Sexo no meu planeta


Não somos todos iguais. Temos histórias distintas. Somos feitos de combinações de gens que nos tornam únicos. Somos criados por outros seres humanos em determinados pontos do espaço-tempo, influenciados por tudo que nos cerca. Não é de admirar que tudo tenha significado diferente para cada ser humano.

Eu, por exemplo, me dei conta de existir quando estava num determinado ponto da superfície do Planeta Terra, no começo dos anos 60. Mas foi só na década seguinte que comecei a sentir os efeitos da programação mais básica como mamífero, o sexo. Vou contar como era a visão do sexo do ponto onde eu estava, na distante década de 70.


Em 1975 eu estudava na USP. Não tinha AIDs, TV a cabo, celular ou Internet. Tinha álcool, maconha, dedão pra pegar carona, livros.

Na faculdade tinha gente que fazia muito sexo, gente que ainda era virgem, gente que tinha experimentado sexo algumas vezes sem continuidade. Tinha de tudo, como sempre teve.

Sexo era parte da vida, dos relacionamentos, da necessidade do corpo e da imaginação. Sexo acontecia.

Acontecia quando a gente ia numa festa, quando a gente dormia com alguém em casa, quando dava vontade. Acontecia sexo com pessoas que a gente já conhecia, que tinha acabado de conhecer, com pessoas que despertavam desejo na gente.

Sexo não era o único interesse da vida, nem era problema, nem tabu, nem obsessão. Lembro de estar assistindo uma aula, sentir vontade de sexo, conversar com um amigo-peguete sobre o fato e ir pra casa com ele pra matar a vontade, não sem antes avisar a amiga com quem dividia a casinha alugada que não era pra ela aparecer por lá nas horas seguintes.

Olhando para trás vejo o quanto tudo parecia ser mais natural, tão diferente de agora.

Agora, eu vejo letras de funk e parece que as pessoas só falam de sexo. Sexo agressivo, sexo como dominação, sexo como contra-dominação. Letras que parecem tutoriais de sexo, que propõe provas de expertise (vou fazer isso e aquilo, vai ter muita pentada violenta, etc.)

Letras sertanejas, de axé, também só falam de sexo, sempre com sons onomatopeicos substituindo o ato em si, seja tche-tche-re-rê-tche-tchê, nheco-nheco, lepo-lepo ou bará-berê.

É como se todo mundo falasse e falasse sobre sexo e ninguém fizesse nada. Só marketing, só pré-venda, nada de cliente satisfeito.

Hoje, casada e num relacionamento estável, totalmente fora do mercado do sexo aberto, olho pra tudo isso e me pergunto se toda essa indústria da beleza-física-sedução-pegação realmente chega a algum lugar ou morre na solidão do banheiro.

Não sei.

Eu só sei, que no planeta onde eu vim, numa tarde de sol de inverno como hoje, aproveitando o horário de almoço, muito mais gente estaria nua e brincando a dois na cama do que preocupado com declarações polêmicas do Zeca Camargo.

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