A vovi
É pelo fruto que se conhece a árvore. (Mateus, 12,33)
Ainda me impressiona que ela tenha morrido com medo de morrer. Ou com nenhuma vontade de morrer depois de tanto tempo e mesmo com os poucos minutos de consciência que tinha ultimamente. Ah, aquele alemão infeliz do Alzheimer não dá a menor chance quando resolve travar uma batalha…
A vovi não conheceu outro país, nem sequer teve passaporte, nunca andou de avião e dá pra contar nos dedos de apenas uma das mãos quantas vezes foi à praia. Não tinha celular, computador e tenho certeza de que, se chegou a entender realmente o que era um pen drive, foi depois de muito custo. E ainda assim tinha tanta história pra contar que pareciam infinitas. Porque apesar de não ter feito nada disso, ela conseguiu acumular muita vida nos quase 87 anos em que esteve por aqui. Teve doze filhos e perdeu cinco deles. Morou em casa de pau-a-pique durante o desbravamento do Norte do Paraná e depois em apartamento no centro de Curitiba. Fez o que achou que tinha que ser feito e depois aceitou quando fizeram com ela o que achavam que tinha que ser feito. Gostava de jiló. Teve netos, bisnetos. Netos que quase não conheceu, bisnetos que não reconheceu. Casou tarde, praticamente uma solteirona para a época. Perdeu a mãe com seis meses de idade e foi criada por tia e madrasta. Teve TPM e menopausa sem ter a menor idéia do que estava acontecendo com seu corpo e com seus hormônios. Seguiu o marido porque era assim que tinha que ser e se sentiu livre sem ele, mesmo demorando para admitir. Viveu em terras muito quentes e muito frias. E foi se adaptando a tudo isso magistralmente.
Gostava mesmo de ouvir rádio enquanto fazia aquelas palavras cruzadas das mais difíceis. Ou enquanto fazia crochê, talvez tapetes e uns bordados. E também gostava de uma boa conversa, de ficar ali rindo e brincando e contando histórias, mineiramente. E é desta época, desta vovó que eu tenho boas lembranças. Disso e do fato de ela fazer biscoitos de polvilho pra mim quando eu não devia ter nem cinco anos lá forno de barro no sítio de Ubiratã. E como não deixar de lembrar de pelo menos uma das duas mil vezes que deve ter dito que era o tronco e que nós, os descendentes, os galhos em volta dela enquanto estávamos todos reunidos para um almoço, para um aniversário ou só para comer um bom churrasco mesmo.
A vovi também era minha madrinha. Aliás, a Tia Bela me lembrou de uma ótima história que eu também já ouvi algumas vezes. Quando meus pais a convidaram pra ser minha madrinha, ela não quis. Disse que estava velha demais pra isso, que tinham que escolher uma pessoa mais nova pra me acompanhar por mais tempo. Não foi fácil convencê-la. A grande ironia é que ela era a única ascendência que eu tinha. Perdi os avós do lado do meu pai, o avô do lado da minha mãe, perdi até meus pais, mas ainda tinha o tronco, resistente, que ela dizia ser. E não consigo parar de pensar que agora, mais do que nunca, devo ser a folha solta no vento da vida.
E, sim, ela descansou. Sim, ela estava sofrendo. Sim, nós também vamos descansar e não vamos mais sofrer vendo-a sofrer. A razão não pode lutar contra este fato. Mas de que ela vai fazer falta eu não tenho a menor dúvida.
Saudades desde já, Dona Toti.
(Texto escrito em 04/04/2011)
