Os tesouros de Fortaleza

Fortaleza é uma cidade enorme e tem essa beleza de cidade litorânea próxima a Linha do Equador.

Só que aqui o nossa brisa traz a lembrança seca do interior do Ceará e é no nosso mar que esse lembrança se mistura com o vento úmido e faz de Fortaleza essa cidade quente e gostosa que a gente tanto fala com o nosso sotaque carregado… GÓSSTOOSA.

Mas Fortaleza não é só a Praia de Iracema e a sua beleza azul marinha meio decadente, meio conservada, ostentando a arquitetura de Fausto Nilo que é quase uma canção, em meio à especulação imobiliária tapando o mar e querendo alcançar o céu. Fortaleza tem segredos escondidos em todos os bairros e até na Zona Metropolitana.

Andar por Fortaleza e abrir os olhos pra ver a aldeia além da Aldeota permite encontrar as raízes de um povo que recebe todo mundo, mesmo, desde que Iracema que feriu e curou Martin.

A cidade é desigual, mas os melhores lugares também são os mais democráticos, onde todo mundo se encontra e se mistura. Para comprovar a minha tese, basta dar uma olhada nas pessoas que cruzam a rua do Estoril em dia de Fertinha, os bares do Dragão do Mar e também lembrar da “ruazinha do Fafi”.

Aqui se encontra de tudo, do bar “Cu do Padre” que convive pacificamente com um Seminário ao “Suvaco de Cobra” que é bem curtinho e criativo como tantos outros bares e negócios do Montese; o “Raimundo dos Queijos” e o Passeio do Público no Centro; o Kant Bar, na Bezerra, entre tantos outros.

Mas o tesouro de Fortaleza é a gente mora aqui ou que vem e escolhe fazer a cidade de morada.

Assistindo a uma palestra da Monja Coen, fiquei pasma em saber que aqui mora um mestre de ioga que ensina gratuitamente meditação as crianças de escolas públicas (que eu não consegui encontrar na internet).

Por aqui também fiquei sabendo de uma mãe de santo loura e empresária que mostra a luz da Umbanda para todos os que procuram seu terreiro.

Cada bairro levanta seu estandarte e suas particularidades.

Dos bairros que são as veias do comércio aos que cuidam e abrigam e nutrem os estudantes universitários de educação e boêmia.

Do Bairro de Fátima, católico por natureza e vizinhança, que se enche de fiéis e faz a Pontes Vieira e 13 de Maio e as ruas paralelas e perpendiculares vias de expiação de pecados a cada dia 13.

As nossa cidade se divide em linhas retas de vias apertadas. O nosso trânsito até melhorou um pouco ao longo dos últimos anos. Mas quem conhece a cidade ainda prefere evitar as vias às 18h. Principalmente as do Benfica e da Parangaba.

Nos bairros mais distantes, os arranha-céus em construção tentam se construir em meio a atual crise do país e as pessoas procuram emprego e ocupação.

O nosso humor tão conhecido insiste em aparecer, não só nas casas feitas pra turistas, mas nos artistas que tentam vender a sua arte arrancando sorrisos das senhorinhas e senhores trabalhadores que se juntam nas filas dos terminais de ônibus.

A arte do cearense é viver e batalhar pela vida. Exportamos essa arte para o Brasil e para o mundo, há quem garanta que um IEEEEEEI encontra eco nas ruas das maiores e menores cidades do mundo.

Mas a nossa identidade de cidade ainda carece de muitas fontes e de muitas histórias que precisam ser contadas.

Fortaleza precisa se conhecer e se reconhecer nesse espelho de mar.

Precisa se reconhecer nas nossas heranças indígenas que resistem no rosto da maioria nossa população, nas redes espalhadas nas varandas e continua viva contando uma história, que as vezes, eu tenho a impressão que quase ninguém houve.

Das nossas lembranças europeias, dos fortes francês e holandês usurpados pelos portugueses. Da presença portuguesa, que é ostentada pelas famílias “tradicionais do Brasil”, perceba a ironia. E de tantas outras fortes presenças e também da mistura que essas presenças trouxeram.

A nossa cidade é um corpo que precisa de mais articulações.

A gente precisa preservar nossas jangadas e o nosso mangue (da sanha dos estacionamentos e das construtores), também precisa alargar as nossas ruas e torná-las mais transitáveis para que os habitantes possam se encontrar e encontrar o equilíbrio.

Sobretudo preservar a vida nessa selva de edifícios e casas baixas tão bem separadas no horizonte de quem passa no viaduto da Alberto Craveiro, onde cada bairro guarda uma comunidade pobre que exporta talento e muita vontade de existir.

Para completar essa cartinha de amor à cidade que me pariu e criou, deixo aqui essa listinha de bares para visitar, conhecer e se embriagar de Fortaleza: Cu do Padre; Suvaco de Cobra; Raimundo dos Queijos; Passeio do Público; Bar da Lôra; Marcão das Ostras; Toca do Plácido; Toca do Javali; Kant Bar; Picanha do Miguel; Cantinho Acadêmico; Besouro Verde; Ordones; Gato Preto;

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