A fábula dos copos

Uma vez, me contaram uma historinha de uma criança que fazia tudo o que queria. Era uma menina muito esperta pra fazer todas as suas vontades. Chegava a derrubar copos no chão para quebrá-los. Seu pai, encantado com a filhinha começando a falar e a ficar esperta, deixava que os copos virassem cacos e depois comprava outros para que ela quebrasse mais. Talvez porque ele achasse muito bonitinho ela dizendo “Vai pebá…”, que poderia ser traduzido por “Vai quebrar…”, enquanto empurrava os copos pela mesa para que eles caíssem e, realmente, quebrassem. Não sei quanto tempo essa sintonia durou, mas, com certeza, muitos copos tiveram um destino não muito agradável na mão dessa menina sapeca.

Essa menina cresceu. Sempre ouvia contarem essa história com um pouco de vergonha e achando meio sem propósito isso de deixar que ela destruísse coisas só porque era bonitinho. Depois de muito tempo, quando não estava mais morando com o pai e não quebrava mais copos de propósito, ganhou seis copos do pai, todos combinando, simples, mas bonitinhos. Passou-se mais um tempo, alguns daqueles seis copos quebraram. E não é que o pai repetiu o presente e deu copos de novo para a filha? Mais seis copos, um pouco maiores, todos combinando, simples, mas bonitinhos. Analisando friamente, acho que ele só queria dizer que ela poderia continuar a quebrar copos, todos os copos que quisesse. Talvez fosse a maneira bastante peculiar dele dizer que sentia saudade daquela menininha. Talvez fosse a maneira dele demonstrar amor pela pessoa que a criança se tornou.

A menina sou eu e o meu pai se foi há dez anos. Um dia, abri meu armário e percebi que metade dos copos que estavam ali tinha origem no meu pai. Sinal de que eu não quebrava mais tantos copos assim, pelo menos os reais, de propósito. Mas percebi que poderia ter quebrado muitos outros. Imaginários claro. E sei que preciso quebrar muitos outros. Ainda falo dos virtuais. E posso até quebrar alguns sem querer. Tanto reais quanto fictícios. Mas num mundo grande assim, sempre vai haver mais copos pra mim. Ou uma canequinha de plástico mesmo, não tem problema. Pelo menos é isso que se passa hoje pela minha cabeça porque, graças ao meu pai, aprendi um pouquinho mais sobre a fábula da vida.