A Ideia Indistinta de Sônia Söndra
- Hetero
- Direita moderada
- Novo evangélico
- Índole um pouco duvidosa
- Mauricinho metido a moderninho
- Pop rock e rap
- Carnívoro
- Ficção científica e ação
- Advogado ou ~
Advogado ou contador?
Ficou em dúvida.
Odiava quando ficava entre duas tags. Justo a da profissão.
Fechou o bloco e guardou na bolsa Louis Titton que ganhou da madrasta no natal de noventa e seis, se não se engana. Cheia de eles e tês coloridos estampados num tecido plastificado com um mini cadeado pendurado descascando o falso metal. Tão falso quanto sua tentativa de cool-chique que tava mais para o look completo das top trands do alibaba.com, se existisse na época. Entrou no 721 destino casa. Última tarefa de sua rotina homogênea e nauseante, do dia mais sem graça do que todos outros, o dia que Ruan não almoçava. Chutou as bolinhas de gude, jurou que sem querer, dos meninos na entrada do bloco 7 do BNH de Ramos, mais conhecido como umbral terráqueo, e pronto. Fim da jornada. Colocou o último da Celine, mas programou o micro system para pular a faixa 12, porque queria poupar My Heart Will Go On para escutar pela primeira vez na telona. Tipo como quando poupava para comer por último o recheio da Traquinas. Como gran finale. Afinal, a vida sempre acaba com um gran finale. Ela queria acreditar. Mas chega de romantismos, precisava riscar a tarefa em aberto da checklist, predecessora da estocagem do rancho. Com a rotuladora eletrônica em punhos, saiu etiquetando datas de ontem por todos não-perecíveis.
- Credo! Que cara é essa, Sônia? Cadê o café?
- Na bancada. Acabei minhas tarefas tarde e depois o vizinho ~
- Já chegou ‘Esqueceram de Mim’?
- Não, acho que semana que vem.
- Põe meu nome aí que vou ser a primeira a locar! O Brian não para de me encher o saco perguntando. Tá, tô atrasada, te vejo depois no almoço!
Elisete,
- hetero
- vendedora de loja de lingerie
- meio biscate
- católica por conveniência
- cafona por excelência
Sua única amiga. Apostou um shorts floreado da vitrine da NativuSurf que em algum almoço até o ano acabar, teria que dizer ‘oitudobom’ para Ruan. Não entendia porque Elisete insistia que Ruan à atraia. Ela confundia. Era muito pior do que isso. Acontecia que, Ruan, ela não conseguia rotular. Alguma coisa nele, alguma coisa que não a deixava ver. Tão explícito em todos outros. Menos nele. Era um homem de tags ocultas. E, para Sônia, isso era tão assustador quanto uma pessoa que você olha mas não enxerga o rosto. Isso que a instigava. Não era amor. Nem cilada. Ela nem queria homem nenhum porque sua mãe lhe ensinou muito bem para que os homens serviam. Ou mulheres, efim, cônjuges. Ela não era homofóbica. Nem naquela época em que ainda haviam poucas mulheres gays assumidas e homem gay era cantor com aids ou desmunhecados inofensivos com tictac cor de rosa no cabelo. Mas não se tratava de preconceito. Era catálogo. Tags, para os mais modernos. Ela enxergava rótulos nas pessoas à primeira vista, como um raio-x, fazer o que?! Quase podia ver, assim, em cores, todas tags aparecendo cada vez que via alguém pela primeira vez. E isso lhe ajudava, pois já sabia exatamente o que esperar da pessoa. Talvez fosse um dom, um ótimo dom.
Estava acabando de decorar a lista dos personagens dos blockbusters entregues mês passado e logo pularia para tarefa seguinte: aula 17 do livro do módulo 3 de Croata, o que lhe aproximava do maior prazer por ela já experimentado, riscar tarefas de checklists. Isso, claro, se nenhum maldito cliente entrasse na locadora para atrapalhar.
Lhe dava dores abdominais com eventuais escapamentos de gases recordar que só estava ali encarcerada entre 10 mil títulos de VHS por causa de Stela, a miss 25 de Março. Por conselho do pai, o avô comprou a VideoBuster como um investimento estável de retorno assegurado para até o final da vida de Sônia. O que garantiria o sustento da neta, já que não podia esperar muito do genro, o maior bon vivant da cidade. E, claro, por se culpar pelo abandono precoce da neta pela mãe, sua filha, num jovem e eterno verão em Alto Paraíso. Dois anos depois que abriram as portas, o pai abandou a VideoBuster para ajudar a nova namorada nos negócios, a top sacoleira da cidade, que estava movimentando cifras realmente tentadoras para qualquer um que um dia sonhou em amarrar seu bode. E Sônia teve que adiar a formatura em biblioteconomia, a viagem ao leste europeu, as reuniões da pirâmide que vendia seguros de vida, e tudo mais aquilo que sonhou fazer e que jamais faria.
O ano se aproximava do fim e Sônia não podia perder a aposta. Teria que assaltar a poupança da Croácia para comprar aquele shorts que mais valia ouro. Não sabe onde estava com a cabeça quando aceitou a proposta de Elisete. Mas se bem que, se ganhasse, seria realmente incrível como se sentiria naquele traje. Ninguém que, mesmo tendo o mesmo dom, poderia enxergar nela uma boa e confiável sequência de tags. Seria quase como uma camuflagem. Ou escudo. Ruan almoçava todo santo dia no mesmo PF que elas, exceto terça-feira que, não sabiam o porquê, mas ele nunca aparecia às terças. Sônia se prometeu realizar um dos maiores atos de superação de toda sua vida e vencer parte de sua fobia social emitindo vocalmente uma simples saudação. O que poderia ser fácil para qualquer um. Mas não para ela. Muito menos direcionado à Ruan, o não-estereotipável.
- Quando as coisas melhorarem vou comprar um cão — disse à Elisete no penúltimo almoço do ano.
- Que cão, que nada! Não muda de assunto. Respira e vai lá, menina!
- Mas ainda estou com dúvida no nome… Maitê, Margot ou Bia. O que você acha?
- Acho que seu prazo termina amanhã, que você nunca vai poder riscar essa tarefa da suas entediantes checklists e que eu vou ar-ra-sar no shortinho com saltão travecão no natal-bailão lá na comunidade.
- Elisete, ele tá vindo!
…
- Oi meninas, tudo bem?
(ahi meu deus_)
- O-oi. Tu-udo.
- Percebi que vocês me olhavam muito nos últimos dias. A gente sempre se vê, não é? E nunca se fala. Como se chama?
- Sônia. Sônia Söndra.
- Humm, bonito nome.
- Sim meu pai que escolheu foi a única coisa que a minha mãe aceitou dele na verdade eles não eram casados e brigavam muito até que ela foi morar numa comunidade alternativa e nós só a vemos uma vez por ano meu pai diz que ela nunca o escutou mas não é verdade na repetição fonética das primeiras sílabas do meu nome por exemplo ela o acatou não é — ficava bom para empreender ele sempre disse daí veio Sonia Söndra ah mas com trema no segundo Ó (puxada longa de ar) … numerologia (piscadela de olho).
Ruan e Elisete se olharam assustados com o despejo desnecessário e insignificante de informações.
- Legal, Sandra. Digo…
Ela sorriu o sorriso mais eufórico que que jamais transpareceu na vida combinado à um ágil movimento de debruçamento sobre mesa junto com uma puxada de cabelo para a direita criando um topete meio rengo que fez com que seus dedos travassem nos nós e quase derrubasse o copo d’água.
- … Sônia. Mas eu queria mesmo era saber o nome dela.
Apontando para a morena de 1,73, com calça centropê e umbiguinho de fora.
Elisete, com a sutileza de uma leoparda pronta para dar o bote, descruzou as salientosas coxas, empinou as nádegas para se erguer e Sônia jura que a viu colocar a ponta da língua no centro do lábio superior.
- Elisete, que pode até rimar com periguete — só para desbancar o fonema de Sônia — mas na verdade sou apenas uma mulher louca para amar.
- Ruan Rondas, prazer.
(susto e silêncio)
Ruan ofereceu-lhe o braço para cruzar e saíram lentamente pela direita, num entediante trocar de olhares e libidos que quase fez Sônia vomitar.
Sônia, além do assalto na poupança — porque de todas tags da vida, a que mais podia lhe representar era: confiável –, aperfeiçoou a tese sobre cônjuges da mãe, incluindo amigas no hall dos evitáveis, e vislumbrou um dia em que pudéssemos ter um catálogo de acesso universal de estereótipos, onde as próprias pessoas pudessem alimentar seus dados, tags e rótulos, carregando todas crenças coletivamente e devidamente associadas, para podermos nos proteger de antemão, antes de darmos quaisquer ‘oitudobom’.
Era: cilada.