Eu não vou obedecer suas ordens

Eu acho essa época difícil pra quem quer viver em paz. Paz é um produto fora de catálogo, você só acha em sebos, casas de penhores ou feiras de antiguidade. A maioria anestesiada, os e-zumbis modernos, precisam de intensidade para sentirem-se vivos, daí o sucesso da violência, das brigas, do ódio massificado na mídia em geral e nas redes sociais em específico.

Não basta mais a catarse do cinema ou dos filmes e séries, nem mesmo os noticiários sensacionalistas aplacam a fome de sangue. Tem que ter treta em tempo real. Tem que ter briga entre perfis. E, se não tiver nenhuma ‘troca de farpas’ para assistir, as pessoas vão facebook para CAVOCAR intriga.

Juro.

Todos os dias, pessoas vão PROCURAR intriga. Implicam com qualquer coisa que qualquer desconhecido publicou, replicam em suas timelines e ficam ti ti ti ti tit it ti it ititt iti ti titit com suas redes, julgando alguém.

Pegar alguém pra Cristo e crucificá-lo num post virou um hábito diário de milhões de pessoas. Garanto que elas apedrejam mais vezes por dia do que escovam os dentes.

Não curto esse hobby, mas estou inserida no mesmo contexto. E sofro. Quer dizer, sofro porque tenho dificuldade de me relacionar por essa via. Sei que se eu disser realmente o que penso, o que sinto, o saldo residual vai ser tão ofensivo e acachapante que ficar quieta acaba sendo a opção mais economica energeticamente. Sei também que são relações de amizade baseadas muito mais no ódio em comum, ou no desejo de destruir alguém, do que no afeto mútuo. Triste.

E onde está o cerne da questão? Na minha visão, na incoerência geral.

Pessoas reclamam o tempo todo da ‘cagação de regras’, mas são ELAS as que mais cagam as regras. Colocam tudo em forma de imposição, sem ao menos perceberem!

A pessoa luta por LIBERDADE dando ordens! Você TEM Que ser livre! Você não pode NÃO ADERIR a minha causa! Você não pode discordar do meu movimento! E essa é a pessoa que defende o direito de cada um ser o que é. Imagina quem não defende. Juro que eu já vi esse filme e cantei essa canção, É Proibido Proibir. Hashtag Caetano Veloso.

Outros querem impor suas ideologias. Outras querem dizer como você deve se vestir, o que comer, como amar, como fazer sexo. Sério, o que é um ser humano que prega o direito à individualidade, mas que CONDENA quem não tem a mesma visão corporal, sexual que ela? A pessoa não pode querer/ não querer, usar/não usar? Quando foi que fazer opções individuais e íntimas virou assunto para condenação pública? Não estou falando de crimes, como pedofilia, por favor, falo de opções. Se a pessoa ‘optar por esperar’, casar virgem, prostituir-se, dar pra todo mundo por amor, ódio, pesquisa, porque sim, pra mim tá tudo bem. Eu realmente não quero opinar ou me meter na vida de ninguém. Não me importo. Não é da minha conta.

Fato é que, às vezes, para não discutir em público, para não ser mal interpretada, para não criar dissabores, para não transformar a baiana num Whirling Dervish (sei lá como se traduz), a gente acaba deixando pra lá. Pra não perder a amizade. Pra não jogar diesel na fogueira.

Mas ninguém é OBRIGADO a nada. (Tá, a Legião Guardiã das Excessões já está agitando a bandeira do ‘você está generalizando’. Olha, generalizar também não é crime, que eu saiba. Me deixa, voltei pra casinha da liberdade, no comecinho do jogo. ) Tá, existem obrigações legais, como existe punição pra quem transgride a lei. Esse não é o assunto aqui. Na vida social, nas redes, ninguém é obrigado a nada e se o indivíduo transgredir alguma norma DA plataforma, ELA é que toma suas providências. Ninguém é obrigado a SEGUIR as ordens, comandos, mandamentos dos OUTROS!

Eu sou livre, você é livre, todos nós somos. Muita gente morreu por nossa liberdade. Vivemos numa democracia. Em construção, mas uma democracia. Você não PRECISA se sentir menor que aquela louca que impõe regras. Nem aquele chato que diz o que é melhor pra você. Se quiser, vai lá e SIGA, faça o que você quiser. Só estou dando um toque mesmo, pra lembrar que nem você e nem eu mesma preciso me apequenar diante das pessoas que querem usar nossas inseguranças ou distrações para enfiar suas ideologias, crenças, padrões, ideias, causas, nas nossa goelas.

O que é legal? Legal é a pessoa falar sobre o que ela sabe, acha, acredita. Explicar. Esclarecer. Ensinar. Isso é MUITO legal. Adoro palestras com pessoas que sabem do que estão falando e que alteram nossa percepção de mundo. Mas elas não IMPÕEM, elas EXPÕEM!

Expor conhecimento, que maravilha. Impor suas posições, que merda.

A liberdade é nossa. Se a pessoa onhecer, se quer comer merda, pra mim ok. Só não vou comer na casa dela. E se ela realmente QUER cagar regras e impor suas ideias, que tente. Eu é que não vou aceitar ordens.