Redes colaborativas e a nova forma de poder

“O problema político essencial para o intelectual não é criticar os conteúdos ideológicos que estariam ligados à ciência ou fazer com que sua prática científica seja acompanhada por uma ideologia justa; mas saber se é possível constituir uma nova política da verdade. O problema não é mudar a consciência das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade” (MICHEL FOUCAULT, Microfísica do Poder, 1979, p.14, 30ª ed., Graal ed.: Rio de Janeiro).

O poder oscila. Passa pelas instituições políticas, pelo legislativo, pelo judiciário, pelo executivo, mas ultimamente também tem passado pelas mãos das mídias e dos coletivos. Talvez seja essa a mais profunda mudança observada desde o descobrimento da roda. E, talvez por isso, a mais temida e a que mais tem levado sujeitos, organizações e grupos a dedicar suas horas de trabalho e de suor a encontrar formas de bloquear ou reduzir esse poder. Desde as formas mais simples e utilizadas — isto é, a censura e a porrada — até as mais articuladas — ou seja, o discurso e as leis — o cerceamento entrou para a moda. Há quem saia pelas ruas (institucionalmente ou não)baixando o cacete no Outro e há quem derrube sites, páginas nas redes sociais e até mesmo paredes na tentativa de bloquear aquelas ditas minorias desempoderadasque lutam por ter um poder capaz de garantir um mínimo de respeito para os mais variados grupos, desde os pobres aos refugiados, desde as mulheres às populações LGBT, desde os índios aos negros. Há quem se ancore nas próprias instituições, replicando modelos tradicionais de cerceamento, ocultando-se por trás de decretos, normas, agentes do poder ou até mesmo criando as suas próprias leis — muitas das quais de cunho duvidoso, uma vez que não levam em conta os anseios das populações e não estão abertas ao diálogo.

Na contramão dessa luta desesperada pelo poder e, obviamente pelo dinheiro e benesses que dele decorrem, estão os novos coletivos que de forma organizada ou não,têm conseguido emplacar posições em favor dos menos favorecidos, influenciando indivíduos, grupos e até mesmo grandes veículos de comunicação. Criados no bojo das condições político-histórico-culturais que trazem em si o estímulo ao antagonismo — ou se é contra ou se é a favor — os coletivos atuam como um farol, no sentido de que realizam uma tentativa de fato legítima e arrojada de se colocarem como solução não-institucional.

Dos coletivos inominados aos que têm nome e sobrenome, destacam-se algumas novas mídias pelo poder que têm de divulgar informações e de disseminar olhares anarquistas contra a evidente desestruturação do Estado. Recortes de real life são difundidos sem muita maquiagem e em franca oposição à mídia tradicional que reverbera os mais variados discursos observando a clássica forma do lead jornalístico que tanto amparo oferece às instituições. Nas mídias coletivas o que se colocam são os fatos recortados pelo aqui e agora, o hic et nunc do existencialismo que enfatiza a liberdade e a responsabilidade. Vídeos corridos, depoimentos colhidos entre gritos, fotografias sem tratamento e de enquadramento arriscado, reportagens desestruturadas, repórteres e jornalistas com pontos de vista explícito, pautas irreverentes e instigadoras, tudo isso coloca as novas mídias coletivas na posição privilegiada decriadores de um novo discurso empoderado, uma lufada de ar em meio ao gás lacrimogêneo.

É na sua estrutura, portanto, que as novas mídias coletivas se apresentam como fato não-institucional e está nelas talvez um indício de que, afinal, o mundo tem condições de mudar para melhor, construindo novas formas de poder. Só nos resta saber se os jovens mídiativistas irão resistir à força colossal das antigas instituições que, mesmo no seu leito de morte, lutam pela sobrevivência agarrando-se como loucos a conceitos retrógrados, a decretos-lei de urgência, a medidas provisórias de plantão, a ações de violência e a discursos civilizatórios que excluem a todos, exceto os que se mantêm no poder tradicional.

Alguns exemplos de redes colaborativas:

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Rosana Bignami é graduada em Comunicação Social, Mestre em Ciências da Comunicação, Doutora em Letras e realiza pós-doutoramento no qual analisa redes, capital social, relações de poder e políticas públicas.