Natal insólita: dunas, jazz, rock & blues

Se Salvador é a capital do Axé e Recife a do Maracatu, não esperem que Natal seja a do forró — até porque Aracaju arrematou primeiro o título para si. Pode estar no Nordeste, pode falar com acento forte, pode ventar só menos que furacão, mas Natal é a terra dos bares de rock, de blues e de jazz. Só que se você contar, ninguém acredita. A cena alternativa prolifera em bares e pequenas casas de shows espalhadas pela cidade, ainda que Calcinha Preta ou Mastruz com leite arrebatem multidões.

O público é seleto e fiel. As bandas já contabilizam duas ou mais dezenas de anos. E assim Natal vai se firmando como um polo de resistência cultural da região. O movimento é tão forte que, há seis anos, no mês de agosto, a cidade recebe o Fest Bossa & Jazz — já considerado o maior evento do gênero no Nordeste — destinado a ampliar a cultura da música instrumental, Bossa Nova, do Jazz e do Blues no estado do Rio Grande do Norte (agora ampliado para as cidades de Pipa e São Miguel do Gostoso).

Na contramão

Mas é só perceber alguns sinais para entender como os potiguares adoram ser originais. Por exemplo: eles não tomam mate nem que lhe paguem. Não importa se é erva mate, chá, chimarrão, com limão, sem ou zero. Por isso não vendem o produto em nenhum lugar mapeável do estado. Eles não pedem bis, pedem “Mais 28!” Enquanto, no Rio de Janeiro, a polícia prende banhistas por fazerem topless, em Natal, as mulheres vão à praia de camiseta de manga comprida para se protegerem dos raios UV (o rosto e as pernas seguem, no entanto, livres de burca). Por fim, se o resto do Brasil batiza Pedros, Marianas e Manuelas, aqui nascem Maciela, Ciniclei, Nelimar e Aloanderson. Por que então Natal teria que seguir à risca o padrão da indústria musical reservado ao Nordeste?

Uma das explicações para tal desvio seria a própria história local. Utilizada como base militar norte americana na Segunda Guerra Mundial, Natal sofreu uma influência profunda das práticas e costumes do povo do Norte. E não foi só a corruptela de “for all” que se disseminou e batizou um novo gênero musical entre seus habitantes. O som das Big Bands, do Bebop e do blues nunca parou de ecoar pelas dunas.

Assim pensa Paulo Sarkis, contrabaixista da Orquestra Sinfônica de Natal, paulista que trocou o Rio Tietê pelo Potengi, há 22 anos. Conheci Sarkis em Pipa, na casa do viajante Tito Rosemberg (cuja grande entrevista será publicada em breve, no Mulheres do Mundo), numa semana deste mês de agosto, quando ele cozinhou um bacalhau com batatas ao murro e grão de bico mais divino que qualquer restaurante estrelado dos Jardins. À noite, de papo no Centro da vila, o contrabaixista soltou, despretensioso: “Porque quando a gente tocou no Cavern Club…”

Antropofagia beatle

Paulo Sarkis, até então, não havia mencionado que era fundador da Banda Mad Dogs, 20 anos de estrada, que por quatro vezes subiu ao palco máximo da Beatles Week, em Liverpool. O grupo, formado por CBI de Medeiros (vocal), Zé Marcos (teclados), Neemias Lopes (saxofone), Carlos Suassuna (guitarra) e Fernando Suassuna (bateria) não faz cover de Beatles. A partir da obra do quarteto, eles erguem novas sonoridades. “I feel fine” é sambalanço. “Michelle” deixa de ser melosa e vira um tango visceral. “Taxman” larga os anos 60 e aterrissa no Maracatu. Nada é o que parece ser. Afinal, quando dois músicos clássicos, dois produtores musicais, um professor de composição e um arquiteto se juntam, as partituras voam.

“Fomos pela primeira vez para Liverpool e achamos que seríamos linchados, pois os beatlemaníacos são religiosos, você sabe” — conta CBI, que, assim como seus companheiros, se surpreendeu quando os organizadores vieram parabenizá-los pela ousadia dos arranjos, afirmando que suas recriações eram o futuro do evento. Julia, irmã de John Lennon, fez o mesmo na primeira aparição do grupo.

"Botamos uma saia de Carmen Miranda no Papa"– resumiu o vocalista do Mad Dogs.

No último dia 14 de agosto, a banda fez um show em um dos pontos tradicionais da boa música em Natal, o Buraco da Catita. Localizado no Bairro da Ribeira, o local, fundado em 2008, assume suas raízes brasileiras ao reverenciar o samba e o choro, mas também abre o espaço para o rock, o blues e o jazz, em um cenário tão histórico quanto decadente. A Ribeira, por sinal, é considerado um dos centros de disseminação desses gêneros. Além do Buraco da Catita, há o Galpão 29 e o Ateliê Bar e Petiscaria na Rua Chile, que costumam arregimentar os entusiastas. Na mesma noite em que o Mad Dogs bradava Beatles, o Moby Dick — outra banda notória em Natal — exorcizava a zona portuária com Raul Seixas.

Vá de taxi

Uma mulher sozinha, roqueira, blueseira ou jazzy pode se aventurar nesses cenários, mas deve tomar certas precauções. Os bares da Ribeira são espaços interessantes, mas o bairro é assustador. Trata-se do entorno do Porto de Natal, o marco de fundação da cidade, que não deve ver recursos há décadas. Não há sinal de revitalização. À noite, as casas parecem abandonadas. A iluminação pública é precária e as ruas são totalmente desertas, à exceção do exato ponto onde se encontram os bares. “Exato ponto” talvez seja um exagero. O Buraco da Catita possui três endereços diferentes: dois diferentes na Internet (Rua Câmara Cascudo ou Rua das Virgens) e um conhecido pelos taxistas (Av. Duque de Caxias). A rigor, o Bar fica na Travessa José Alexandre Garcia, que corta a Av. Duque de Caxias à altura do número 190 e que faz esquina com a Rua Câmara Cascudo. Já os bares da Rua Chile estão exatamente ao lado das instalações do Porto. Vá de taxi.

Se a Ribeira é alarmante, os outros bares de rock, blues e jazz são inusitados e sempre equidistantes de qualquer ponto onde você esteja na cidade. O bar El Rock, por exemplo, funciona dentro de uma casa, no bairro da Candelária, em uma rua tão pacata e deserta num sábado à noite, que quase duvidamos de sua existência. Já o Wesley’s (antigo Gringo’s Bar, roqueiro desde sua gênese), pequeno e de clientela fiel, está fixado à Avenida Praia de Ponta Negra, nº 9012 — endereço nobre para uma rua pequena, que margeia uma pracinha de pontos comerciais prosaicos conhecida como “Praça do Gringo. Todo domingo, o Wesley’s promove um show gratuito de rock e blues à frente do estabelecimento, que ganha a praça e já se tornou uma tradição na vida noturna da cidade.

Procuramos ainda o Blues Bar (Avenida Praia de Ponta Negra, nº 9048, segundo a Web), que, pela direção, deveria ficar na mesma calçada do Wesley’s. Só que lá o Bar não está. A menos que seu hotel esteja muito próximo do restaurante Camarões (o antigo, localizado à Rua Eng. Roberto Freire), faça como no caso anterior e vá de taxi. Há ainda o Whiskritorio, perto de Ponta Negra, um bar de drinks e happy hour com alma aternativa. Mas nada supera em excentricidade o Taverna Pub Medieval Bar, um castelo onde até há poucas semanas funcionava o Lua Cheia Hostel. O bar temático encena, às segundas-feiras, o evento “Segundas intenções” e à época do Fest Bossa & Jazz reabre seu palco para os músicos do gênero. Porque afinal, jazz, rock & blues só na veia, como bem sabem os natalenses.

Já pro caderninho:

  • Festival Fest Bossa & Jazz

http://www.festbossajazz.com.br

End: Travessa José Alexandre Garcia, 95 (esquina com Av. Duque de Caxias, 190) — Ribeira

Tel: (084) 2010.9185

Horário: De quinta a domingo, de 18:00 às 04:00

https://www.facebook.com/BuracoDaCatitaOficial

End: Avenida Praia de Ponta Negra, 9012 — Ponta Negra

Tel: (084) 99696.7000

Horário: Terças e quartas, de 20:00 à 01:00; quintas, de 20:00 às 02:00; sextas e sábados, de 20:00 às 05:00 e, aos domingos, de 19:00 às 00:30

https://www.facebook.com/wesleysbarnatal

End: Rua Senador Teotônio Vilela, 146 — Ponta Negra

Tel: (084) 98865.9501

Horário: Quarta a domingo, de 22:00 às 04:00

http://agendanatal.com.br/verBar?nome=Rock%20Art

End: Rua Dr. Manoel Augusto Bezerra de Araújo, 500 — Alto de Ponta Negra

Tel: (084) 3236.3696

Horário: De segunda a sábado, de 22:00 às 04:00

http://tavernapub.com.br/home.php

End: Rua Raimundo Chaves, 1892 — Candelária

Tel: (084)

Horário: De quinta a sábado, de 18:00 às 02:00

https://www.facebook.com/elrockpub/timeline

End: Rua Enico Macedo, 1851 — Capim Macio (acima de Ponta Negra)

Tel: (084) 3081.1590

Horário: De quinta a sábado, a partir das 20:00

http://www.whiskritorio.net


Originally published at www.mulheresdomundo.com.br on August 17, 2015.

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