As bandeirinhas penduradas nas janelas

Foto: Roseane

Em quase todas as janelas estão balançando ao vento com a desculpa de que precisam secar. São a vida colorida na parede de concreto cheia de janelas uniformizadas. Os varais parecem muito improvisados, parecem carregar muito peso, como alguns arranjos em alguns momentos de todas as vidas. Vidas improvisadas à sorte do vento.

De longe parecem tão pequenas! Parecem pequenas bandeiras e não itens de vestuário. Algumas realmente são pequenas. As roupas do bebê do terceiro andar, por exemplo. Uma menina pelo tanto de manguinhas nos diferentes tons da cor rosa.

No sétimo andar, muitas calças jeans. Sétimo? Um, dois, três… cinco… sete, exato! Sétimo andar. Talvez escaldada com lembranças de dias passados, só consigo supor que ali morem muitas pessoas jovens. Naquele que deve ser o apartamento com mais música de todo o prédio. Naquele em que as senhorinhas de respeito da vizinhança acreditam morar os rapazes mais satânicos e viciados em droga de todos os tempos. Aqueles que devem ser o terror do prédio por ouvirem música até tarde. Que incomodam muita gente, menos a quase senhorinha que mora no apartamento de baixo e que até faz coro na reclamação contra o barulho, mas que, no fundo, no fundo, gosta quando o som que vem de lá tarde da noite é o rock clássico porque a faz lembrar de alguém que usava calça jeans e jaqueta de couro e tinha o mesmo gosto musical.

De maneira inversa, as roupas da menininha que vive no terceiro andar estão em conflito com as roupas da senhora da janela vizinha. Muito rosa. Muito bege. Não combinam. Com certeza a bebê chora durante a noite e atrapalha o sono da senhora do apartamento ao lado. Que reclama. Que não queria estar ali. Que torce para que os vizinhos se mudem. Ou para que, da noite para o dia, a criança já tenha dez anos e não chore tanto. Mas que, no fundo, no fundo, queria que a filha tivesse tanta paciência com o netinho quanto os pais da menininha parecem ter com a dona das roupinhas cor de rosa.

As bandeirinhas são mais humanas do que os aparelhos de ar condicionado que figuram em quase todas as janelas do prédio ao lado. Parecem bandeiras em cerimônia de abertura de Jogos Olímpicos. Cores diferentes, tamanhos diferentes. Uma cerimônia vertical de abertura dos Jogos Olímpicos. Ali na terceira janela, segundo andar, está a bandeira do Nepal. Bastante peculiar. Um olhar mais atento poderia ver apenas uma camiseta grande que está presa apenas por um dos lados ao varal da janela. Mas as roupas colocadas na janela são as bandeiras dos territórios dos seus habitantes. São os símbolos vibrantes e coloridos das vidas pequenas e apertadas que acontecem nas caixinhas em forma de apartamento no centro da grande cidade.