
Quem é você na fila do pão de queijo?
Todo mundo se acha importante. E se não acha, gostaria de.
Frases que ouvimos nas ruas ou lemos nas redes provam o quanto isso é real. Pegue, por exemplo, a famosa ‘mexeu com a pessoa errada!’.Quer dizer, se fulano tivesse mexido com ‘qualquer um’ poderia até se dar bem, mas mexeu com ‘ELA’, alguém com um nível de destaque nitidamente superior e, portanto, quem mexeu vai se dar mal pela ousadia.
Claro, isso não é novidade. Nos anos 50 já se usava a expressão ‘o que vem de baixo não me atinge’, com esse nível de clareza hierárquica.Como a década permitia respostas infantilóides, era comum retrucar a provocação com algo 100% imbecil e nível mental de 4 anos, o ‘ah, é? então fala isso sentado em cima de um formigueiro.” Aff.
O curioso é que, socialmente, todo mundo odeia a arrogância e a falta de humildade. Nos outros. Porque na gente até a prepotência, com um ajuste aqui e ali e um bom acessório, cai bem.
Nas redes é comum usar a divertida pergunta ‘quem é você na fila do pão?’, prima de terceiro grau do ‘quem você pensa que é pra falar assim comigo?’ que já vem com atenuante humorística embutida. (A frase metida simétrica é o horroroso ‘você sabe com quem está falando’) A base lógica, no entanto, é sempre a mesma. Quem é você (Zé Ninguém) pra falar assim comigo (Maria Importante)?
E, porque cada um de nós se acha superior, quando vemos o outro sentindo a mesma coisa, a reação de revolta é imediata. Foi assim que nasceu a divertida comparação ‘ele se acha a última bolacha do pacote’, que gerou uma família de derivativos como :
.a última coca-cola gelada do deserto
.a última mordida do cheese-salada
.a última batatinha frita do saquinho
.o último bis branco da caixinha
Além desse sentimento geral de superioridade e do incômodo de perceber que alguém está tentando pegar nosso lugar no pico do olimpo da existência, há também a incapacidade de admitir que errou, se enganou, foi mal ou fez merda. Para qualquer situação desse tipo, a gente logo vem com uma desculpa padrão do tipo ‘Noooosssa! Eu estava brincando! Não era eu, eu estava fazendo um personagem e VOCÊ:
.não entendeu
.não captou
.não percebeu
Ou seja, mais uma vez é a pessoa que está certa e todo o resto, errado.
E qual é afinal o nosso medo, esse que nos impele a esse tipo de rompante de superioridade?
Resposta: o medo de ser qualquer um.
O medo de ser mais um na multidão, o medo do anonimato, o medo de ser invisível, de passar despercebido, de não ter nenhuma relevância em seu meio, de ser esquecido, de não ser convidado, de não ser reconhecido, não ser notado. O medo de nunca ter um destaque, ou ser o primeiro, o escolhido, o vencedor, o melhor. (Por isso valorizamos TANTO qualquer acerto ou previsão boba dizendo ‘eu sabia! Eu já sabia! Eu falei primeiro!)
E, no entanto, por mais que cada um seja essencial para seus amigos e familiares, por mais que deixe uma marca na história da humanidade, somos todos igualmente desimportantes. Os nomes que ficam para a história, os heróis universais, os gênios, os artistas de destaque, os famosos, as pessoas excepcionalmente belas, os que entram para os livros de recordes, são as exceção. Os outros são o que são, seres humanos comuns, como todos nós, vivendo suas vidas, inventando caminhos.
Admitir-se qualquer um não é ver-se como ninguém, mas ser como todo mundo. Não é estar sozinho, mas junto com o resto da humanidade. Na verdade é muito mais libertador ser uma pessoa comum do que carregar o peso de provar-se importante durante toda uma vida.
Talvez o grande exercício da nossa vida seja aprender a avaliar a relativa e efêmera importância que temos no nosso mundo. O quanto somos queridos para outras pessoas, quantas pessoas dependem de nós e nós delas, o quanto nossas ações podem influenciar as outras pessoas para o bem e para o mal e, a partir do reconhecimento desses nossos papéis assumir a responsabilidade que temos para com o nosso entorno.
Cada dia que passa tenho mais certeza de que é essa a charada que temos que desvendar na grande padaria da vida: descobrir, a cada momento, quem somos nós na fila do pão de queijo.
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