Contos Sem Nó — De Virada
O pior momento foi quando descobriu que ela tinha contratado todo o aparato para o funeral. Não o surpreendeu mas foi a gota d’água. Playlist a seu gosto, cerimonial, flores, e até mesmo quem iria fazer o discurso de despedida. Só não teve a audácia de escrevê-lo. Seria cremado, claro. Há muito Júlio notou a indiferença dela ao seu sofrimento. Dores por todo o corpo, dificuldades e limitações se avolumando. Na última consulta, em que ela não o acompanhou, o médico deu o tempo fatal. Dois meses, quando muito. Ele estava mais magro mas no mais ninguém notava seu estado de fragilidade. Casados, sem filhos, num relacionamento normal. Dias bons, muitos sem nada, e a maioria de reclamações de toda ordem, da parte dela. Belíssima, ele sempre apaixonado. Quando Júlio descobriu a doença imaginou que teria alguma solidariedade. Mas não. Não o ajudou em nada. Já aposentados viajavam com frequência. Agora na impossibilidade dele nada mudou para ela. Continuava com o planejado mudando apenas a parceria. Chamava uma amiga ou outra. Tinha sido um casamento de conveniência para ela, mas Júlio tinha se apaixonado no primeiro olhar. Ela percebeu o encantamento dele e planejou o enlace. Vinte e cinco anos juntos. Então! Mas aconteceu que foi Júlio quem recebeu o telefonema, na linha do número fixo da casa, da Empresa que Sara contratou para um certo funeral. Seu funeral. A pobre menina, do outro lado da linha, passou~lhe tudo com minúcias, não desconfiando que falava com o provável defunto. A ligação era para confirmar alguns detalhes. Assim ela descreveu como seria sua despedida. Júlio ouviu tudo e finalizou a conversa pedindo que nada fosse comentado com Dona Sara, a contratante, pois ela, a atendente, teria sérios problemas se o fizesse. Ele foi bem convincente como brilhante advogado que sempre foi. Recostou-se na cadeira de couro do escritório/biblioteca e visitou mentalmente os anos passados com Sara. Percebeu o bobo que sempre fora. Sorriu e pensou na conhecida frase: Deus não joga mas fiscaliza. Respirou fundo e ligou para seu médico. Iria submeter-se ao medicamento experimental sugerido na última consulta. Enfim, tranquilo e otimista, subiu e foi tomar seu banho.E a surpresa veio, implacável. Duas horas depois estava defronte a mesma mocinha com quem falara à tarde. Queria confirmar o serviço contratado, que descobriu estar totalmente pago por Sara. Não queria nenhuma mudança. Apenas o defunto seria outro. Enquanto tudo transcorria normal para Júlio, Sara teve um infarto fulminante enquanto pagava o vestido adquirido para o velório do marido moribundo, e teria tudo do melhor na sua despedida. Que ironia, tudo escolhido pela própria. Júlio a achou ainda bem bonita, em seu belíssimo caixão, vestida com o mais novo vestido. Hoje vive com Célia, viajando para os lugares também planejados, e pagos, por Sara. Tudo muito bem organizado. Tudo de muito bom gosto. E Célia? Ama-o.