A ECOLOGIA DO TEMPO

Rosa Alegria, futurista e pesquisadora de tendências

Hoje minha estréia como colunista do Diário do Comércio pilotado pelo admirado jornalista Nelson Blecher.

O fenômeno do relógio acelerado e a crescente mobilidade requer das empresas uma reinvenção em suas estratégias de desenvolvimento de produtos e serviços

Estreio minha coluna para falar de várias oportunidades que nos traz o futuro. Como futurista, procuro não cair nas armadilhas das previsões.

Prefiro observar os sinais dos novos tempos e provocar inquietações criativas que tragam soluções imediatas a necessidades não atendidas no presente. O tempo é uma delas.

A ecologia do tempo é uma das tendências de consumo que apresentei num estudo multiclientes realizado em 2007. Oito anos depois, sinto-a renovada e mais forte, mas infelizmente, mal atendida.

O tempo, numa abordagem ecológica, tem sido valor crescente (e escasso) na relação dos consumidores com a saúde, com o bem estar, na qualidade de suas experiências.

O futuro da economia já se faz sentir na redefinição de valores nesse mundo hiperconectado em que o tempo, passa a ser valor econômico e recurso não renovável.

Tentamos controlar a vida pelo avançar das horas, minutos, segundos — e cada vez menos deixamos as empresas nos controlarem.

O excesso de estímulos, informações demais, lentidão no atendimento, manuais de instruções enciclopédicos, fizeram com que o espaço entre uma atividade e outra ficasse mais comprimido.

O fenômeno do relógio acelerado e a crescente mobilidade requer das empresas uma reinvenção em suas estratégias de desenvolvimento de produtos e serviços.

Para se destacar nessa era marcada pela instantaneidade, o destaque de um negócio poderá ser determinado por sua habilidade em poupar o tempo de seus clientes. Na concepção de algo que se proponha a ser inovação, o mantra empresarial do século 21 deverá ser “tempo é dinheiro”.

As revoluções de ontem, as dos “fast-food”, das máquinas de auto-serviço, dos call-centers automatizados (mas nem sempre eficientes), dos “deliveries”, dos caixas eletrônicos, dos “drive-thru”, das entregas agilizadas, prenunciaram o que hoje é moeda de troca.

Hoje o tempo realmente vale dinheiro na troca de horas oferecidas entre pessoas que convivem nas plataformas digitais. Exemplos bem sucedidos são os da brasileira Bliive e de bancos de horas como o caso da Ithaca Hours (Horas Ithaca) — moeda norte-americana que vale horas em vez de dólares. Criada em 1991, permite a troca de horas oferecidas entre pessoas e comunidades.

A pressão pelo tempo vem de todos os lados: não somente dos consumidores, cada vez mais impacientes e apressados, como também da busca pela eficiência e produtividade na gestão empresarial em tempos recessivos.

Parece óbvio mas não é para a maioria das empresas. Tantas oportunidades se perdendo e as filas aumentando. Já em 2009 estudo realizado nos EUA indicavam que apenas 5% das empresas se preocupavam com o tempo dos consumidores.

Sinto que essa realidade pouco mudou e que o trem do tempo tem avançado nos trilhos do mercado ainda carente de soluções instantâneas. Inovações que ajudem consumidores a de tempo agregado, reduzir tempos de espera em qualquer situação, descomplicar a utilização do que se compra (do tipo 3 em 1), antecipar respostas a dúvidas, demonstrar real interesse pelo tempo bem aproveitado de quem visita os pontos de venda entre vários outros caminhos que ainda não foram percorridos.

A americana Dream Dinners oferece serviços de preparo de refeições em domicilio. A empresa gira em torno da seguinte pergunta: “Como criamos tempo de qualidade que nossos clientes estão dispostos a pagar para reduzir o tempo gasto em atividades inúteis?”

Simples assim. A empresa em suas estatísticas descobriu que poupa 20 horas por mês na vida de cada cliente, que teriam sido gastas no planejamento das compras, na ida ao supermercado, na preparação e na limpeza da louça.

O resultado foi evidente no seu balanço financeiro. Em apenas 2 anos mais do que triplicou o faturamento, quando decidiu adotar essa estratégia. Esse não é um caso isolado, é claro. Mas é um exemplo diferenciado de como um serviço pode criar vantagem competitiva adotando o tempo como valor econômico.

Outro exemplo é o da Starbucks. Sempre querendo ser um “terceiro lugar” entre a casa e o trabalho, essa rede americana de cafeterias, anos atrás, descobriu que havia reclamações na agilidade do atendimento.

Então, a empresa resolveu mudar para poupar o tempo das pessoas. Entre as diversas ações adotadas, uma delas teve resultado imediato: a liberação das assinaturas nos comprovantes de cartão de crédito (que na época eram à base da maquinha de impressão). Só essa iniciativa otimizou 8 segundos por pedido.

As tecnologias inúmeras precisam ser bem utilizadas e estar a serviço do bem estar humano, O advento da convergência tecnológica no setor de serviços — se bem utilizado — poderá facilitar imensamente a vida das pessoas, através das inúmeras interações digitais, convivência nas redes sociais e aparatos móveis que integram serviços on-line. Bons ventos sopram para a preservação da ecologia do tempo na vida de todos.

O futuro aponta para novas motivações nas relações de troca. No lugar das ofertas-chavão na base dos “economize 30% do seu dinheiro”, valeria apostar nesse novo valor promocional com os “economize 30% do seu tempo”.

Preciso deixar claro que essa preocupação com o tempo não seja excessivamente monetarizada, causando efeitos coletarais que, em vez de aliviar o stress mental e fisico das pessoas, comprometa sua qualidade de vida como se fossem reduzidas a uma conta bancária ou vítimas de um relógio descontrolado.

Por isso, esta abordagem ecológica. Preservar a ecologia do tempo dos consumidores é enxergá-los com outro olhar, uma vez que mais do que consumidores, são seres em busca de paz e equilíbrio para poder melhor decidir o que realmente necessitam comprar, ter tempo de usufruir do que compram e viver a vida com mais prazer e sentido.

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