Dear Trouxa,

Desculpe invadir seu triste espaço existencial com esta carta não-solicitada, quando um spam-textão, mas prometo que não é para adicionar dor à sua condição assumida de trouxa. Ao contrário. Estendi um pano xadrez bem bonito, joguei um pouco de humanidade e boa-vontade no meio, amarrei as quatro pontas duas a duas pela diagonal, passei um cabo de vassoura e fiz uma trouxa de compaixão pra você. Espero que aceite a sua xará com alegria.

Eu já devo ter feito papel de trouxa em muitas ocasiões na vida. Papel de trouxa, de idiota, de palhaça. O grande teatro da vida exige variedade de interpretações. Mas cada um desses momentos serviu de lição, apenas. Não estacionei neles. Não me acomodei sendo trouxa, não fiz disso um objetivo de vida. Mais ainda: nunca me vangloriei de ser trouxa, nunca usei minha trouxisse para angariar afetos e nunca, jamais mesmo curti a sofrência masoquita do #TrouxaPride.

Eu posso saudar o milho, a mandioca, a couve de Bruxelas, a pupunha e até o shiitake, mas JAMAIS saudarei o papel de trouxa como algo a ser enaltecido.

No twitter, tenho visto muita gente ostentando sua condição de trouxa. Quero crer que são apenas pessoas tão carentes que preferem a trouxidão à solidão e, por isso, confessam suas fraquezas em busca de outros membros da mesma tribo para formar uma molécula estável.

Não vou cagar regras pra trouxa, mas se conselho servir pra alguma coisa, aqui vai o meu: apenas pare com isso. Dê uma volta, respire fundo, faça uma lista mental com 30 números primos e comece a buscar um pouco de dignidade. Dignidade é mara. A gente começa a usar e vai se sentindo forte, feliz, energético, seguro de si. A dignidade faz a gente parar de abaixar e mostrar a bunda, de puxar saco de influente em busca de vantagens. A dignidade é um grande antídoto contra a crueldade invejosa, a fofoca destrutiva, o culto à picuinha, a vocação pra ser manipulado, a subserviência complexada. Também estou na busca por mais dignidade, o caminho é longo, mas bem gostoso, quase a trilha de Santiago de Compostela.

E quando você chega, você descobre que seu tempo de trouxa ficou pra trás.

Então, comece agora mesmo a abandonar esse vício lamentável de cultuar-se como trouxa. Papel de trouxa a gente faz quando entrega a direção da peça da vida pra um filho da puta. Mas a peça é sua, a vida é sua, a história é sua. E, se tendo todo esse poder na mão você, ainda ssim, OPTAR por escalar-se para o papel principal de TROUXA, ai, desculpe, vai tomar no cu porque você é trouxa mesmo.

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