. Nenhuma, pelo jeito.

O mocinho fica com o amor da vida dele, na vida isso não acontece. Não revidou os insultos que recebia dentro de sala de aula, consigo me relacionar com isso.

Desde muito cedo, a relação com o mundo ao meu redor era diferente. Quando era criança, talvez por não ter um temperamento forte ou não ser intrometido, as pessoas conseguiam lidar bem com a minha figura. Era dócil, respeitava os espaços aos quais não me eram familiares, dizia “bençã” aos mais velhos e pedia por favor/muito obrigado. Tentei refazer meus passos até chegar o momento que não conseguia ser mais essa criança.

Onde foi que deixei de ser querido?

No colégio próximo de casa iria de mal a pior nas aulas. Falta de dinheiro pra pagar as mensalidades. Não soube pelos meus pais essa informação, mas dentro do ambiente escolar essa névoa densa já me rodeava. Frequentava muito a biblioteca, e, segundo os que acreditam em signos, meu comportamento obsessivo de pisciano me fazia escolher sempre o mesmo livro. Algo sobre lendas e deuses gregos. Um dia não devolvi o livro. Era meu, ninguém o lia mesmo. Pensando bem, seria eu o motivo de não lerem. Essa dúvida começou a grudar na minha cabeça. Minhas notas nunca caíram, mas não prestava atenção nas aulas. Quase não tinha amigos, além de uma prima que era de outra série. Várias distrações durante a aula, minha borracha era mais interessante.

Bati a porta da secretaria, mandaram me chamar. A coordenadora (uma figura sempre presente durante meus anos escolares) disse que não podia me manter assim, apatia podia ser sintoma de algum problema mental. Meus pais foram chamados, minha mãe compareceu. Precisamos de uma avaliação psicológica do seu filho, eles disseram. Relutante, como até hoje, minha mãe concordou.

Não lembro da ida ao consultório. Lembro de chegar e brincar de forca com a psicóloga. Ela usou uma palavra fácil. Acertei rápido. Agora era a vez de escolher uma palavra. Fiquei em dúvida de qual usar. Acabei olhando pro chaveiro que a doutora tinha em cima da mesa.

Matei o boneco de palitinhos enforcado.

Qual era a palavra? Apontei o chaveiro perto da caneta.

MINERVA.

Foquei tanto na mitologia grega, nem imaginava que Atena tinha esse nome na miologia romana. Deusa da sabedoria. A doutora muito espantada. Não lembro de mais nada.

Falei do filme “As vantagens de ser invisível” porque seria uma cena incrível para descrever algum personagem desses filmes “cults”. O adolescente problema, distante dos seres normais. No fundo, alguém incompreendido.

Tocou Bowie. Rocky Horror Picture Show também.

“Don’t dream it. Be it”

Chorei nessas partes imaginando o número enorme de pessoas que não se encontram no “normal”. Crescem e se tornam adultos infelizes. Que não sonham, que não são.

Depois do filme veio aquele vazio frio de não ter onde ser segurar. Cair feito Alice, mas sem pouso.

Talvez sejamos pessoas que não precisam do que é oferecido. Vivemos de alegrias internas. De nós para nós. Eu falo que eu sou bonito. Eu falo comigo. Não tem ninguém pra conversar.

Em algum momento alguém se identifica e puxa papo. Quem sabe um dia não seremos tão sozinhos. No final vai tocar “Heros” e beijaremos as respectivas Emma Watson que nos querem.

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